Jogo da Seduo
(Playing the Odds)
Nora Roberts

Srie MacGregors 01



Serena prefere se manter distante das questes de sua famlia e alheia a relacionamentos em seu modesto trabalho como croupier no cassino de um navio. Porm, o encontro
com o jogador profissional Justin Blade a faz reconsiderar. Ele se surpreende ao saber que ela  filha de Daniel MacGregor, seu amigo e parceiro de negcios, e desconfia
de que o patriarca tinha segundas intenes ao lhe oferecer a passagem para esse cruzeiro de frias...

Digitalizao e reviso Mystify

Copyright (c) 1998 by Harlequin Books

Originalmente publicado em 1998 pela Silhouette Books,
diviso da Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de
reproduo total ou parcial, sob qualquer forma.

Esta edio  publicada atravs de contrato com a
Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canad.

Silhouette, Silhouette Desire e colofo so marcas registradas da
Harlequin Enterprises B.V.

Todos os personagens desta obra so fictcios .
Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas
ter sido mera coincidncia.

Ttulo original: The MacGregors Serena - Caine

Traduo: Therezinha Monteiro Deutsch

Editor: Janice Florido

Chefe de Arte: Ana Suely Dobn

Paginador: Nair Fernandes da Silva

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 - 102 andar
CEP: 05424-010 - So Paulo - Brasil

Copyright para a lngua portuguesa: 1999
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Fotocomposio: Editora Nova Cultural Ltda.
Impresso e acabamento: Grfica Crculo

             
     
     
     
Captulo Um
    
    
     Sempre h muita confuso, muito barulho e um toque de pnico no embarque e desembarque de passageiros. Alguns esto meio cansados do vo de Miami, outros passaram 
por um derrame de adrenalina no sangue pela antecipao da novidade: a interminvel franja branca do oceano, o navio Celebration, a estada no porto, a passagem para 
o divertimento, para o relax e o romance. Depois de subir a prancha de embarque deixam de ser contadores, assistentes de diretoria ou professores para se transformarem 
em respeitados passageiros a serem alimentados, mimados e entretidos durante os dez dias seguintes. Os folhetos da agncia de turismo garantem isso. 
     Junto ao parapeito do convs, Serena observava a multido. quela distncia podia apreciar o movimento, o colorido e o barulho, que jamais perderiam o encanto 
para ela, sem ser envolvida pela confuso causada por cento e quinze pessoas querendo estar no mesmo local ao mesmo tempo. Os cozinheiros, barmen e camareiros j 
haviam comeado aquela orgia de trabalho que continuaria pelos prximos dez dias, virtualmente, sem ser interrompida. Mas Serena tinha tempo. Aqueles eram seus ltimos 
momentos ociosos, antes que o navio deixasse o porto. Lembrava-se de sua primeira experincia num navio de cruzeiro. A mais nova de trs filhos do mago financista 
DanieI MacGregor e dra Anna Whitefield MacGregor, estava ento com oito anos. Em sua vida s conhecera camarotes de primeira classe, onde os camareiros serviam-lhe 
pezinhos quentes e suco de frutas na cama. Serena gostava daquela poca como gostava da pequena cabina de tripulao que ocupava agora. Os dois fatos significavam 
aventura.
     Lembrava-se, tambm, do dia em que contara aos pais sobre seus planos de se empregar no Celebration. O pai havia protestado e alegado que era um desperdcio, 
para uma jovem to culta e educada. Quanto mais ele se exaltava, mais forte se tornava seu sotaque escocs. Uma moa que se graduara na Smith com a tenra idade de 
vinte anos, que se aperfeioara em ingls, histria e sociologia esfregando o convs de um navio! Serena assegurou-lhe que no era aquela sua inteno, e a me rira 
dizendo "Daniel, deixe a menina viver". E fora o que ele fizera, j que Daniel MacGregor era indefeso diante das que ele chamava "suas mulheres", apesar de seus 
um metro e oitenta e sete e noventa e oito quilos.
     Assim, Serena ficara com o emprego e escapara do que comearia a ser um estudo de anos sem fim. Trocara sua sute de trs cmodos na manso da famlia, em Hyanins 
Port, por uma cabina apertada num hotel flutuante. Nenhum de seus companheiros de trabalho ligava para o seu Q.I. ou para os diplomas que possua, no sabiam que 
seu pai podia comprar toda a linha de navios de cruzeiro, se quisesse, nem que sua me era uma autoridade em cirurgia torcica. No sabiam que seu irmo mais velho 
era senador e o mais novo, procurador do Estado. Quando a olhavam viam apenas Serena, e era isso que ela queria.
     Erguendo a cabea, deixou que o vento brincasse com seus cabelos, uma massa de um dourado rico, s encontrado em pinturas antigas. Suas mas do rosto eram 
altas, e o queixo, bem definido e teimoso. A pele recusava-se a tornar-se morena, permanecendo num delicado tom de pssego que contrasta a com o azul-violeta dos 
olhos. O pai os chamava de olhos cor de prpura, j os romnticos diziam que eram cor de violeta. Serena teimosamente dizia que eram azuis e pronto. Os homens se 
sentiam atrados por aqueles olhos nicos e pela elegante sensualidade que emanava dela, sem que percebesse, pois no estava interessada nisso.
     Intelectualmente, Ser na achava que um homem era um tolo caso se deixasse impressionar apenas por cores. Afinal, era apenas uma questo de heranas genticas 
se combinando, com o que ela nada tinha a ver pessoalmente. Ouvira elogios aos seus olho durante vinte e seis anos com uma espcie de distante surpresa. Havia na 
biblioteca do pai um retrato de sua bisav, que era a figura de Serena. Se algum perguntasse, ela poderia explicar os processos genticos que resultam em semelhana, 
desde a estrutura ssea at a cor dos olhos, passando pelo conhecido gnio. Mas, em geral, os homens que encontrara no estavam interessados em explanaes cientficas, 
e Serena no estava interessada neles.
     L embaixo a multido flua para a prancha de embarque. Logo a banda de calipso estaria tocando no convs Lido para distrair os passageiros enquanto o navio 
se preparava para zarpar. Ela gostava de ficar ali fora ouvindo a msica alegre, ritmada, e os risos. Haveria um buf carregado com mais comida do que mil pessoas 
poderiam consumir bebidas exticas e excitao. Logo os parapeitos estariam repletos de pessoas que queriam olhar pela ltima vez a terra antes que estivessem em 
mar aberto.
     Pensativa, olhava os ltimos passageiros subir a bordo. Era o ltimo cruzeiro da temporada. Quando chegassem de volta a Miami, o Celebration iria ficar no estaleiro 
por dois meses e quando voltasse a navegar Serena no estaria nele. J decidira que chegara o momento de Ir embora, Quando aceitara aquele emprego estava em busca 
de liberdade depois anos de estudo, das expectativas da famlia e de sua prpria inquietao. Sabia que havia feito algo por si mesma. Pelo menos, encontrara a independncia 
que sempre desejara e escapara do nicho para o qual tantas de suas colegas haviam sido determinadamente dirigidas: um bom casamento.
     E, no entanto, se bem que houvesse encontrado a liberdade e a independncia, no encontrara o bem mais precioso da vida: uma finalidade. O que Serena MacGregor 
queria fazer pelo resto de sua vida? No queria seguir uma carreira poltica, como seus dois irmos haviam escolhido. No queria ser professora. Queria excitao 
e desafios, coisas que com certeza no iria encontrar numa sala de aula. Todas eram respostas negativas, mas sabia que, fosse qual fosse o modo que iria passar o 
resto de sua vida, no seria flutuando eternamente nas Bahamas, de um lado para outro.
     Est na hora de abandonar o navio, Rena, disse a si mesma com um sorriso. A aventura est a sua espera atrs da prxima esquina. No saber o que se quer torna 
a busca ainda mais incitante.
     O primeiro longo e grave apito era o sinal para ela. Afastando-se do parapeito, foi para sua cabina, trocar de roupa.
     Em meia hora entrou no cassino do navio vestindo o elegante smoking que era seu uniforme. Havia prendido os cabelos num coque a altura da nuca, sem o que eles 
tenderiam a cair-lhe dos lados do rosto e logo suas mos estariam ocupadas demais para afast-los.
     Os enormes lustres e os candelabros estavam acesos, espalhando luz sobre o tapete vermelho e dourado art dco. Altas janelas curvas davam vista para o convs 
do Passeio e para o verde-azul do mar. Nas paredes alinhavam-se as mquinas caa-nqueis, como silenciosos soldados a espera da ordem de ataque. Tentando ajeitar 
o lao da gravata que jamais conseguia fazer como devia, Serena encaminhou-se para seu supervisor. Como para todos os marinheiros o balano do navio no afetava 
o seu equilbrio.
     - Serena MacGregor apresentando-se para o trabalho, senhor - disse, enrgica.
     Voltando-se, com uma prancheta nas mos, ele observou-a de alto a baixo. A compleio forte de pugilista de Dale Zimmermann distribuia-se por seus um metro 
e oitenta e trs de altura. O rosto dele era bonito, amorenado, com ruguinhas de expresso nos cantos dos olhos azuis, e cabelos aloirados pelo sol se encaracolavam, 
rebeldes. Tinha a reputao, que alis ele mesmo espalhava, de ser um amante maravilhoso. Depois do atento estudo ele sorriu.
     - Rena, voc nunca vai acertar esse lao!
     Colocando a prancheta embaixo do brao, Dale refez o lao da gravata de Serena
     - E que eu gosto de dar trabalho para voc...
     - Voc sabe, amor, se  que vai mesmo nos deixar depois desta viagem, que esta e sua ltima chance de alcanar o paraso. 
     Terminando com a gravata, ele sorriu e Serena ergueu uma sobrancelha. O que comeara um ano antes como ardente perseguio por parte de Dale havia sido contornado 
com as bem-humoradas recusas de Serena em ir para a cama com ele, e haviam se tornado grandes amigos para surpresa mais dele do que dela. . .
     - Vou detestar perd-la - suspirou Serena. Depois perguntou com um sorriso sem malcia: - Aquela ruivinha de Dakota do Sul foi feliz para casa?
     Os olhos de Dale arredondaram-se:
     - Algum j lhe disse que voc enxerga demais.
     - Todo mundo! Qual  a minha mesa?
     - A nmero dois.
     Dale pegou um cigarro e acendeu-o enquanto ela se distanciava. Se um ano atrs algum lhe houvesse dito que uma mulher extraordinria como Serena MacGregor 
no s o manteria a distncia como tambm o faria sentir-se fraternal, ele lhe teria recomendado um bom psiquiatra.
     Com um dar de ombros, voltou a prancheta. Ia sentir falta dela, pensou, e no apenas devido a sentimentos pessoais. Serena era a melhor crupie de vinte-e-um 
que tinha.
     Havia oito mesas de vinte-e-um espalhadas pelo cassino. Serena e os outros sete carteadores faziam rodzio a tarde e a noite, com um breve intervalo para o 
jantar. Dependendo do entusiasmo dos jogadores, o cassino poderia ficar aberto at as duas da madrugada. Se estivessem muito animadas, algumas mesas permaneciam 
at as trs. A regra nmero um era dar aos passageiros o que eles quisessem.
     Outros homens e mulheres em smoking acomodaram-se em suas mesas. O jovem italiano que acabava de ser promovido para crupie estava na mesa vizinha a dois onde 
ficava Serena. Ela lhe sorriu, lembrando-se de que Dale lhe pedira para que ficasse de olho nele. Observando o grupo de passageiros que se acumulava diante da porta 
de vidro, esperando que o cassino abrisse, ela disse:
     - Prepare-se, Tony, vamos ter uma tarde e uma noite longas... - ...em que permaneceremos de p, acrescentou em pensamento enquanto Dale fazia sinal para que 
abrissem a porta.
     Os passageiros irromperam. No entraram calmamente, um a um; raramente faziam isso no primeiro dia de viagem. Diminuiriam de nmero no horrio do jantar, depois 
aumentariam de novo at pouco depois da meia noite. Vestiam-se casualmente, shorts, jeans, ps descalos, o uniforme de jogo da tarde. Quando a porta abriu-se Serena 
ouviu a msica que soava no convs do Passeio, porem minutos depois a msica era abafada pelo barulho de moedas caindo na ranhura dos caa-nqueis e o rudo das 
alavancas sendo acionadas.
     Ela era capaz de identificar, ao primeiro olhar, os jogadores profissionais, os amadores e os "sapos". Havia um bom nmero deles em cada fornada de passageiros, 
e eram em porcentagem que jamais aparecia num cassino comum. Em vez de trocar dinheiro por fichas eles simplesmente ficavam andando pelo salo, atrados pelo barulho 
e pelos equipamentos coloridos.
     Havia os que jogavam apenas para se divertir, pouco se importando se perdiam ou ganhavam. Os jogadores compareciam para jogar e em geral demorava pouco tempo 
para que um "sapo" no se contentasse mais em apenas olhar e virasse jogador. Estes eram os que gritavam quando ganhavam e gemiam quando perdiam, reaes estas bastante 
prprias tambm dos viciados em jogo.
     Mas sempre havia os jogadores profissionais. Eles freqentavam o cassino durante o tempo todo da viagem, transformando o perder e o ganhar numa arte... ou numa 
obsesso. No tinham aspecto especfico e nem modo particular de se vestir. O mstico jogador profissional de navios podia ser encontrado tanto numa simptica vovozinha 
de Peoria quanto no executivo da avenida Madison. Enquanto as mesas iam-se enchendo, Serena classificava os ocupantes.
     Sorriu para as cinco pessoas que se acomodaram em sua mesa e rompeu o selo da caixa do baralho.
     - Bem-vindos a bordo - disse, e comeou a embaralhar.
     Levou apenas uma hora para o cheiro de jogo surgir. Ele permeava entre a fumaa e o suor que flutuavam no cassino. Era um odor pesado, tentador. Serena sempre 
imaginara se era ele que atraia as pessoas ou se eram as luzes e o pano verde. o cheiro e o barulho de moedas tilintando nos caa-nqueis... Ela jamais tentara a 
sorte num caa-nqueis, talvez por reconhecer o jogador viciado em si mesma.
     Fazia muito tempo que decidira no arriscar nada a no ser a banca que era posta a sua disposio.
     Durante o primeiro perodo, os crupies mudavam de mesa a cada meia hora. Depois da pausa para o jantar, comeava tudo de novo. o cassino ficava mais cheio a 
noite, todas as mesas completas, e a roda da roleta no parava de girar. As roupas ento eram mais elegantes, como se jogar a noite exigisse mais classe.
     Como as pessoas e as cartas mudavam sempre, Serena jamais se aborrecia. Escolhera esse trabalho para estar entre gente, no sempre entre as mesmas caras que 
encontrara anos a fio na escola, mas pessoas diferentes. Neste ponto alcanara o que pretendia.
     No momento, em sua mesa havia um texano, dois nova-iorquinos, um coreano e um georgiano. Havia identificado todos pelo sotaque. Identificar a procedncia de 
cada jogador fazia parte do jogo tanto quanto dar as cartas. Jamais se cansava. 
     Serena distribuiu a segunda carta, olhou a sua e ficou satisfeita com os dezoito pontos. O primeiro jogador, um dos nova-iorquinos, olhou suas cartas e soltou 
uma exclamao desanimada. Com um sacudir de cabea indicou que bastava. O coreano pediu mais uma, resmungou ''vinte e dois" e deixou a mesa. A nova-iorquina loira 
com um vestido preto, justo, abriu uma dama e uma rainha.
     - Quero mais uma - arriscou o homem da Gergia.
     Contou dezoito, deu um olhar pensativo para Serena e no quis mais.
     O homem do Texas fizera quatorze e no gostava do oito de Serena que estava aberto. Coou o queixo, considerando as possibilidades, tomou um gole do seu bourbon 
e fez sinal que queria mais uma carta. Ela virou um nove.
     - Querida - disse ele, inclinando-se sobre a mesa - voc  linda demais para tirar dinheiro de um homem deste jeito.
     - Sinto muito... - Com um sorriso, ela desvirou sua carta coberta. - Dezoito - anunciou e recolheu as apostas.
     Antes de perceber que algum ocupara o lugar que o coreano deixara vago, Serena viu a nota de cem dlares na mesa. Ergueu a cabea e deparou com um par de olhos 
verdes frios, profundos e diretos. Um verde gelado, com palhetas douradas iluminando a ris. Sentiu um frio percorrer-Ihe a espinha. Ficou olhando o homem, at que 
se forou a piscar.
     Ele tinha rosto magro de aristocrata, mas no era um prncipe. Serena teve aquela certeza instantaneamente. Talvez fosse pela boca grande, sem sorriso, ou as 
grossas sobrancelhas negras. Ou, quem sabe, fosse apenas pelo aviso que ia de seu ntimo para seu crebro. Um governante, sim, mas no um nobre. Era o tipo do homem 
que planeja golpes implacveis e tem sucesso. Os cabelos negros e longos encobriam as orelhas, chegando at o colarinho da camisa de seda branca. A pele morena do 
rosto anguloso era parecida com a de Dale, mas Serena achava que ele no trabalhava numa linha de navegao, como seu supervisor. o amorenado de sua pele era natural, 
no o obtido para estar na moda.
     Ele no tinha postura relaxada como a do texano, nem indolente como a do georgiano, mas sim, lembrava um
     felino, sempre pronto para saltar. Foi s quando as grossas sobrancelhas ergueram-se interrogativas que Serena percebeu que fixara os olhos nele.
     - Trocar cem... - disse, aborrecida consigo mesma. 
     Com movimentos rpidos, deslizou a nota para a gavetinha na mesa e contou as fichas. Quando as apostas estava feitas, embaralhou e distribuiu as cartas. 
     O nova-iorquino observou o dez descoberto de Serena e tentou quatorze. Estourou. o novo parceiro ficou com seus quinze, fazendo apenas um gesto com a mo. A 
nova-iorquina tambm estourou os pontos, o georgiano e o texano fizeram dezenove.
     Serena abriu um trs sobre seu dez, foi em mais duas cartas e estourou com vinte e trs. O homem de rosto perigoso acendeu uma cigarrilha e continuou a jogar 
tranqilamente. Serena compreendeu, no mesmo instante, que ele era um profissional.
     Seu nome era Justin Blade. Seus ancestrais haviam montado pneis ligeiros e caando com arco e flecha. Ela acertara quanto  aristocracia dele, s que seu sangue 
no era real. Parte dele vinha de simples imigrantes franceses e de mineiros galeses. A outra parte era de um cacique comanche.
     Ele no vivera em Reservas e se bem que sua infncia e juventude houvessem sido pobres agora estava habituado com seda sobre a pele. To acostumado que nem 
a notava, como os verdadeiros ricos. Sua primeira etapa havia sido de corretor de apostas de corridas de cavalos, quando estava com quinze anos. Nos vinte anos seguintes 
passara para jogos mais elegantes e se tornara, como Serena percebera, jogador profissional. E parecia estar se saindo bem.
     Justin entrara no cassino com a inteno de passar algumas horas num jogo suave. Um homem pode relaxar com pequenas apostas quando no se importa de perder. 
Seus olhos haviam passado pelas demais mulheres em vestidos de noite, pelos brilhos do ouro e pedras preciosas, indo deter-se na loira masculinizada por um smoking. 
Notou o longo e harmonioso pescoo valorizado pelos cabelos presos, a camisa de seda com babados que acentuavam sua esbeltez e as maneiras finas que indicavam educao 
de bero. Porm havia mais, algo que ele sentia nas entranhas, a poderosa sexualidade que no precisava de movimentos ou palavras para se manifestar. Era a mulher 
com a qual um homem sonhava.
     Justin observou-lhe as mos enquanto ela embaralhava as cartas. Mos finas, com dedos longos e veias azuladas que transpareciam suavemente na pele cremosa, 
cor de marfim. As unhas eram ovais e perfeitas, com o brilho do esmalte incolor. Eram mos feitas para segurar frgeis xcaras de ch de porcelana e docinhos franceses. 
O tipo de mos que um homem, suportaria as chamas do inferno para ter em sua pele.
     Erguendo os olhos, Justin fitou diretamente os dela. Com um levssimo erguer de sobrancelhas Serena sustentou-lhe o olhar. Por que, perguntou-se ela, aquele 
homem moreno, silencioso, despertava-lhe tanta perturbao e curiosidade? Ele no dissera uma palavra desde que se sentara. Nem a ela, nem a ningum da mesa. Se 
bem que viesse ganhando com profissional consistncia, no demonstrava prazer algum com isso. No parecia estar dando qualquer ateno ao jogo, concluiu ela. Tudo 
o que fazia era fit-la com aquela calma e pensativa expresso.
     - Quinze.
     Serena falou de modo distante, indicando as cartas abertas diante dele. Justin fez que sim, pediu mais uma carta e recebeu um seis sem mudar de expresso.
     - Que sorte a sua, filho! - comentou o texano, jovial. Olhando para seu reduzido monte de fichas, fez uma careta. - Ainda bem que algum est ganhando.
     Fez sinal a Serena que queria mais uma carta e estourou com vinte e dois. Tendo virado vinte para a casa ela recolheu a mesa e empurrou vinte e cinco dlares 
em fichas para Justin. Os dedos msculos tocaram os dela. O toque foi leve, mas forte o bastante para fazer com que seus olhos cintilassem ao encontrar os dele. 
Fitando-a, ele no fez meno de retirar a mo. No houve nenhuma presso, nenhuma tentativa de flerte, mas Serena teve a sensao de que seus corpos, e no seus 
dedos, se haviam tocado. Lutando para recuperar o controle ela retirou a mo.
     - Novo carteador - anunciou calmamente, notando com certo alvio que devia passar para outra mesa. Tenhamuma boa noite.
     Foi para outra mesa, esforando-se para no olhar para trs. Mas claro que o fez e deu com os olhos dele fixos nela. Furiosa, advertiu-se e fez um leve movimento 
de cabea, sua expresso tornando-se desafiadora. Pela primeira vez naquela noite viu os lbios dele curvarem-se na sombra de um sorriso que apenas acentuou os ngulos 
de seu rosto. Justin inclinou a cabea, como que aceitando o desafio, e Serena voltou-lhe as costas.
     - Boa noite - disse com voz clara ao novo grupo de jogadores.
     A lua ainda estava alta, prateando a gua escura do mar. Do passadio Serena podia ver as ondas de espuma que o navio criava com seu deslocamento. Passava das 
duas horas da madrugada e o convs estava deserto. Ela gostava daquela hora da madrugada, enquanto os passageiros ainda dormiam e a tripulao ainda no havia iniciado 
seus afazeres. Ficava a ss com o mar, o vento, e podia imaginar-se em qualquer poca que escolhesse.
     Respirava profundamente, inalando o cheiro ativo da maresia e da noite. Chegariam a Nassau logo depois do amanhecer, e o cassino ficaria fechado enquanto estivessem 
no porto. Teria as horas da manh livres para fazer o que bem quisesse, mas preferia a noite.
     Pensou no trabalho daquela noite, no jogador silencioso que sentara a sua mesa, ganhando e observando. Era um homem com o qual a maioria das mulheres gostaria 
de estar, mas no se surpreendia por ele estar s. Um homem solitrio, pensou, e estranho. Atraente, admitiu enquanto se inclinava para que o vento batesse mais 
em seu rosto. Atraente de um modo perigoso. Os riscos deviam ser calculados, as porcentagens medidas... No entanto... No entanto, Serena achava que aquele homem 
no se encaixava nos parmetros da teoria.
     - A noite combina com voc.
     As mos de Serena apertaram o parapeito. Se bem que nunca tivesse ouvido o jogador silencioso falar, nem notado a aproximao dele, tinha certeza de saber quem 
estava atrs dela. Precisou de todas as foras para impedir-se de soltar uma exclamao e voltar-se. Seu corao disparou quando o viu surgir da escurido. Querendo 
que sua voz soasse firme, permaneceu calada pelos instantes que ele levou para apoiar-se no parapeito a seu lado.
     - Sua sorte continuou? - perguntou, ento.
     Justin manteve os olhos no rosto dela.
     - Parece...
     Serena tentou entender o significado da resposta e falhou.
     A voz profunda e suave soara sem inflexo.
     - Voc  muito bom - constatou. - No  comum termos profissionais jogando no nosso cassino.
     Um relmpago de bom humor passou pelos olhos dele enquanto pegava uma cigarrilha e acendia. A fumaa pairou por um segundo no ar e foi desvanecida pelo vento. 
Serena relaxou os dedos que apertavam o parapeito.
     - Est gostando da viagem?
     - Mais do que pensei. - Ele deu uma profunda tragada na cigarrilha. - E voc?
     Serena sorriu.
     -  o meu trabalho.
     Justin apoiou-se de costas no parapeito e sua mo livre ficou perto dela.
     - Isso no  resposta, Serena.
     Uma vez que seu nome estava no crach que trazia ao peito ela apenas ergueu de leve as sobrancelhas ao ouvi-lo pronunci-lo.
     - Estou gostando, sim, senhor...
     - Blade - respondeu ele enquanto contornava de leve o rosto dela com a ponta dos dedos. - Justin Blade, no esquea. Ela evitou recuar, se bem que surpreendida 
pela reao que o toque dele despertava em seu corpo. Continuou a olh-lo, sem demonstrar alterao.
     - Tenho boa memria.
     Com a sombra de um sorriso pairando nos lbios ele assentiu.
     - Sim, por isso  uma boa crupi. H quanto tempo faz esse trabalho?
     - Um ano.
     Apesar dos dedos dele se haverem afastado de seu rosto, o sangue de Serena no esfriou. Sem esconder a surpresa, Justin deu outra tragada.
     - Pensei que fosse mais tempo, pelo seu jeito de embaralhar e dar cartas.
     Pegou a mo dela do parapeito, observou as costas, depois virou-a mirou a palma. Macia, verificou, e firme.
     - O que fazia antes disso?
     Apesar de o bom senso aconselh-la a tomar cuidado, Serena deixou a mo na dele. Sentia fora no toque, embora no tivesse certeza do que significava.
     - Eu estudava.
     - O qu?
     - Tudo que me interessasse. E voc, o que faz?
     - Tudo que me interessa.
     Serena riu, um som suave e cristalino que arrepiou a pele dele.
     - Tenho quase certeza de que  isso mesmo, literalmente, sr. Blade.
     Ela comeou a retirar a mo, porm ele segurou-a.
     - No duvide disso - murmurou. - Prefiro que me chame apenas de Justin, Serena. - Observou o convs deserto, depois o mar escuro. - Este no  um lugar para 
formalismos.
     O bom senso voltou a avis-la que tomasse cuidado, mas o instinto a impelia a provoc-lo.
     - H regras que regem o relacionamento da tripulao com os passageiros, sr. Blade - disse ela, fria. - Preciso da minha mo.
     Quando ele sorriu seus olhos brilharam ao luar, como os de um felino.
     - Eu tambm.
     Ergueu a mo dela e beijou o centro da palma. Serena sentiu o efeito daquele beijo em cada milmetro de seu corpo.
     - E costumo obter o que preciso- sussurrou ele, os lbios roando a palma da mo de Serena.
     A respirao dela acelerou-se. No escuro do convs Justin era pouco mais do que uma sombra com voz, e suaves, mas perigosos, olhos. Sentindo seu corpo clamar 
por ele, Serena tratou de coloc-lo em seu lugar.
     - Desta vez, no. Vou me deitar, j  tarde.
     Continuando a segurar-lhe a mo com firmeza, Justin jogou a cigarrilha fora e retirou os grampos, jogando-os no mar enquanto os cabelos dela caiam-Ihe sobre 
os ombros. Aturdida com tanta audcia, Serena fuzilou-o com os olhos.
     - Sim,  tarde- concordou ele, enfiando os dedos na sedosa massa loira. - Mas voc  uma mulher da noite. Senti isso no momento em q e a vi.
     Com um movimento rpido e certeiro demais para ser evitado, ele aprisionou Serena entre seu corpo e o parapeito. A brisa do mar brincava com os cabelos loiros, 
o rosto dela parecia esculpido em mrmore sob a luz do luar. Justin descobriu que a queria muito mais do que pensara. 
     - Sabe o que eu esta pensando? - Ela tentava pr desprezo na voz.- Que voc  rude e atrevido.
     Ele riu, divertido.
     - Tem razo. Devo confessar-lhe que me distra do jogo imaginando qual seria o gosto da sua boca.
     Serena imobilizou-se. O nico movimento que havia nela era o das madeixas loiras que lhe tocavam o rosto, movidas pelo vento. Em seguida, ela ergueu o queixo 
e seus olhos escureceram, desafiadores.
     - Que pena! - disse, enquanto suas mos se cerravam punhos.
     Passageiro ou no, determinou-se, ia dar um soco naquele homem, do jeito que seus irmos lhe haviam ensinado.
     -  raro alguma coisa ou algum interferir na minha concentrao.
     Enquanto falava, ele aproximou-se mais, e Serena enrijeceu os msculos.
     - Voc tem olhos de feiticeira... Sou supersticioso.
     - E arrogante - acrescentou Serena. -No acredito em supersties.
     Ela viu riso nos olhos dele porque seu rosto estava muito prximo.
     - Acredita em sorte, Serena?
     - Sim.
     E num bom golpe de direita, acrescentou ela, silenciosamente. Sentiu os dedos dele tocarem-lhe a nuca, e a boca aproximou-se da dela. A respirao morna de 
Justin fez os lbios dela se entreabrirem e sua concentrao vacilar.
     Ele ainda segurava a mo de Serena, e seu polegar deslizou sobre a palma, como se quisesse lembr-la do beijo que ali depositara. Lutando contra uma sbita 
fraqueza, ela inclinou-se para trs e desfechou um soco no estmago dele. Quando o punho estava a menos de um centmetro do alvo, o pulso dela foi seguro com mo 
de ferro. Frustrada, contorceu-se para escapar, apenas para ouvir a risada discreta e tranqila dele.
     - Seus olhos a traram, indicando o soco. - Ele a apertou contra si. - Voc precisa treinar mais.
     - Se no me soltar, eu...
     A ameaa silenciou quando os lbios de Justin roaram os dela. No era um beijo, mas sim uma tentao. A lngua dele umedeceu-lhe os lbios como antecipao 
de algo sombriamente doce e proibido.
     - Voc, o qu? - murmurou ele.
     Seus lbios tocaram os de Serena de novo, fazendo o sangue latejar-lhe nas tmporas. Ele se dominava, pois seu impulso era devorar aqueles lbios macios. Ela 
cheirava levemente a mar e vero. Como ela no correspondeu, Justin traou o desenho de sua boca com a ponta da lngua, absorveu-lhe o sabor e esperou.
     Serena sentiu como se estivesse se liquefazendo por dentro. Suas plpebras pesavam muito e fecharam-se, seus msculos se descontraram e o punho agressor abriu-se. 
Pela primeira vez sua mente ficou em branco como uma folha de papel na qual se poderia escrever qualquer coisa. Uma leve sensao de pnico ameaou tomar conta de 
Serena quando Justin mordiscou-Ihe o lbio inferior e sua mente continuou sem pensamentos. 
     O corpo dele estava contra o dela, firme e morno. Sua boca era suave como jamais imaginara que poderia ser a boca de um homem, como o toque da seda sobre a 
pele nua. Tinha um leve sabor de tabaco, e ele, um odor rico e natural, sem interferncia de colnias.
     Justin sussurrou o nome dela como ningum havia feito. O navio adernou, mas ele equilibrou-se com agilidade, continuando a mant-la contra si. Sem qualquer 
pensamento de resistncia, Serena passou os braos pelo pescoo dele e sua cabea inclinou-se para trs, num convite.
     Justin enfiou uma das mos entre os cabelos dela e pressionou-lhe a cabea.
     - Abra os olhos - pediu. Enquanto a fitava, as plpebras dela entreabriram-se, revelando os olhos escurecidos pelo prazer. - Olhe-me enquanto a beijo - murmurou 
ele.
     Ento, sua boca apoderou-se da dela quase com selvageria. Ele podia ouvir o prprio corao batendo alucinado enquanto aprofundava o beijo. Descobria sabores 
nos recessos que explorava, e a lngua dela correspondia com a mesma urgncia. Os olhos dele eram apenas duas fendas enquanto via o prazer nos dela se transformar 
em paixo, tornando-os opacos. Fecharam-se num gemido, e os dele tambm cerraram-se.
     Serena sentia o desejo cravar-se em seu corpo como se tivesse garras. Secretas ansiedades se expunham em tumultuadas exploses. Compreendeu que aquele era um 
homem que poderia despi-la at pr-lhe a alma a nu. E nada sabia dele. Assustada, lutou para libertar-se, mas Justin a manteve presa contra si, corpo e lbios. Em 
um lugarzinho protegido de seu crebro ela compreendeu que ele estava acostumado a tomar o que queria, sem contemplaes.
     Quando se viu livre ela levou algum tempo para recuperar a respirao. Justin a observava com aquela habilidade s dele de se manter absolutamente imvel e 
silencioso. Seus olhos nada diziam. Como defesa habitual, o medo de Serena se transformou em raiva. 
     - Se voc se der ao trabalho de ler as regras em sua passagem ver que no est includo divertir-se com a tripulao.
     - Certas coisas no tm preo, Serena.
     Algo no tom de voz dele a fez estremecer. Era como se Justin houvesse colocado sua marca nela, marca essa que no se apagaria com facilidade. Ela recuou para 
um ponto no tocado pelo luar.
     - Fique longe de mim - avisou-o.
     Justin apoiou-se de costas no parapeito, percorrendo-a com os olhos de alto a baixo.
     - No - respondeu, tranqilo. J demos as cartas, e a vantagem est com a banca.
     - Bem, no estou interessada, por isso saio do jogo.
     Voltando-lhe as costas, ela desceu a escada que levava ao convs inferior.
     Enfiando as mos nos bolsos, Justin fez algumas moedas retinirem e sorriu.
     - De jeito nenhum!
     
     
    Captulo Dois
    
    
     Serena vestiu um short cqui, depois ajoelhou-se para procurar as sandlias embaixo do beliche. De acordo com seus clculos, a maior parte dos passageiros que 
iria passar o dia em Nassau j deveria ter desembarcado. Havia pouca chance de descer a prancha de desembarque com um bando de gente ou de ter que abrir caminho 
entre os txis e guias tursticos amontoados no cais. Uma vez que era sua ltima ida a Nassau ela queria bancar a turista e comprar algumas lembranas para a famlia 
e para si mesma. Amaldioando as sandlias que estavam enfiadas no canto mais distante, rastejou para baixo do beliche.
     - Voc deveria ter aprendido a ser ordeira depois de viver um ano numa caixa de fsforos! - resmungou.
     Caso se deitasse no cho e esticasse os braos para trs ela tocaria as duas paredes opostas da cabina. Na outra direo sobravam setenta centmetros. De um 
lado havia um pequeno guarda-roupa com espelho na porta e um cubculo que chamavam de banheiro. Muitas vezes pensara que era uma sorte no sofrer de claustrofobia. 
Sentada no cho, calou as sandlias, depois tratou de verificar o contedo da bolsa de viagem que pretendia levar. Uma carteira e culos escuros. Bem, no se lembrava 
de nada mais que poderia ser necessrio, pensou, enquanto se punha agilmente de p. Por um instante pensou em perguntar aos outros crupis se queriam ir com ela, 
mas desistiu. No estava com o melhor dos humores e no lhe agradava que algum colega percebesse e resolvesse descobrir o motivo. A ltima coisa que Serena queria 
era falar em Justin Blade. Na verdade, pensou, enquanto ajeitava na cabea o chapeuzinho de sarja cqui, a ltima coisa em que queria pensar era em Justin Blade, 
com seus frios olhos verdes, a larga boca sria e modos rudes. 
     Quando percebeu que estava pensando nele, saiu da cabina, mal-humorada. S mais nove dias, disse a si mesma, ignorando o elevador e subindo a escada.
     Com um sorriso, lembrou-se do vendedor de Detroit que assombrara sua mesa durante a viagem na primavera. Ele chegara ao ponto de segui-la at os alojamentos 
da tripulao e tentar entrar em sua cabina. Ela o despachara, dizendo-lhe que era amante do chefe da casa de mquinas, um italiano moreno com bceps reforados. 
O sorriso apagou-se. Algo lhe dizia que essa ttica no iria funcionar com um homem como Justin Blade.
      medida que subia, o surrado e simples carpete ia sendo substitudo pelo elegante carpete vermelho com arabescos dourados, que se estendia por todo o restante 
do navio. Arandelas trabalhadas achavam-se no lugar da iluminao simples dos deques inferiores. Ao chegar no convs principal, trocou cumprimentos com a tripulao 
que permanecera a bordo. 
     Dois marinheiros se encontravam de cada lado da prancha de desembarque, um com o imaculado uniforme branco de oficial, o outro com uniforme comum de cruzeiro. 
Como sempre, discutiam animados, porm em voz baixa. Serena observou primeiro o diretor da viagem, um ingls baixinho, de cabelos cor de areia e muita energia. Sorriu 
para ele e parou entre os dois homens.
     - Que importante diplomata exige a presena de vocs dois na prancha? - indagou, brincando. - Parece-me que terei de bancar o juiz de novo... O que , desta 
vez? Rob afirma que a sra. Dewalter  uma viva rica - respondeu Jack, o ingls, com seu falar impecvel. - Eu digo que ela  divorciada.
     - Viva! - afirmou convicto o primeiro piloto, cruzando os braos. 
     - Uma linda e rica viva.
     - Sra. Dewalter - tentou lembrar-se Serena.
     - Uma mulher alta - descreveu Jack - com belssimos cabelos ruivos, curtos.
     - Bem penteados - acrescentou Rob.
     - Uma judia linda - murmurou Jack, com ar sonhador. Depois, para Serena: - Tem rosto de menina.
     - Sim... - Serena lembrou-se da mulher que vira no cassino, na noite anterior. - Viva ou divorciada? Perguntou aos antagonistas. - Ela usa anis?
     - Exatamente. - Rob deu um olhar vencedor para Jack. - Ela usa anis, e as vivas usam anis.
     - Os primeiros pilotos desmiolados tambm!
     Jack indicou com um olhar o anel de sinete que Rob usava.
     - O caso  - comeou Serena antes de Rob falar - , que tipo de anis? Aliana de ouro? Aliana de brilhantes?
     - Um solitrio do tamanho de um ovo - esclareceu Rob, dando outro olhar complacente para o adversrio.
     - Viva rica.
     - Divorciada - discordou Serena. - Sinto, Rob, mas  o que tudo indica. Diamantes do tamanho de ovos raramente tm valor sentimental. - Deu uns tapinhas de 
consolo no rosto do primeiro piloto, depois perfilou-se em posio de sentido. - Permisso para ir  terra, senhor!
     - Fora daqui! - Rob simulou um soco no queixo dela. - V comprar uma esteira!
     -  exatamente o que planejo fazer.
     Com uma risada, ela desceu at o cais pela prancha estreita de metal.
     O sol brilhava, o ar era morno, mido e perfumado. Serena pechinchou com meninos que vendiam colares de conchas e decidiu que aquele seria um bom dia, afinal 
de contas. Tinha bastante tempo para percorrer o lugar preferido pelos turistas nas Bahamas.
     - Trs dlares.
     O menino negro e magrinho segurava-dezenas de colares de conchas escuras. Vestia apenas short e tinha no peito um medalho que comeava a oxidar. Seu companheiro 
mantinha um radinho de pilha  altura do ouvido, movimentando o corpo ao ritmo de um animado reggae.
     - Seu explorador! - acusou Serena, bem-humorada.
     - Um dlar.
     O menino riu, sentindo-se um bom pechincheiro.
     - Oh, linda moa - comeou com voz clara e cantada- , se eu pudesse lhe daria o colar apenas por um sorriso seu, mas a meu pai me daria uma surra!
     Serena ergueu uma sobrancelha.
     - E, d para ver que voc  muito esperto! Um dlar e cinqenta.
     - Dois e cinqenta. Eu juntei as conchas e fiz os colares  luz de vela...
     Rindo, ela sacudiu a cabea.
     - S falta voc me dizer que lutou com um cardume de tubares.
     - No h tubares nas proximidades das nossas ilhas moa! - retrucou o menino, orgulhoso. - Dois dlares:
     - Um dlar e meio porque eu admiro a sua imaginao...
     Remexendo na bolsa de viagem pendurada no ombro ela pegou a carteira. O dinheiro passou para a mo dele e em seguida para o bolso do short velho num piscar 
de olhos.
     - Por voc, moa bonita, vou me ariscar a levar uma surra!
     Serena escolheu um colar e viu-se dando mais cinqenta centavos ao menino.
     - Explorador... - murmurou, enquanto ele lhe dava uma piscada.
     Apoiando a mo na bolsa pendurada no ombro, ela saiu andando.
     
     Foi quando o viu no cais,  sua frente. Serena no ficou surpresa como pensou que ficaria. No fundo, sabia que iria encontr-lo. Ele vestia uma camiseta bege 
que valorizava o tom moreno da pele e uma cala jeans desbotada que modelava os quadris enxutos e as coxas musculosas. Apesar do brilho intenso do sol no usava 
culos escuros e nenhuma outra proteo. Parecia no precisar disso. Como ela parasse, indecisa se devia ir na direo dele ou no, Justin veio ao seu encontro. 
Aproximou-se com os movimentos geis de um caador, de um homem, pensou ela sem qualquer motivo, mais acostumado  areia do que ao asfalto.
     - Bom dia!
     Ele vinha com a mo estendida, como se houvessem marcado encontro.
     - Bom dia - respondeu ela fria, recusando-se a dar-lhe o gosto de apertar sua mo. - No vai participar de nenhum dos passeios organizados?
     - No. No gosto de ser dirigido.
     Justin ps-se a andar ao lado de Serena, em direo  cidade. Engolindo as palavras de fria, ela falou com forada voz agradvel:
     - Alguns dos passeios valem a pena. Realmente, so o melhor modo para conhecer a ilha dentro do tempo limitado que ficaremos no porto .
     - Voc j esteve aqui - ele falou com tranqilidade.
     - Por que no me mostra a ilha?
     - Estou de folga - respondeu ela, seca - e pretendo fazer compras.
     - timo. Vi que j comeou. Justin acenou para o colar que ainda estava na mo dela. - Onde quer ir, agora?
     Serena resolveu deixar a diplomacia de lado.
     - Quer fazer o favor de ir embora? Pretendo aproveitar meu dia.
     - Eu tambm.
     - Sozinha - esclareceu ela.
     Justin parou e fitou-a.
     - Nunca ouviu falar de americanos que do apoio um ao outro em solo estrangeiro?
     Pegou o colar e colocou-o no pescoo dela, passando-o pela cabea. Segurou-a pela mo.
     - No.
     Serena queria que o sorriso dele no fosse to arrasador.
     - Vou explicar-lhe enquanto damos um passeio de charrete.
     - Quero fazer compras- lembrou-o Serena, enquanto entravam na cidade.
     - Vai ter idia melhor do que comprar depois de dar umas voltas por a.
     - Justin - Serena ajustou seu passo ao dele porque era melhor do que ser arrastada - , jamais aceitou um "no" como resposta?
     Ele pareceu pensar um pouco, depois balanou a cabea.
     - No, que eu me lembre.
     - Foi o que pensei!
     Ela parou e ficou a olh-lo friamente.
     - Est bem - assentiu ele. - Ento vamos fazer de outro modo. Cara, damos um passeio; coroa, voc faz compras.
     - Com certeza sua moeda tem duas caras - desconfiou ela.
     - Eu jamais trapaceio.
     Solenemente, Justin segurou a moeda, virando-a dos dois lados, para que ela a inspecionasse. No podia simplesmente recusar e ir embora, pensou Serena e viu-se 
assentindo. Com um rpido movimento dos dedos ele jogou a moeda para o ar, apanhou-a quando caiu e colocou-a sobre as costas da mo esquerda. Cara. Ela sabia que 
assim seria.
     - Nunca aposte contra a banca - resmungou Serena, subindo numa charrete. Quando o cavalo comeou a deslocar-se lentamente rua abaixo, ela pensou em manter um 
silncio digno, pelo menos por trinta segundos. Conhecendo-se bem, era forada a admitir que se no quisesse no teria subido na charrete. Pelo menos, no sem discutir. 
Portanto, em vez do digno silncio, colocou a bolsa no soalho da charrete e ignorando o encanto da ruazinha estreita, voltou-se para o companheiro.
     - O que est fazendo aqui?
     Ele passou um brao por trs dela, os dedos tocando-lhe os cabelos.
     - Aproveito a viagem.
     - Nada de respostas espertas, Justin. Queria minha companhia e vai t-la, a menos que eu grite que estou sendo assaltada e pule da charrete. 
     Ele fitou-a por instantes... primeiro com curiosidade, depois com admirao. Ela seria capaz de fazer isso. Acariciou-lhe a nuca.
     - O que quer saber?
     - O que est fazendo no Celebration? - Serena ignorou o prazer que os dedos dele provocavam. - No me parece o tipo de homem para fazer um cruzeiro relaxante.
     - Um amigo me recomendou este navio. Eu andava inquieto e ele era persuasivo... - Acariciou-lhe a nuca outra vez. - O que voc est fazendo no Celebration?
     - Bancando o jogo de vinte-e-um.
     As sobrancelhas dele ergueram-se.
     - Por qu?
     - Eu andava inquieta.
     Apesar da situao, Serena sorriu. O cocheiro comeou o monlogo descrevendo os pontos altos da ilha, mas percebeu que o casal no se interessava por mais nada 
a no ser eles mesmos. Estalou a lngua para o cavalo e ficou em silncio.
     - Est certo, de onde voc vem? - perguntou Serena, comeando tudo, de novo. - Tenho o hbito de colocar cada pessoa em sua regio e no sei onde coloc-lo. 
     Justin sorriu enigmaticamente.
     - Eu viajo.
     - Originalmente - insistiu ela, apertando os olhos diante da evaso.
     - Nevada.
     - Las Vegas - assentiu Serena. - Voc passou um bom tempo por l. Imagino que  a cidade ideal para quem tem as habilidades certas. - Como ele apenas sacudisse 
os ombros, ela observou-lhe o perfil. - E o que faz para viver? Joga?
     Justin virou a cabea at que seus olhos se encontraram.
     - Sim. Por qu?
     - Restaram apenas dois jogadores na mesa ontem  noite - comentou ela. - Voc e o georgiano, que estava com menos sorte.
     - E os demais?
     - Oh, o texano apenas gosta de jogar, ele no faz questo de ganhar. A loira de Nova York pensa que  uma jogadora. - Talvez porque o andamento da charrete 
era embalador, Serena sorriu, descontrada. - Mas no consegue parar de pedir cartas no momento certo. Sempre quer chegar ao mximo na tentativa de vencer... O novaiorquino 
presta ateno nas cartas, mas no sabe apostar. Voc tem toda a concentrao que diferencia o profissional do amador.
     - Teoria interessante - comentou Justin. Com a ponta do indicador puxou os culos de sol de Serena at a ponta do nariz, a fim de ver os olhos dela sem interferncia.
     - Voc joga, Serena?
     - Depende do jogo e das chances. - Ela recolocou os culos no lugar. - No gosto de perder.
     Pela expresso dos olhos dele, soube que Justin no se referia a jogo de baralho, mas sim a um jogo muito mais perigoso. 
     Sorrindo, ele inclinou-se para trs, fazendo um gesto com a mo direita.
     - As praias daqui so lindas.
     - Hum-hum.
     Como se fosse uma deixa, o cocheiro recomeou sua ladainha, dando todas as indicaes sobre a cidade, at que voltaram ao ponto de partida.
     Agora as ruas estavam cheias de gente, a maioria turistas carregando sacolas de compras, mquinas de filmar e fotogrficas. Havia pequenas lojas de ambos os 
lados das ruas, com as portas abertas e as vitrinas cheias de artigos.
     - Bem, obrigada pelo passeio.
     Serena comeou a descer, mas Justin, que j estava no cho, pegou-a pela cintura e, um momento antes de coloc-la suavemente no cho, ergueu-a, e ela ps as 
mos em seus ombros, para equilibrar-se. A leveza dela o surpreendeu, fazendo-o perceber que a sexualidade que emanava de Serena o fIzera esquecer-se de como era 
pequena.
     - Obrigada - ela conseguiu dizer, depois de pigarrear baixinho. - Tenha um bom dia.
     - Pretendo ter.
     Ele segurou-lhe a mo.
     - Justin...
     Serena respirou fundo. Chegara o momento de ser firme, pensou. Aquele breve instante em que ele a segurara nos braos a fizera conscientizar-se da loucura que 
havia sido descontrair-se ao lado dele.
     - Dei o passeio de charrete, agora vou fazer compras.
     - Isso. E eu vou com voc.
     - Vou  procura de lembranas, Justin - tentou desencoraj-lo. - Voc sabe, camisetas, cestas de palha, esteiras... Voc vai se aborrecer.
     - Nunca me aborreo.
     - Mas desta vez vai se aborrecer - disse ela, comeando a andar pela rua de mo dada com ele. - Tenho certeza!
     - O que acha destes cinzeiros que dizem "Bem-vindo a Nassau"? - sugeriu ele, tranqilo.
     Ela esforou-se para no sorrir.
     - Vou ali - Serena apontou para a primeira loja que viu e determinou-se a parar em todas as lojas de Nassau, deixando-o louco.
     Quando, algum tempo depois, a bolsa de viagem continha colares, camisetas e cofrinhos de conchas, ela j se esquecera da determinao de aborrec-lo. Ele a 
fizera rir, a seduo mais sutil. Para um homem que instintivamente ela classificara de solitrio, Justin era excelente companhia. Embora ainda um pouco ressentida, 
pelo menos deixara de ser desconfiada.
     - Oh, veja!
     Serena indicou a casca de coco transformada numa engraada cabea com rosto maroto.
     - Simptica - classificou Justin, pegando a cabea.
     - Ela  ridcula, seu bobo! - Rindo, Serena pescou a carteira na bolsa. -  perfeita para meu irmo. Caine tambm  ridculo... Bem, no o tempo todo - corrigiu, 
escrupulosa.
     A loja de objetos de palha estava repleta de gente e de mercadorias, mas no tanto que Serena no conseguisse abrir caminho para achar tesouros. Ela apontou 
para uma enorme bolsa de palha pendurada, que Justin pegou para ela.
     -  quase do seu tamanho - disse, enquanto a entregava.
     - No  para mim. - Serena examinava a bolsa, atenta.
     - Minha me vive fazendo tric, e esta bolsa seria tima para ela guardar as agulhas e os novelos de l.
     - Feita a mo...
     Serena olhou para a mulher que falara. Era pequenina, morena, e estava numa cadeira de balano, fumando um cachimbo de barro.
     - Mim fez - a mulher, bateu no peito generoso. Na banca de mim no h nada feito em Hong Kong!
     -  um trabalho lindo - afirmou Serena, mais interessada na mulher do que na bolsa.
     Pegando um grande leque feito de folha de palmeira, a ilhoa ps-se a se abanar majestosamente. Serena ficou fascinada olhando os dedos grossos, que exibiam 
cada qual um anel.
     - Voc j comprou uma coisa bonita para sua mulher?
     - A dona da banca sorriu para Justin.
     - No, ainda no - respondeu ele, antes de Serena falar. - O que sugere?
     - Justin...
     - Isto.
     A velha senhora interrompeu Serena, voltando-se para pegar uma pea entre as roupas que estavam a sua direita. Com alguns sorrisinhos e resmungos pegou uma 
dashiki, de fundo bege com todas as cores do arco-ris.
     - Especial- garantiu, entregando-a para Justin. Tem muito prpura, igual aos olhos da sua mulher.
     - Azuis - retrucou Serena - , e no sou...
     - Deixe-me ver... - Justin colocou a tnica junto ao corpo de Serena e decidiu: - Sim, combina com voc.
     - Vista para seu homem esta noite - aconselhou a mulher, enfiando a dashiki numa sacola. - Muito sexy.
     - Excelente idia - assentiu Justin, pagando.
     - Espere a! - Serena apontou para ele com a mo que ainda segurava a bolsa de palha. - Este no  meu homem.
     - No  seu homem? - A mulher caiu na gargalhada, balanando-se na cadeira. - Querida, voc no pode enganar a stima filha de uma stima filha. No pode, mesmo! 
Vai levar a bolsa, tambm?
     - Bom, eu...
     Serena olhou para a bolsa de palha com expresso de quem no sabia como ela fora parar ali.
     - A bolsa tambm. - Justin entregou mais notas  mulher. - Obrigado.
     O dinheiro sumiu no fundo do bolso da saia da mulher, que continuou a balanar-se.
     - Divirtam-se na ilha.
     - Olhe, espere...
     Mas Justin j a estava puxando.
     - No se deve discutir com a stima filha de uma stima filha, Serena! Nunca se sabe a praga que ela pode rogar...
     - Besteira... - comeou ela, mas olhou por cima do ombro para a mulher que se balanava. - Voc no pode comprar roupas para mim. Eu nem o conheo!.
     - Mas comprei.
     - No devia. E mais, pagou pela bolsa da minha me.
     - Com muito prazer.
     Serena suspirou, piscando  claridade quando saram da loja.
     - Voc  impossvel!
     - Est vendo? Voc me conhece. - Pegando os culos que ela empurrara para cima do chpu, colocou-os no lugar. - Com fome?
     - Sim... - Os cantos da boca de Serena tremeram, e ela no pde conter o sorriso. - Sim, estou.
     Com os olhos nos dela ele circulou lentamente a palma da mo com a ponta de um dedo.
     - Que acha de um piquenique na praia?
     No foi simples ignorar a sensao que subia da palma pelo brao, mas ela conseguiu sacudir os ombros de modo displicente.
     - Se voc tiver a comida, conduo e algum refrigerante gelado, talvez eu me interesse.
     - Mais alguma coisa? - perguntou Justin, parando ao lado de um Mercedes.
     - Que eu me lembre, no momento, no.
     - Muito bem, ento vamos.
     Tirando as chaves do bolso, Justin abriu a porta do passageiro para ela. Com a bolsa de viagem pendurada no ombro, ela fitou-o surpresa.
     - Quer dizer que este carro  seu?
     - No.  alugado. H uma geladeira no porta-malas. - Voc gosta de galinha assada fria?
     Depois de colocar a bolsa no assento de trs, Serena ps as mos nos quadris.
     - Voc  muito seguro de si, no?
     - No, s estou jogando com vantagem. - Ele rodeou-lhe o rosto com as mos e roou os lbios nos dela.
     - Apenas jogando com vantagem...
     Serena deixou-se cair no assento do passageiro sem saber se admirava ou detestava a audcia dele.
     - Gostaria de saber que cartas voc esconde na manga... - resmungou, enquanto ele dava a volta no carro para acomodar-se ao lado dela.
     Notou que Justin dirigia como fazia tudo, com arrogante certeza de seu autocontrole. Passaram sob copadas amendoeiras, ao lado de cachos de uvas verdes que 
se tornariam prpuras em cerca de um ms. Galhos pontilhados pelas flores vermelhas e alaranjadas, tpicas da regio, danavam  brisa que vinha do mar. Justin no 
falava, e Serena reconhecia a capacidade que ele tinha para ficar em silncio. No era um silncio desagradvel, mas sim, excitante.
     Enquanto rodavam entre as graciosas casas coloniais construdas por milionrios junto s praias pblicas, ocorreu-lhe que no era comum sentir-se to descontrada 
ao lado de um homem como Justin Blade. Ento, veio o pensamento, depressa demais, de que raramente ela se sentia to descontrada.
     Voltando a cabea, trocou as lindas paisagens tropicais de Nassau pelas feies bonitas, um tanto aquilinas, de Justin. Um jogador, pensou. Um conhecimento 
feito a bordo. Tinha bastante experincia a respeito de ambas as coisas para saber que dali no viria uma relao profunda, duradoura. No entanto, poderia aproveitar 
a companhia dele por alguns dias, se fosse cuidadosa.
     Que perigo poderia haver em conhec-lo melhor? Em passar seu tempo livre com ele? No era como suas colegas do cassino, que se apaixonavam e entregavam seu 
corao a passageiros apenas para se tornarem infelizes e desoladas ao fim da viagem. Quando uma mulher conseguia manter seu corao ntegro at os vinte e seis 
anos no iria perd-lo em dez dias... Iria?
     Justin voltou-se para dar-lhe um de seus frios, srios olhares. Ela sentiu um leve aperto na garganta. Teria de ser mesmo muito cuidadosa, decidiu, como se 
caminhasse por um campo minado.
     - No que est pensando?
     - Em bombas - respondeu ela, branda. - Em mortais e camufladas bombas. - Deu um sorriso inocente.
     - Vamos comer logo? Estou morrendo de fome!
     Com um ltimo e breve olhar, Justin saiu para o acostamento da estrada.
     - Que tal aqui?
     Serena olhou para a praia de areias brancas e o imenso oceano azul-turquesa.
     - Perfeito.
     Ao sair do carro respirou o ar que cheirava a flores, mar e areia quente.
     - No fao isto sempre. Em geral, quando o navio est num porto, passo o tempo lendo, dormindo ou tomando sol no convs. Perdi a conta do nmero de vezes que 
aportei nesta ilha.
     - No aproveita o emprego no navio para viajar? - Justin pegou uma pequena geladeira e uma manta do porta-malas.
     - No. So as pessoas que me interessam. Eu queria descobrir quantos tipos de gente existem no mundo. Serena tirou as sandlias para sentir a areia morna sob 
os ps. - Somos quase quinhentos na tripulao, e apenas dez so americanos. Voc ficaria surpreso em saber a variedade de pessoas que se conhece.  como estar flutuando 
na Liga das Naes Unidas. - Pegou a manta debaixo do brao dele e estendeu-a sobre a areia. - Troquei cartes com pessoas de todos os continentes. - Sentou-se  
indiana, na beira da manta. - Vou sentir falta disso.
     - Sentir falta? - Justin sentou-se junto dela. - Vai parar?
     Colocando o chapu na areia, Serena sacudiu os cabelos.
     - Est na hora. Quero ficar por perto da minha famlia antes de fazer qualquer outra coisa.
     - J tem alguma idia?
     - Estive pensando num hotel-cassino.
     Ela sorriu, com expresso pensativa. Era uma idia que pretendia discutir com o pai. Ele conhecia o melhor modo de obter financiamento para comprar um terreno 
e construir.
     - Voc tem experincia - assentiu Justin, imaginando se ela pretenderia firmar-se como jogadora profissional.
     - A nica diferena  que estaria em terra firme.
     - Uma idia surgiu-lhe na mente, mas decidiu esperar para falar a respeito. - Onde est a sua famlia?
     - Hein? Oh, em Massachusetts. - O olhar de Serena tornou-se frio. - Estou com fome...
     Quando Justin abriu a geladeira ela viu guardanapos e talheres do navio.
     - Como conseguiu isso? - perguntou. - A cozinha no costuma fornecer comida e utenslios para piqueniques.
     - Eu os subornei - explicou ele, com simplicidade, deu-lhe uma coxa de galinha assada.
     - Hum! - Serena mordeu a coxa com apetite. - O que trouxe para beber?
     Como resposta, Justin pegou uma garrafa trmica e dois copos de plstico com o logotipo do navio.
     - Como est a galinha?
     - Deliciosa! Coma. - Ela aceitou o copo com o lquido rosa e provou, cuidadosa. Era suco de frutas com rum da ilha. - Oh, oh! A especialidade do Celebration! 
- Deu um olhar duvidoso para a bebida. - Em geral tomo o cuidado de no chegar a menos de meio metro desta bebida.
     - Mas agora voc est de folga, na praia - lembrou-a Justin, pegando um pedao de galinha da geladeira.
     - E quero viver para contar isto - murmurou ela.
     Por alguns momentos, Serena concentrou-se na galinha e no prazer de nada ter a fazer a no ser sentir a brisa do oceano.
     - Pensei que as praias daqui fossem mais concorridas - comentou Justin.
     - Hum... - Ela assentiu depois de beber. - A maior parte dos turistas que no est fazendo compras est em passeios com guias ou nas praias do outro lado da 
ilha. Alm disso, estamos fora de temporada. - Fez um gesto com o osso da coxa de galinha antes de coloc-lo num guardanapo. - As praias no so to calmas durante 
a estao. Mas, na verdade, em Nassau h muito para se ver, alm de tomar sol e banhos de mar.
     -  mesmo... - Ele olhou-a limpar a areia da perna.
     - Foi o que o cocheiro da charrete disse.
     - Estou surpresa por voc no ter preferido o navio que vai para a ilha Paraso, onde os cassinos funcionam dia e noite.
     - Est? - Inclinando-se, ele tocou-lhe os cabelos. No existe apenas jogo no mundo.
     Justin tocou os lbios dela com os seus, pretendendo dar-lhe apenas um beijo leve, mas a inteno evaporou-se ao sentir seu gosto maduro, clido.
     - Como pude me esquecer de como quero voc? Murmurou e sufocou a resposta dela num beijo profundo.
     Sua lngua passou entre os lbios de Serena, que se abriram no momento em que ele, esperto, a fez deitar-se de costas na manta. Sentindo o corpo musculoso contra 
o seu, Serena comeou a protestar, mas seus braos rodearam o corpo msculo, puxando-o para si, e sua boca, vida, foi ao encontro da dele. Os raios de sol filtravam-se 
por entre as folhas da palmeira embaixo da qual eles estavam, alternando luz e sombra sobre os rostos colados. Justin beijou Serena como ela jamais havia sido beijada, 
com lbios, dentes e lngua, acariciando, devorando, seduzindo. Suas bocas se misturavam com um gosto mais poderoso do que o do rum que haviam tomado.
     Uma gaivota planou sobre o mar com um lamentoso grito que nenhum dos dois ouviu, ento, com um rpido bater de asas, desapareceu como se jamais houvesse estado 
ali. Quando Justin passou as mos pelos braos de Serena, ela sentiu o efeito do toque em cada milmetro do corpo. Sentiu os mamilos enrijecerem, e suas coxas apertaram-se. 
Desejando que o imaginrio fosse real, ela gemeu e mexeu-se sob ele, num convite. 
     Afastando os lbios dos dela, Justin beijou-a no pescoo, fazendo-a alcanar o limite da razo. Ele a queria. Queria sentir a pele macia tornar-se quente e 
mida sob suas mos. Queria tocar cada curva e cada reentrncia, sentir cada pulsao e o gosto dela at que ambos mergulhassem na loucura. . .
     O desejo o atingiu com uma violncia que ele jamais experimentara no instante em que as mos dela acariciaram-lhe as costas, apertando-o e arranhando-o, enquanto 
ele lutava por no esquecer que no se encontravam sozinhos num quarto silencioso e escuro. Alguma mulher o fizera ter tanta sensao com apenas um beijo?
     Beijando e sugando, ele deslizou os lbios at a orelha feminina.
     - Vamos voltar agora, Serena. - Lambeu o lbulo da orelha e depois prendeu-o de leve entre os dentes. Vamos para meu camarote. Eu quero voc. Aquelas palavras 
pareceram flutuar nos limites da conscincia dela antes que seus sentidos penetrassem atravs da paixo.
     - No. - Ao ouvir a prpria negativa, Serena agarrou-se ainda mais a ele. - No - repetiu, desta vez empurrando-o e se desvencilhando dele. Sentou-se e abraou 
os prprios joelhos, mantendo-se assim at a respirao se normalizar.
     - No - disse, pela terceira vez. - Voc no tem o direito de... de...
     - De qu? - Justin tomou o rosto dela entre as mos e puxou-o para si. - De querer voc ou de faz-la ver o quanto me quer?
     Naquele momento os olhos dele no estavam frios, mas sim, brilhantes e zangados. Serena lembrou-se de sua primeira impresso de rudeza e dominou um arrepio 
antes de empurrar as mos dele.
     - No venha me dizer o que eu- quero! Se est interessado em um rpido divertimento de cruzeiro procure outra pessoa. No vai ter nenhuma dificuldade. 
     Pondo-se de p, ela encaminhou-se furiosamente para o mar, porm Justin segurou-a por um brao e a fez voltar-se.
     - E voc no venha me dizer no que estou interessado! Nem mesmo sabe onde estamos. Eu poderia t-la possudo numa praia pblica,  luz do dia.
     -  mesmo? - Ela enfureceu-se mais porque ele acabava de dizer a verdade. -  mesmo? Se tem tanta certeza, por que no fez isso?
     - Porque gosto de privacidade, mas continue me pressionando e farei uma exceo.
     - Convencido! - gritou ela, voltando a caminhar para a rebentao.
     Quando a gua j estava quase nos joelhos, foi obrigada a girar nos calcanhares quando Justin a segurou de novo. Por instantes, Serena achou que havia calculado 
mal. No era aconselhvel alimentar a raiva que via nos olhos dele, porm ela jamais tinha sucesso em dominar-se depois de ter passado de um certo ponto. Quando 
Justin puxou-a para junto de si ela comeou a amaldio-lo, porm ele calou-a com um beijo arrebatador. O desejo crescia dentro dele com a mesma rapidez que a raiva 
despertada por Serena. 
     Sabendo aonde aquela situao chegaria se no fosse o primeiro a parar, soltou-a. Serena caiu sentada. Primeiro revelou-se choque em seu rosto, depois, fria.
     - Voc... voc... seu animal!
     Erguendo-se, ela se atirou contra ele, pensando apenas em se vingar. Mas quando Justin a segurou pelos braos e a afastou de si ela viu que ele ria.
     - Sabe que fica ainda mais bonita quando est zangada?
     O tombo dentro da gua no amainara a raiva de Serena.
     - Voc vai me pagar por isto, Justin Blade!
     Tentou dar-lhe uma bofetada, mas o impulso s serviu para que casse de novo no mar, enroscada com ele.
     - Tire as mos de mim, seu idiota! - Ela submergiu numa onda e emergiu, limpando o rosto. - Ningum faz isso com uma MacGregor e fica impune.
     Na tentativa de evitar que ela fizesse ambos se afogarem, a mo de Justin tocou-lhe um seio, e no instante
     seguinte ele a beijava de maneira sfrega, enquanto a acariciava por cima da blusa molhada. Apesar dos gemidos de prazer, Serena continuou se debatendo, e outra 
onda submergiu os dois. Os lbios dela estavam salgados, e Justin sentiu a maciez das coxas femininas quando a onda seguinte os fez rolar. Com uma risada abafada 
ele ouviu-a gritar improprios, enquanto procurava respirar. De novo uma onda empurrou-o para cima dela e os arrastou para a praia. L ficaram ambos, ofegantes, 
dentro da gua rasa. 
     - MacGregor? - repetiu Justin, de sbito, sacudindo a cabea. Gotas de gua dos cabelos dele respingaram no rosto dela. - Serena MacGregor?
     Ela empurrou os cabelos para trs, tentando pensar com clareza. Seu corpo tremia com a explosiva combinao de dio e desejo.
     - Sim. E assim que me lembrar de uma daquelas incrveis pragas escocesas vou rog-la contra voc!
     Pela primeira vez Serena via surpresa no rosto dele. Isso teve o efeito de dissolver a raiva dela e substitu-la por espanto. Justin olhava-a com ateno. Ainda 
ofegante, Serena sustentou-lhe o olhar, mas comeou a sentir-se confusa quando ele sorriu. Mais ainda quando ele pendeu a cabea para trs e soltou uma gostosa gargalhada. 
O riso dele era contagiante, mas quando ia rir tambm Serena concentrou-se numa enorme concha de caramujo sob suas costas, cutucando-a.
     - O que  to engraado? - perguntou, fria. - Estou ensopada e suja de areia. Devo estar toda arranhada por conchas e no terminei de comer!
     Ainda rindo, Justin sacudiu a cabea, depois deu-lhe um beijo na ponta do nariz.
     - Pergunte-me isso depois. Agora, vamos nos enxugar e comer.
     
     
     
     
     
    Captulo Trs
    
    
     Serena MacGregor! Justin sacudiu a cabea enquanto abria o estreito guarda-roupa para pegar uma camisa. Era a primeira vez que se sentia confuso em tantos anos. 
O homem que leva a vida de acordo com sua vontade no deve estranhar quando  surpreendido.
     Estranho foi no ter notado as semelhanas com a famlia, mas as feies dela agora pouco tinham em comum com os traos do rosto largo e dos rebeldes cabelos 
vermelhos do pai, Daniel MacGregor. Tornara-se uma verso moderna do pequeno quadro que ele tinha em sua biblioteca.
     Quantas vezes estivera na fortaleza de Hyannis Port no decorrer de anos? Lembrou-se que, em todas elas, Rena, como a famlia a chamava, estava no colgio interno.
     Por algum motivo ele a imaginara como uma estudante certinha, de culos, com o cabelo ruivo de Daniel e a excntrica dignidade de Anna.
     Sim, Serena MacGregor era uma surpresa para ele. O engraado, pensou,  que ela aceitara um trabalho que lhe rendia pouco mais do que a passagem naquele navio 
quando diziam que tinha um Q.I. que se equiparava ao do pai e dinheiro bastante para viajar pelos mares num iate prprio.
     Realmente, os MacGregor eram estranhos, teimosos e predispostos ao inesperado.
     Por um instante Justin ficou parado, nu at a cintura, a camisa esquecida nas mos. Seu torso era moreno e forte, a pele bem esticada sobre o trax onde, do 
lado esquerdo, havia uma cicatriz de uns doze centmetros.
     Relembrava...
     Na primeira vez que vira Daniel MacGregor, Justin estava com vinte e cinco anos. Uma onda de sorte havia lhe rendido dinheiro suficiente para comprar a parte 
de seu scio do pequeno hotel em Strip, em Las Vegas. Ele queria aumentar e reformar o hotel, mas para isso precisava de financiamento. Em geral os bancos hesitavam 
em emprestar grandes somas de dinheiro para homens que viviam  custa do pano verde. De qualquer modo, Justin no ligava para banqueiros, com suas mos macias e 
vozes speras, e o ndio que havia nele tinha pouca f em promessas feitas em papis. Ento, ouvira falar em Daniel MacGregor.
     A seu modo, informara-se sobre o mago financista. Ele tinha fama de ser um escocs teimoso e excntrico que fizera as prprias regras e vencera na vida. Justin 
entrara em contato com ele por telefone e cartas durante um ms,
     depois fora pela primeira vez  fortaleza de Hyannis Port.
     Daniel trabalhava em casa. Ele no gostava de edificios de escritrios onde se dependia de elevadores e de secretrias. Comprara um bom pedao de terra perto 
do mar com o dinheiro que ganhara com o prprio suor e inteligncia. Logo percebera que poderia ganhar muito mais, e com facilidade, apenas com a inteligncia. Ento 
construra sua casa e, de dentro dela, administrava seu imprio.
     Era uma casa imensa, com corredores largos e cmodos enormes. Daniel no gostava de gente amontoada. A primeira impresso que Justin tivera daquele MacGregor, 
ao ser levado  sala que funcionava como escritrio, fora de grandeza e sabedoria.
     - Ento, voc  Blade.
     Daniel tamborilava os dedos na superfcie da escrivaninha que fora esculpida no enorme tronco de madeira vermelha de uma rvore gigante da Califrnia.
     - Sim. E o senhor  MacGregor.
     Um sorriso iluminou o rosto largo.
     - Sente-se, menino.
     Daniel no notou qualquer alterao na fisionomia de Justin ao usar aquele termo e cruzou as mos sobre o ventre enquanto ele se sentava. Gostava do modo como 
Justin se movimentava, era por onde julgava um homem.
     - Ento, voc quer um emprstimo.
     - Estou oferecendo um investimento, sr. MacGregor - corrigiu Justin, frio.
     A cadeira designada para ele sentar-se era do tipo que parecia engolir um homem, mas Justin acomodou-se nela muito  vontade, de maneira que revelava sua auto-confiana.
     - Com minha propriedade como garantia,  claro.
     - Hum... hum...
     Daniel colocou as mos em torre enquanto estudava o jovem a sua frente. No era simplesmente um homem, concluiu, ao observar as feies aristocrticas. Frio, 
controlado e potencialmente violento. Sangue comanche, sangue de guerreiro, mas no dado a encrencas. O prprio Daniel descendia de bons guerreiros.
     - O que me oferece, menino?
     Uma resposta cida surgiu na mente de Justin, que a deixou passar. Inclinou-se e pegou a pasta de couro.
     - Tenho os documentos de propriedade, avaliaes e assim por diante.
     Daniel deu uma breve risada e fez um gesto que dispensava os papis.
     - Acha que teria chegado at aqui se eu no soubesse o que possui? E quanto a voc, pessoalmente? Por que eu deveria confiar meu dinheiro a voc? 
     Justin recolocou a pasta no cho.
     - Pago minhas dvidas.
     - H muito que estaria liquidado se no as pagasse. O escocs riu de novo. - J ganhei muito dinheiro, menino.
     - S um tolo recusaria mais - respondeu Justin, mansamente.
     Inclinando a cadeira para trs, Daniel parou de rir e assentiu.
     - Voc est certo. Ento sorriu, batendo com a palma da mo sobre o tampo da mesa. - Quanto precisa?
     - Trezentos e cinqenta mil dlares - respondeu Justin sem pestanejar.
     Daniel inclinou-se sobre a mesa, pegou uma garrafa de usque e um baralho.
     - Vamos resolver no pquer.
     Jogaram por uma hora, falando apenas para apostar, ir no jogo ou fugir. Justin ouviu as reverberantes badaladas do relgio de pndulo vir de algum lugar da 
casa.
     Algum bateu  porta e Daniel respondeu com um grito; ningum mais veio perturb-los. O cheiro do charuto de Justin misturava-se com o aroma do usque e o odor 
de rosas das floreiras das janelas. Depois de perder mil e quinhentos dlares Daniel inclinou a cadeira para trs de novo.
     - Voc precisa de acionistas.
     - Acabo de me desligar de um scio. - Justin apagou o toco de charuto. - No quero outros.
     - Acionistas, menino. - Daniel colocou o baralho de lado. - Se quer conseguir dinheiro, precisa, primeiro, alardear esse fato. Um homem que joga como voc sabe 
disso. - Com os plidos olhos azuis fIxos em Justin ele pensou por alguns momentos. - Posso emprestar-lhe o dinheiro a dez por cento. Se fosse esperto, voc guardaria 
sessenta por cento e aplicaria o resto. - Depois de olhar o usque contra a luz, ele esvaziou o copo e sorriu. Ficaria rico.
     - Eu sei.
     A sonora gargalhada de Daniel fez as vidraas vibrarem.
     - Fique para o jantar - disse, erguendo-se.
     Justin ficou para o jantar e tornou-se rico. Trocou o nome do hotel para Comanche e o transformou num dos mais finos cassinos de Las Vegas. Depois de algum 
tempo, adquiriu um hotel decadente em Tahoe e repetiu a faanha.
     Em uma dcada reuniu cinco hotis de jogos de sucesso e aes de vrias empresas nos Estados Unidos e na Europa.
     Durante os dez anos seguintes, depois do encontro no escritrio da torre, Justin fora vrias vezes  casa de MacGregor, recebera Daniel e Anna em seus hotis 
e pescara com os filhos deles. Mas nunca vira a filha.
     - Uma menina brilhante - comentava Daniel a respeito dela. - Mas no tem tido muita sorte. Precisa de um bom homem... Voc precisa conhec-la.
     E Justin se demonstrara claramente contra aquelas intenes casamenteiras. Ou, pelo menos, assim pensava.
     - O velho diabo - murmurou, vestindo a camisa.
     Fora Daniel que o levara a fazer aquela viagem. Mais do que isso, insistira, pressionara. Nada como um bom ar marinho e mulheres seminuas para um homem relaxar...
     Como trabalhara sem parar naqueles anos todos, Justin pensara no assunto e cara na armadilha quando Daniel lhe enviara a passagem com o pedido que lhe comprasse 
uma caixa de usque escocs no freeshop.
     Ento, o velho pirata ainda estava em ao!, pensou Justin, divertido. Daniel sabia que ele iria passar algumas horas no cassino de bordo e deixara o resto 
a cargo do destino. 
     Com uma risada, Justin tratou de abotoar a camisa. Destino, avaliou, numa situao arranjada... O que diria o velho se soubesse que seu amigo e scio de negcios 
passara a tarde com a filha dele e tivera inteno de lev-la para a cama?
     Exasperado, passou a mo nos cabelos. Filha de Daniel MacGregor, santo Deus! Pegou o palet no armrio e bateu a porta. Se houvesse seduzido a filha de Daniel 
teria feito exatamente o que o velho astuto queria. Seria bem feito para o escocs se evitasse Serena durante o resto da viagem e no dissesse a ele uma s palavra 
sobre o que havia acontecido naquela tarde. Justin viu a prpria imagem no espelho, um homem moreno, alto, de cala preta e blazer branco.
     - E se voc est pensando que pode ficar longe dela, enlouqueceu! - disse a si mesmo. Quando entrou no cassino, Serena achava-se em p junto ao monitor preto 
e branco, falando com um homem loiro que Justin reconheceu como o supervisor do cassino. Ela riu de algo que ele disse, depois sacudiu a cabea. Os olhos de Justin 
estreitaram-se quando Dale fez um carinho no rosto dela. Sabia o que ele sentia: a pele macia e fresca. Dale riu, depois ajeitou lao da gravata de Serena, falando-lhe 
em voz baixa.
     Mesmo reconhecendo sua reao como um cime sem importncia, Justin teve dificuldade em se controlar. Em dois dias Serena o fizera sentir fria, desejo e cime, 
emoes que normalmente mantinha em perfeito equilbrio.
     Amaldioando o pai dela, aproximou-se.
     - Serena - percebeu o leve estremecimento nos ombros dela antes de se voltar - , no vai bancar jogo hoje?
     - Acabo de voltar do meu intervalo de folga. - Serena deveria saber que a trgua de vinte e quatro horas no iria se prolongar. - No o vi aqui ontem  noite. 
Pensei que houvesse desistido da viagem... - Dale deu uma discreta tossida, e Serena voltou-se para ele. - Dale, este  Justin Blade. Como no sucumbi aos encantos 
dele numa praia de Nassau, jogou-me no mar.
     - Ah, sim... - Dale estendeu a mo. - Nunca tentei esse mtodo. Funciona?
     - Cale a boca, Dale - repreendeu-o Serena, docemente.
     - Precisa desculp-la - disse Dale a Justin. - Esta vida no mar nos torna a todos intratveis. Est gostando da viagem, sr. Blade?
     - Estou. - Justin relanceou os olhos por Serena. Est sendo uma experincia indita.
     - Queiram perdoar-me - ela sorriu, com exagerada polidez - , tenho que revezar com Tony. Voltando-lhes as costas, ela foi para a mesa cinco.
     Como seus maxilares doam de tanto que apertava os dentes, Serena obrigou-se a relaxar os msculos. Deu um sorriso profissional aos trs jogadores que estavam 
 mesa, enquanto Justin ocupava a cadeira vazia.
     - Boa noite. Nova rodada.
     Depois de romper o selo da caixa de baralho, Serena embaralhou as cartas, tentando ignorar o olhar fixo e calmo de Justin, que colocava duzentos dlares em 
fichas na canaleta diante dele e acendia um charuto.
     Depois de fechar a cartas com rudo, Serena ofereceu-as a ele.
     - Corta?
     Justin apenas tocou o baralho e colocou vinte e cinco dlares em fichas na mesa. Ela verificou se todos tinham apostado e deu as cartas.
     Serena ganhou trs fichas dele e ficou satisfeita. Ento, deu-lhe dois sete, em duas mos, que ele transformou em vinte e um com dois pedidos de cartas. No 
demorou muito ele havia dobrado suas fichas. Quando chegou a hora de ela trocar de mesa Justin deixou-a furiosa ao mudar tambm. Serena decidiu tir-lo do jogo.
     Durante os vinte minutos seguintes ela mal prestou ateno nos demais jogadores. Via apenas os insondveis olhos verdes ou a mo dele quando fazia uma aposta. 
Apesar de determinada a ganhar dele, as fichas de Justin se multiplicavam.
     - Ganhei!
     O grito do estudante que fazia parte da mesa rompeu a concentrao de Serena. Ela fitou-o, sorrindo.
     - Ganhei trs dlares! - gritou o rapaz para o salo, erguendo as fichas azuis como se fossem um trofu.
     Serena achou que ele estava ligeiramente bbado.
     - Agora - o estudante jogou as trs fichas na mesa e juntou as mos - , estou pronto para jogar!
     Rindo, ela deu as cartas e encontrou os olhos de Justin. Viu humor, e era a primeira expresso que via naqueles olhos em horas. Isso a perturbou. Por um instante 
pensou em estender a mo por cima da mesa e pass-la no rosto sombreado de azul pela barba de um dia. Como era possvel o simples brilho de um sorriso nos olhos 
dele ser to importante para ela?
     - Ei! - O estudante ergueu o copo de cerveja num brinde. - Estou na parada!
     - , no vai dar carta para ele? - apoiou a namorada do rapaz, seca.
     A interrupo clareou a mente de Serena. Erguendo o queixo, continuou a dar as cartas. O brilho de um sorriso no ia faz-la esquecer que estava ali para ganhar 
de Justin.
     - Possvel vinte e um - disse, virando um s para si mesma. - Apostas?
     A namorada do estudante apostou uma ficha. Justin no se mexeu. Erguendo o canto de sua nova carta, Serena se satisfez com um trs. Era uma carta que lhe daria 
espao.
     - No deu vinte e um. - Olhou as cartas de Justin.
     - Dezesseis. Pra ou continua?
     Ele pediu mais uma carta com o simples movimento de um dedo.
     - Aberta ou fechada?
     - Aberta.
     Serena quis mat-lo quando virou um quatro.
     - Vinte.
     Justin fez sinal de que estava satisfeito.
     E tinha que estar, mesmo, ressentiu-se Serena, virando um valete para o jogador seguinte.  apenas uma mar de sorte, disse a si mesma, elevando a parada do 
estudante para dezoito .
     - Catorze - disse ela ao virar outra carta para si mesma. Arriscou mais uma e mordeu o lbio ao virar um cinco. - A banca fica em dezenove - disse, de m vontade. 
- Ganha vinte.
     Recolhendo todas as fichas, menos as de Justin, ela empurrou vinte e cinco dlares em fichas para ele e viu de novo o brilho de um sorriso em seu olhar enquanto 
ele ajeitava as fichas na canaleta, mas desta vez isso no a aqueceu .
     A fumaa pairava no ar, numa nuvem espessa demais para ser absorvida pelo sistema de ar-condicionado. Serena no precisava olhar para o relgio para saber que 
permanecera em p por quase dez horas consecutivas. Gradualmente, o vozerio ia diminuindo, primeiras indicaes de que a noitada estava por terminar. O casal do 
outro lado da mesa com os olhos cansados, comeou a conversar sobre a parada em Porto Rico no dia seguinte. Entre os dois tinham ganhado cinco dlares ao sair do 
jogo.
     Com um rpido olhar ao redor, Serena notou que todas as mesas estavam vazias, menos trs. Restavam apenas dois jogadores na dela; Justin e uma mulher, que identificou 
como a sra. Dewalter que despertara a ateno de Jack e Rob. A dama de cabelos ruivos prestava mais ateno em Justin do que no jogo. Impiedosa, Serena decidiu que 
o diamante na mo dela era vulgar e quase caiu na gargalhada quando a mulher estourou com vinte e trs pontos.
     - Acho que este no  o meu jogo - disse a ruiva, com segundas intenes. Inclinou-se para Justin, aumentando a visibilidade j exagerada do seu amplo decote.
     - Voc tem uma sorte incrvel. Por acaso tem algum sistema?
     Passando um dedo pela manga do blazer dele, sorriu. Serena imaginou como ela ficaria, com o nariz amassado contra o feltro verde.
     Divertido com a ttica bvia da ruiva, Justin ergueu os olhos do decote para o rosto dela.
     - No.
     - Deve ter algum segredo - murmurou ela. - E se o revelasse a mim... durante um drinque?
     - Jamais bebo quando jogo. - Ele soltou uma baforada de fumaa por cima do ombro dela. - Uma coisa interfere com a outra.
     - Apostas? - indagou Serena, um tanto brusca.
     - Acho que, para mim, hoje chega...
     Esbarrando a coxa em Justin ao levantar-se, a sra. Dewalter guardou cem dlares em fichas na bolsa, dando a Serena a discutvel satisfao de ter comeado com 
quatrocentos.
     - Vou para a sala de estar - disse a ruiva a Justin com um insinuante sorriso, antes de se retirar.
     - Boa sorte na prxima vez!
     Quando Serena viu, j tinha falado. Voltou-se e deu com Justin rindo.
     - Quer trocar suas fichas? - indagou ela.
     - Quero, sim.
     "Para ir atrs dessa ruiva falsa", pensou ela, furiosa. Rpida, contou as fichas dele. Setecentos e cinqenta dlares. Ficou ainda mais zangada.
     - Dale est ocupado, eu mesma vou trocar.
     Olhando-a afastar-se pisando duro, Justin lembrou-se do pai dela. No iria ser fcil...
     Serena voltou com um mao de notas presas com um clipe. Contou o dinheiro e colocou-o sobre a mesa.
     - Voc teve uma noitada vantajosa.
     Depois de guardar o documento que ele assinara na gaveta, ela pegou o baralho e Justin segurou-lhe o pulso.
     - Mais uma mo? - convidou, gostando de sentir a pulsao dela acelerar-se sob seus dedos.
     - Voc j trocou as fichas ...
     Ela tentou libertar-se, porm ele apertou mais.
     - Uma aposta diferente, entre mim e voc.
     - Sinto, mas  contra as nossas normas manter jogos paralelos com os passageiros. Agora, se me der licena, vou fechar a mesa.
     - No ser em dinheiro. - Ele observou os olhos azuis se apertarem em fria e sorriu. - Um passeio no convs, se eu ganhar - props, suave.
     - No estou interessada.
     - No est com medo de ficar a ss comigo est Serena? - Ela parou de tentar libertar-se. - Voc tem a vantagem da banca - acrescentou Justin, calmo.
     - Se eu ganhar - comeou ela, soltando cuidadosamente o pulso - , voc promete ficar longe de mim pelo resto da viagem? 
     Justin considerou a proposta. Era uma possibilidade muito mais inteligente do que a que ele propunha. Tragando o charuto pela ltima vez, ele amassou-o. No 
seria a primeira vez que entregava seu destino s cartas.
     - Feito.
     Justin olhou seu dois e seu cinco, depois o dez de Serena que estava aberto. Pediu outra carta e recebeu uma dama.
     Pensou em parar, mas outro olhar a Serena demonstrou que ela estava servida. Ele seria capaz de apostar todo o seu dinheiro que a carta fechada dela era um 
oito. Mantendo os olhos nela, pediu outra carta. Trs de ouros. Ela virou um quatro de paus para si mesma e olhou para ele.
     - Maldio! Juro, Justin, que um dia vou ganhar de voc!
     - No - ele se ergueu, enfiando as mos nos bolsos - , porquue voc est tentando me derrotar pessoalmente, no no Jogo. Vou esper-la l fora.
     Com surpresa, Dale viu sua melhor crupi de vinte-e-um mostrar a lngua para as costas do elegante passageiro.
     Junto da porta de vidro, Justin olhava para Serena dentro do cassino e tinha impresso de estar vendo at a aura de aborrecimento e frustrao ao redor dela. 
Sentia-se mais ou menos do mesmo modo. Com um sacudir de ombros, lembrou-se que se abandonara  sorte. Poderia ter perdido to facilmente quanto ganhara.
     Distrado, tocou a ficha de vinte e cinco dlares que tinha no bolso. Qualquer observador diria que ele continuava com sorte, mas ele achava que teria mais 
sorte se tivesse perdido a ltima aposta. Se continuasse a ver Serena sua vida iria se complicar. Justin gostaria de ser capaz de ignorar a sensao de estar sendo 
vigiado por Daniel MacGregor e a certeza de que se a levasse para a cama pararia de sentir-se atrado por ela. Isso porque sabia que Serena era a primeira mulher 
que ameaava tornar-se parte permanente de seus sentimentos.
     "O que ela diria", imaginou, "se eu lhe dissesse que o pai tramou tudo isto l em sua fortaleza em Hyannis Port?" Um sorriso ergueu os cantos dos lbios dele. 
Ela enforcaria e escalpelaria o velho, concluiu. Olhando-a encaminhar-se para a porta, decidiu deixar aquela notcia para o dia seguinte.
     - Suponho que voc tenha o direito de rir - disse Serena friamente assim que a porta se fechou atrs dela.
     -  o vencedor.
     Justin pegou-lhe a mo e beijou a ponta de cada dedo, num gesto gentil.
     - Espero que seja uma vitria prolongada. Voc fica mais bonita, Serena...
     - Quando estou zangada - terminou ela, tentando fugir do encanto.
     Ele virou a mo e beijou a palma, fitando-a.
     - Realmente, muito bonita.
     - No tente me encantar com elogios. - Inconscientemente ela entrelaou os dedos com os dele. - No h nada de bonito em voc!
     -  verdade - concordou ele. - Vamos. Imagino que voc vai gostar de um pouco de ar fresco.
     - Concordei em dar um passeio. - Comearam a subir a escada. - Foi tudo que prometi.
     - Hum-hum. A lua est quase cheia. Como foi nesta noite?
     - No cassino? - Quando ele abriu a porta para o convs o vento os envolveu, morno e limpo. - Melhor do quede costume. Estamos operando com perdas desde a primavera.
     - Mquinas caa-nqueis demais diminuem a margem de lucro. - Justin passou um brao pela cintura dela, que o fitou. - E vocs ganhariam mais nas mesas se alguns 
dos crupis fossem mais espertos.
     -  difcil se manter esperto quando se trabalha sessenta horas por semana por alguns trocados - comentou ela, triste. - Alm disso, o remanejamento  constante. 
A maior parte deles tem apenas seis semanas de treino, passando de caixa a crupi, e uma boa parte deles no permanece no emprego ao descobrir que o trabalho  duro, 
no as esperadas frias. - Sem notar, ela tambm passou o brao pela cintura de Justin e harmonizou seus passos com os dele. - Esta  minha parte preferida.
     - Qual?
     - A madrugada, quando o navio est em silncio. Pode-se ouvir o mar. Se eu tivesse vigia na minha cabine a deixaria aberta a noite toda.
     - No h vigia?
     A mo dele passou a mover-se pelas costas dela.
     - Apenas os passageiros e os oficiais tm cabinas que do para o mar. - Ela endireitou o corpo, suspirando como se esticasse os msculos cansados. - Contudo, 
viajei durante quase um ano, e no foi  toa. Encontrei uma segunda famlia.
     - Sua famlia  importante para voc? - Ele pensou em Daniel.
     - Claro.
     Como achasse a pergunta esquisita, Serena ergueu a cabea e olhou-o.Quando Justin virou o rosto para fit-la seus lbios quase se encontraram.
     - No faa assim - murmurou ela.
     - Assim como?
     A pergunta foi feita em voz baixa, sem que ele fizesse qualquer movimento para afastar-se.
     - Voc sabe. - Serena virou-se e andou at a amurada.
     - Minha famlia - continuou falando - , sempre foi parte importante da minha vida. A lealdade s vezes  desconfortvel, porm necessria a todos ns. E voc?
     Serena exercia sobre ele uma atrao inconsciente ali, junto  amurada, as curvas macias ocultas e no entanto insinuadas pelo smoking, principalmente agora 
que alguns fios de cabelo se haviam libertado com o vento. Tocado pelo luar, seu rosto parecia esculpido em mrmore.
     - A minha famlia ... - retomando com dificuldade o fio da conversa, ele ficou bem em frente dela. - Tenho uma irm, Diana, com vinte e cinco anos, dez menos 
do que eu. Nunca fomos muito ntimos.
     - Seus pais?
     - Morreram quando eu tinha dezesseis. Diana foi morar com uma tia, e eu praticamente no a vejo h vinte anos. Serena sentiu uma onda de ternura, que tratou 
de sufocar.
     - Que infelicidade!
     - Minha tia jamais aprovou minha profisso - explicou ele, seco - , se bem que jamais tenha recusado meu dinheiro para sustentar Diana... - As mos dele se 
aproximaram do palet de Serena. - Foi mais fcil para minha irm sem eu interferir em sua educao.
     - Que direito tem sua tia de aprovar ou reprovar?
     - Serena estava empolgada demais para reparar que ele desabotoava seu palet. - Diana  sua irm!
     - Minha tia tem a firme crena de que o jogo  coisa do demnio. Ela  uma Grandeau, do lado francs da famlia.
     Serena sacudiu a cabea, como se isso fosse lgico.
     - E voc ...
     - Blade. - Os olhos dele fIxaram-se nos dela. - Comanche.
     Seus rostos estavam mais prximos do que ela imaginava. Embora sentisse o vento atravs do fino tecido da blusa ela no entendia o que ele havia feIto. Engoliu 
em seco enquanto se fitavam. Havia um desafio naquelas duas palavras ou era impresso dela?
     - Eu devia ter imaginado isto - comentou. - Quando voc me olhou pela primeira vez, foi como se voc pudesse ler os meus pensamentos...
     - Isso  culpa do meu sangue francs com gotas de gauls... Meu pai era quase puro comanche e minha me descendia de uma linhagem de um bravo comanche e uma 
francesa pioneira. 
     Lentamente, sem que os olhos deixassem os dela, ele desfez o lao da gravata. Serena engoliu em seco de novo, mas no se mexeu.
     - Contam que um dos meus ancestrais viu uma mulher de cabelos dourados sozinha,  margem de um riacho.
     Havia um cesto a seu lado, e ela cantava, lavando roupa.
     Ele era um bravo guerreiro que matara muitos do povo dela a fim de proteger sua terra. - Justin soltou os botes da blusa dela, um a um. - Ele a quis assim 
que a viu e a tomou.
     - Isso  brbaro! - A garganta dela estava seca. Ele raptou uma moa, tirou-a do seio da famlia ...
     - Dias depois ela mergulhou uma faca no ombro dele, tentando escapar - prosseguiu Justin, suave - , mas quando viu sangue em suas mos no correu. Ficou com 
ele, tratou do ferimento e lhe deu filhos e filhas de olhos verdes.
     - Talvez tenha precisado de mais coragem para ficar que para usar a faca!
     Justin sorriu, notando o tremor na voz e a firmeza nos olhos dela.
     - Ele deu-lhe um nome que, traduzido, significa "Prmio de Ouro" e jamais olhou para outra mulher. Ento,  tradio na minha famlia: quando um homem v uma 
mulher de cabelos de ouro que ele quer, ele a toma.
     A boca de Justin esmagou a de Serena, e a paixo arrebatou-a de imediato. Ele tirou os grampos dos cabelos loiros, que danaram ao vento antes de cair em ondas 
pelas costas. Serena agarrou-se aos ombros fortes, como se tivesse medo de cair tambm nas guas escuras l embaixo. Seu corao saltava no peito, mais ainda depois 
que a mo dele espalmou-se sobre um seio. 
     Com um gemido ela segurou-se mais forte enquanto sentia-se flutuar num turbilho. Justin envolveu o pequeno e firme seio com a mo e perdeu a razo, esquecendo-se 
da gentileza.
     
     Homem nenhum se atrevera a toc-la daquela maneira. E ele se atrevia a faz-lo sem qualquer pedido, sem qualquer palavra de seduo. Era uma fora consumindo 
os dois, um impulso primitivo e bsico demais para ser negado.
     O corpo dela ansiava por ser acariciado, e enquanto seus pensamentos embaralhavam-se, ele a tocava, mostrando a ambos que era o que queriam. Os selvagens, rudes 
beijos em seu pescoo a faziam desej-lo com maior intensidade. A morna brisa do mar parecia alimentar pequenas chamas que em pouco tempo se tornaram imensas e a 
envolveram, ardentes, poderosas.
     A mo em seu seio apertava, alisava, e a outra acariciava-lhe as costas, excitando-a, fazendo-a perder as foras nas pernas. Serena arqueou o corpo contra o 
dele enquanto ondas de prazer a percorriam.
     - No... - a voz de Serena soou muito fraca e distante.
     - No faa isso.
     Mas Justin intensificou o beijo, diluindo os frgeis protestos. A boca de Serena estava faminta demais para dar voz  negativa ditada por seu crebro, Fosse 
qual fosse, a mgica de Justin a dominava. Ela daria tudo que ele pedisse, desde que no parasse de acarici-la. Enfiando as mos nos cabelos negros, puxou-o mais 
para si, sem notar que estavam molhados.
     Quando os lbios dela ficaram livres, e ele lhe beijava o pescoo, ela no pde mais do que suspirar o nome dele. No percebia que gua escorria pelo seu rosto, 
todos os seus sentidos estavam atentos ao prazer que os dedos e os lbios dele proporcionavam. Ento, Justin recuou um pouco, desencostando-a da amurada e, fraca 
pelo desejo, Serena agarrou-se mais a ele, que acariciou-lhe os cabelos.
     - Voc est ficando ensopada - murmurou e tornou a beijar-lhe os cabelos molhados, embriagado por sua fragrncia. - Vamos entrar.
     - O qu? - Aturdida, Serena abriu os olhos e viu a fina cortina de chuva. - Est chovendo?
     A gua fria a fez voltar completamente a si. Ela sentiu como se houvesse sido acordada de um sonho com uma bofetada no rosto.
     - Eu... - Afastando-se dele, passou as mos nos cabelos molhados. - Eu...
     - Agora voc vai dormir, Serena.
     Justin se assustara ao ver quo perto chegara de dar vazo aos seus instintos ali, de p, como um manaco.
     - Sim... - Sentindo os pingos de chuva na pele, Serena fechou o palet. - Sim,  tarde. - Os olhos dela ainda estavam nublados e confusos quando olhou ao redor. 
- Est chovendo... - repetiu.
     Havia algo naquela sbita vulnerabilidade que fez com que Justin a quisesse mais do que queria momentos antes, mas que tornava impossvel possu-la. Enfiando 
as mos nos bolsos, ele as fechou em punhos. Maldito Daniel MacGregor, pensou zangado. O escocs lhe preparara uma armadilha com uma isca de primeira! Se possusse 
Serena com certeza destruiria o relacionamento com o homem a quem queria como pai. Se no o fIzesse continuaria a quer-la. Se esperasse... Bem, aquilo era um jogo.
     - Boa noite, Serena.
     Ela retirou-se depressa, sabendo que bastava um momento para mudar de idia.
     
     
     
    Captulo Quatro
    
     
     Serena foi para o convs Varanda, que devia estar vazio, pois quela hora todos a bordo preferiam a ampla rea aberta da piscina, que ficava perto do Lido Bar 
e Grill. A maior parte dos passageiros estava conhecendo San Juan, passeando pelas ruas caladas com pedras da cidade histrica, explorando fortes, tirando fotos 
das montanhas ao redor. Ningum iria perturb-la na quietude do passadio dos fundos.
     Estava quase adormecendo, esquecida de que combinara ajudar Dale a verificar os lucros da noite anterior. J amanhecia quando Serena por fIm deixara o trabalho 
e dormira apenas quatro horas, sendo despertada pelo rdio-relgio. Terminado o turno da manh, dispusera-se a tomar o sol do meio-dia e descansar.
     Evitava pensar, como havia feito desde as trs da madrugada at o alvorecer. Estava cansada demais para lidar com o que acontecera na noite anterior, mas assim 
que se estendeu na espreguiadeira tudo voltou a desenrolar-se em sua mente. O que era aquilo que acontecia com ela toda vez que os lbios de Justin tocavam os seus? 
Fosse o que fosse, havia jurado que no se repetiria, no entanto no pudera evitar. O que havia naquele homem que a arrebatava, arrastando-a para algo fatal? Cada 
vez estava se tornando mais dificil pensar em voltar atrs. 
     Serena soltou os cordes do biquni que se amarravam na nuca e deitou-se de costas. Precisava ter cuidado, decidiu, e pensar seriamente no que estava acontecendo, 
em vez de ficar rodeando o problema. Se havia um trao em comum entre os MacGregor  que eram realistas, encaravam os problemas e os resolviam. Este, pensou com 
um sorriso, havia sido para ela o lema do cl MacGregor... at surgir o problema "Justin Blade".
     Ele exercia sobre ela uma atrao perigosa. Perigosa, concluiu Serena, porque a envolvera desde o primeiro instante e ainda no enfraquecera. E no se tratava 
apenas da aparncia mscula e perfeita, considerou, ajustando os culos escuros. A aparncia podia ser facilmente ignorada. Era a fora, a atrao sexual e o estilo 
tranqilamente dominador dele. Trs pontos que a desafiavam a igualar-se a Justin, sobremaneira. Era, simplesmente, uma irresistvel combinao para uma mulher-que 
jamais escolhia os caminhos mais fceis. 
     Gostava dele? Serena fez um gesto de desdm, depois ficou pensativa. Gostava? A resposta veio com a lembrana de uma agradvel tarde em Nassau, o rpido entendimento 
entre os dois no cassino, o modo natural com que haviam ficado de mos dadas. Talvez gostasse, admitiu, desconfortvel. Um pouco. Mas ajeitou os culos sobre o nariz 
e fechou os olhos. O problema no era esse, mas sim, como iria lidar com ele nos cinco dias restantes. No poderia se esconder. Na verdade, at poderia, mesmo os 
dois estando no mesmo navio, porm seu orgulho jamais permitiria isso. No. Teria que lidar com ele... e consigo mesma. A idia de passar algum tempo com Justin, 
de conhec-lo melhor, no entanto, era ameaadora. Honestamente, ela via-se obrigada a admitir que desde o primeiro momento percebera que Justin Blade era perigoso. 
Depois de alguns momentos de reflexo, percebeu que no havia chegado a concluso nenhuma, pois a atrao que sentia por Justin roubara-lhe o bom senso.
     Passaria mais alguns dias no Celebration antes de ir para casa por uma longa temporada. Desempregada.Franzindo o nariz, mexeu-se at sentir-se confortvel sobre 
a espreguiadeira. Com a vida para resolver, o encontro com um jogador itinerante no deveria ser prioridade em seus pensamentos, e isso s estava acontecendo porque 
ela permitia. Agora que havia admitido a si mesma que achava Justin atraente e interessante, esqueceria dele.
     Era simples o que tinha a fazer: trat-lo como tratava os demais passageiros. Educada e amigavelmente. Bem, corrigiu-se, colocando os culos no deque, no muito 
amigvel. E nada de apostas particulares, acrescentou com determinao antes de fechar os olhos. A sorte daquele. homem era fenomenal. E o sol estava morno, o convs 
Varanda quieto e agradvel demais para se pensar em complicaes. Suspirando, acomodou-se e adormeceu.
     Morno e agradvel... Essas sensaes apoderaram-se dela, fazendo-a suspirar de novo. O pensamento louco de flutuar nua em uma rajada de vento enquanto o sol 
lhe acariciava a pele fez com que um leve som de prazer escapasse de seus lbios. Seria capaz de flutuar para sempre, sem destino. Sentia uma liberdade... No, um 
abandono. Estava sozinha num mar azulou talvez numa densa floresta verde. Num lugar secreto, solitrio, onde no havia restries e o sol acariciava seu corpo como 
as mos de um amante.
     Podia senti-lo alisando, tornando-se mais quente, prazeroso...os lnguidos dedos do sol... um toque leve, quase irreal... delicadamente sedutor...
     O bater de asas de uma borboleta junto ao seu ouvido a fez sorrir. Continuou imvel, descontrada, no querendo afugentar a borboleta. Leve como o orvalho, 
ela flutuou sobre seu rosto, ali permanecendo por um momento, como se houvesse encontrado uma flor perfumada.
     E, com um bater de asas final, a borboleta murmurou seu nome junto ao canto de seus lbios.
     Estranho, pensou com um gemido de prazer, que a borboleta soubesse seu nome. Movimentando os ombros na direo da gentil carcia em suas costas, Serena ordenou 
aos olhos que se abrissem, pois queria ver as coresdas asas difanas. Viu apenas a fria profundeza dos olhos verdes de Justin.
     Por instantes, ficou a fit-los, deliciada demais para sentir-se confusa.
     - Pensei que voc fosse uma borboleta - murmurou, fechando os olhos de novo.
     -  mesmo?
     Sorrindo, Justin outra vez beijou de leve o canto dos lbios dela.
     - Hummm... - Foi um longo e preguioso suspiro.
     - O que faz aqui?
     - Onde?
     Ele continuava a acariciar-lhe as costas.
     - Onde estamos - murmurou Serena. - Tambm veio flutuando no vento?
     - No.
     Pelo ritmo lento da respirao dela, por aquele breve olhar nublado, Justin percebeu que ela estava meio adormecida e desorientada o bastante para ser cordata. 
A absoluta situao indefesa de Serena despertou, ao mesmo tempo, o impulso de possu-la e o de proteg-la. Cada qual lutava pela supremacia. Justin beijou o ombro 
nu.
     - Voc estava sonhando.
     - Oh... - Ela no via motivo para que aquelas maravilhosas carcias no continuassem. - Estava to bom!
     - ... - Justin passou um dedo ao longo das costas de Serena. - Estava.
     O toque mais direto provocou um violento arrepio, e ela acordou, abrindo completamente os olhos.
     - Justin!
     - O qu?
     Serena apoiou-se nos cotovelos.
     - O que voc est fazendo aqui?
     Justin deu um breve olhar para o pouco tecido que ela segurava diante dos seios.
     - J perguntou isso. Voc tem a pele delicada demais para ficar exposta desse jeito ao sol.
     Deslizou a mo pelas costas de Serena, aplicando uma loo protetora. Quando os dedos msculos deslizavam de maneira sensual por suas costas, Serena prendia 
a respirao.
     - Pare com isso! - Estava to furiosa que sua voz tremia.
     - Voc  muito sensvel- murmurou ele, ao ver que
     O desejo brilhara nos olhos dela, mas Serena o expulsara imediatamente. -  uma pena estarmos sempre no lugar errado, na hora errada.
     - Justin - Serena escapou da mo dele, mal se lembrando de manter o suti do biquni no lugar - , eu gostaria muito que voc me deixasse em paz. - Ps-se de 
p e amarrou as tiras do biquni atrs do pescoo. Tive de levantar cedo esta manh, e o cassino vai abrir assim que deixarmos o porto,  noite. Eu quero dormir.
     - E eu quero falar com voc.
     Ele, que estava agachado ao lado da espreguiadeira, ergueu-se tambm.
     - Bem, eu no quero...
     A voz dela quebrou-se enquanto seu olhar percorria, de baixo para cima, as longas e musculosas pernas, at o trax forte, bem-feito, passando pelo pequeno calo 
que se ajustava aos quadris estreitos. Era um corpo que insinuava fora, vigor e resistncia. Rpida, Serena desviou o olhar e colocou os culos.
     - Por que no foi conhecer San Juan, como todos os outros?
     - Tenho uma proposta.
     - No diga!
     Sem esperar por convite, Justin empurrou as pernas dela para o lado e sentou-se na beira da espreguiadeira.
     - Trata-se de negcios.
     Serena afastou as pernas das dele o mximo possvel, a fim de que nenhum contato a distrasse.
     - No estou interessada em negcios com voc. V para outra cadeira.
     - No existe uma regra que diz que a tripulao no pode ser rude com os passageiros?
     -  mesmo?! No quer me dizer como  essa tal regra? - convidou Serena. - Esta  minha ltima semana a bordo.
     - E por isso que quero falar com voc.
     Justin comeou a passar protetor na perna dela.
     - Justin...
     - timo! - Ele sorriu diante do olhar furioso. - Consegui sua ateno.
     - Voc vai sofrer uma fratura de nariz se no me deixar em paz - ameaou Serena, exasperada.
     Ele perguntou, com ar contrito:
     - Voc sempre tem dificuldade em se concentrar numa conversa de negcios?
     - No, quando se trata de negcios, mesmo.
     - Ento, no vai haver nenhum problema.
     Erguendo o encosto da cadeira e ajeitando-se, Serena olhou-o atravs das lentes escuras e viu a cicatriz longa sobre as costelas.
     - Parece. que a coisa foi feia... - comentou com um sorriso frio. - Presente de um marido ciumento?
     - Um intolerante armado de faca.
     A resposta foi to fria e despida de emoo quanto a pergunta.
     Serena sentiu uma dor inesperada e forte no peito, como se estivesse vendo a faca deslizar na carne.
     Eu fui inconveniente. Desculpe-me. - Olhou de novo a cicatriz, sentindo-se mal pelo que havia dito. Deve ter sido srio.
     Justin lembrou-se que ficara duas semanas hospitalizado, mas sacudiu os ombros.
     - Foi h muito tempo.
     - O que aconteceu? - Serena no pde deixar de perguntar, talvez porque uma parte de seu ntimo sofria a dor dele, mesmo sem conhecer a causa.
     Justin observou a cicatriz por alguns momentos. Fazia muito tempo que no lembrava do incidente, talvez houvesse lhe dedicado um ou outro pensamento casual 
em quinze anos. No entanto aquele incidente era, como a cicatriz, uma parte dele. Seria melhor ela saber. Pegou a toalha que pusera no deque e limpou as mos.
     - Foi num bar, em Nevada. Um dos habitantes locais no queria respirar o mesmo ar que um ndio respirava. Como eu queria terminar de tomar minha cerveja, disse-lhe 
que fosse respirar em outro lugar.- Um sorriso gelado entreabriu-lhe os lbios. - Eu era jovem bastante para gostar da perspectiva de uma briga. Aos dezoito anos 
uma boa briga de socos alivia uma poro de frustraes. 
     - Mas no arranjou essa cicatriz numa briga de socos - contraps ela.
     Justin ergueu as sobrancelhas.
     - Muita coisa tende a sair do controle quando h bebida no meio. O homem era impulsivo e estava bbado.
     - Distrado, Justin passou um dedo pela cicatriz, num gesto habitual que adquirira anos atrs. - Comeou do modo comum, palavras exaltadas, empurres, socos... 
a ele empunhou a faca. Creio que estava bbado demais para saber o que estava fazendo, mas o fato  que fez.
     - Oh, Deus! - Num gesto automtico, Serena pegou a mo dele. - Que coisa horrvel! Algum chamou a polcia?
     Passou pela mente de Justin que, apesar da riqueza, dos anos de estudo e das viagens, ela sempre fora protegida na vida.
     - Nem sempre as coisas so assim - disse ele, com simplicidade.
     - Mas ele esfaqueou voc! - Serena falava com um misto de lgica e repulsa. - Tinha que ser preso.
     - No. - Justin tinha um ar to calmo quanto sua voz. - Eu o matei.
     Diante daquelas palavras, a mo de Serena deixou a dele. Justin pde ver os olhos dela se arregalarem por trs das lentes escuras. Sentiu a instantnea, automtica 
repulsa dela. Quase imediatamente, os dedos dela voltaram a apertar os dele.
     - Autodefesa - murmurou ela, sem tremor na voz. 
     Justin nada disse. Durante todos aqueles anos precisara daquela simples e inquestionvel f, durante os dias de sofrimento nos dias de hospital, durante o solitrio 
e frio medo naquela cela, esperando o julgamento. Desde ento, no houvera ningum que lhe devolvesse um pouco da esperana e confiana que perdera durante aqueles 
dias vazios e interminveis. Quando Serena segurou-lhe as mos, algo se modificou dentro dele e libertou-se, depois de tanto tempo abafado.
     - Lutei para tirar a faca das mos dele - continuou Justin - , e s quando recobrei a conscincia fiquei sabendo que estava no hospital da cadeia, acusado de 
assassinato em segundo grau.
     - Mas a faca era dele! - Havia uma ultrajada afirmao na voz de Serena, no uma pergunta. - Ele atacou voc.
     - Levou bastante tempo para que isso fosse provado... Justin lembrava-se de cada hora, de cada minuto da espera, do cheiro da cela, dos rostos ameaadores no 
ptio do presdio. Do medo e da fria.
     - E quando foi provado, fui libertado.
     Com quantas outras cicatrizes?, perguntou-se Serena.
     - Ningum quis testemunhar em seu favor, Justin?
     Nenhum dos que estavam no bar naquela noite?
     - Eu no era um deles - foi a resposta, desprovida de emoo. - Mas tiveram que dizer a verdade quando depuseram sob juramento.
     - Deve ter sido uma experincia assustadora para um rapazmho... - Como Justin erguesse uma sobrancelha, Serena procurou sorrir. - Meu pai diz que um homem no 
 homem antes dos trinta anos, at mesmo dos quarenta. Nem sempre papai  coerente...
     Como ele bem sabia, pensou Justin. Naquele momento sentiu-se tentado a contar a Serena sobre seu relacionamento com Daniel, mas manteve-se fiel ao plano original: 
Justin Blade era coerente.
     - Resolvi contar-lhe esta parte da minha vida porque voc aceitar minha oferta com certeza ir ouvir falatrios. Preferi que ouvisse a verdade de mim.
     Agora ele podia sentir a curiosidade de Serena que era at melhor do que sua ateno.
     - Que tipo de oferta? - indagou Serena, indiferente.
     - Um emprego.
     - Emprego? - repetiu ela, depois riu. - O que pretende fazer? Instalar uma casa de jogo flutuante e me empregar como crupi de vinte-e-um?
     - Minha idia  bem mais modesta - esclareceu Justin, abaixando os olhos. - At que ponto esses cordes finos do seu biquni so resistentes?
     - So bastante seguros... - Serena conteve a custo impulso de toc-los. - Por que no me diz o que tem em mente, Justin?
     - Est bem. - Abruptamente o brilho bem-humorado desapareceu dos olhos dele, que se tornaram frios de novo. - Estive observando voc trabalhar.  muito boa 
no que faz, no apenas com o baralho mas tambm com pessoas. Voc  capaz de julgar rapidamente os jogares, e sua mesa est sempre cheia, enquanto as dos demais, 
nem sempre. Alm disso, voc sabe como lidar com um jogador que se irrita com as cartas ou que bebe demais. Em todos os casos - acrescentou ele, no mesmo tom impessoal 
- , age sempre com estilo.
     - E da?
     - Da, tenho uso para cada um dos seus talentos.
     A expresso dele no mudou quando os olhos dela estreitaram-se. Justin apenas esticou as longas pernas. Empurrando os culos para o alto da cabea, fitou-o 
direta e friamente.
     - Que tipo de uso?
     - Dirigir meu cassino em Atlantic City.
     Ele teve a satisfao de ver a surpresa desenhar-se no rosto de Serena.
     - Voc tem um cassino em Atlantic City?
     Sem parecer sequer mover os lbios, ele respondeu:
     - Sim.
     Serena examinou-o por entre os olhos semicerrados. Ele pensou, divertido, que daquela vez ela no confiava to depressa. Por fim, ela murmurou:
     - E tem outro em Las Vegas, outro em Tahoe, suponho...
     Eu devia ter imaginado...
     Deitou-se de costas e fechou os olhos, pensando que o jogador itinerante era um homem de negcios muito rico e de sucesso.
     Ainda mais divertido pela reao dela, Justin relaxou. Havia pensado em oferecer-lhe emprego naquela manh em Nassau, mas ento fora em parte por capricho, 
em parte por negcio. Estudando o rosto forte e bonito, ele sabia que havia em Serena mais do que beleza, havia algo com que gostaria de lidar... depois de acertar 
as coisas.
     - Despedi meu gerente antes de viajar - prosseguiu Justin, sem esperar que ela abrisse os olhos. - Um problema com a receita.
     Ao ouvir isso, ela os abriu e suas sobrancelhas arquearam-se.
     - Ele enganou voc?
     - Tentou - respondeu Justin, simples. - Ningum me engana.
     - No - assentiu Serena. - Tenho certeza de que no. - Sentou-se, encolheu as pernas e abraou os joelhos.
     - Por que quer que eu trabalhe com voc?
     Justin teve a desconfortvel sensao de que ela sabia mais do que ele havia dito e descobriu que no sabia o motivo determinado. Apenas tinha certeza de que 
a queria em seu mundo, onde pudesse v-la e toc-la.
     - J lhe disse - respondeu, apenas.
     - Se voc tem trs cassinos de sucesso...
     - Cinco - corrigiu ele.
     - Cinco. - Serena fez um rpido gesto de assentimento.
     - No posso imagina-lo como um homem que estabelece seus negcios sob impulsos. - Ou que faa qualquer outra coisa por impulso, acrescentou para si mesma. - 
Deve saber que dirigir um cassino como os seus  muito diferente de bancar vinte-e-um num navio de cruzeiro. Provavelmente voc tem duas vezes o nmero de mesas 
que temos aqui, o que faz com que o nosso lucro seja como uma bolha de sabo perto do seu.
     Justin concordou com um sorriso.
     - Bem, se acha que no consegue...
     - Eu no disse que no consigo - retrucou ela.
     Voc  muito esperto, no?
     - Pense no assunto - sugeriu ele, acariciando levemente a mo de Serena. - Voc disse que no tinha planos para depois desta viagem.
     No tinha planos definidos, ainda, pensou ela. Apenas a vaga idia de abrir seu prprio cassino. Queria ter seu prprio negcio, mas no seria mais inteligente 
dirigir o de outra pessoa primeiro, para aprender?
     - Vou pensar - respondeu, sem perceber que o polegar de Justin percorria seu dedo indicador.
     - timo. - Com a mo livre, ele tirou um grampo dos cabelos dela. - Podemos jantar em San Juan e conversar a respeito.
     Deixou o grampo cair e retirou outro.
     - Quer parar com isso? - Aborrecida, Serena segurou-lhe o pulso. - Toda vez que nos encontramos voc joga meus grampos fora. No vou ter mais nenhum quando 
a viagem terminar.
     - Gosto de tir-los. - Ele enfiou os dedos entre o coque j meio desmanchado e fez cair o restante dos grampos. - Gosto dos seus cabelos soltos.
     Empurrando-lhe a mo, Serena levantou-se e fez meno de afastar-se. Quando Justin falava naquele tom era melhor ficar longe dele.
     - Acontece que no vou jantar com voc em San Juan e nem em lugar algum - pegou a dashiki que usava sobre o biquni - , e acho que j pensei o suficiente na 
sua proposta.
     - Tem medo?
     Justin ergueu-se com movimentos felinos.
     - No.
     Serena o encarou com calma para que ele entendesse que dissera a verdade.
     - Bom.
     Gostando do olhar firme e teimoso dela, Justin colocou uma das mos na nuca de Serena. Ainda bem, medo era algo vulgar para ela.
     - Pense mais um pouco... Estou apenas lhe oferecendo um negcio que nada tem a ver com sermos amantes.
     O aperto firme da mo de Justin em seu pescoo a induzia a relaxar, porm suas palavras fizeram os olhos dela chamejarem.
     - No somos amantes.
     - Mas poderemos ser. - Justin deu um passo  frente.
     - Logo. Somos pessoas que conseguem o que querem, Serena, e queremos um ao outro.
     - Voc no tem problemas com sua auto-estima, no Justin?
     Quando a mo dele espalmou-se em suas costas untadas com protetor solar, ela permaneceu firme, no querendo lutar contra, mas tambm no querendo ceder.
     - Os jogadores acreditam no destino.
     Apesar de Serena se manter rgida, Justin sentiu os seios macios roarem-lhe o peito. Apenas um leve tecido de algodo separava seus corpos.
     - E voc  mais jogadora do que eu, Serena MacGregor . - Abaixando a cabea, ele contornou-lhe o rosto, de leve, com os lbios. - E vamos jogar com as cartas 
que temos nas mos.
     Por quanto tempo ela poderia resistir quele tom macio  boca atraente? J sentia o corao bater descompassado e os joelhos comearem a fraquejar. Se resistisse, 
perderia. Talvez... Seu crebro nublou-se, e ela tentou freneticamente livrar-se da nvoa. Quem sabe desta vez devesse jogar  moda dele e ganhar a mo? Lutando 
contra a prpria vontade de render-se, ela fez um lance perigoso.
     Devagar, muito de leve, passou as mos nas costas nuas, deixando que as unhas arranhassem suavemente a pele. Quando a boca de Justin pressionou-lhe o pescoo, 
os joelhos dela quase dobraram, e ela moveu-se sinuosamente contra ele, enquanto brincava com a ponta dos dedos na nuca forte. Sentiu o momento exato em que o corao 
dele disparou...
     Sua boca tornou-se exigente, mas Serena desviou o rosto. Se Justin a beijasse, estaria perdida. Sentia a respirao dele tocar-lhe o ouvido, excitando-a. Serena 
apertou os olhos, lutando para no sentir tudo que ele a fazia sentir sem o menor esforo. Apertou os lbios no pescoo dele, dizendo a si mesma que no era para 
sentir o gosto dele, mas porque tratava-se de apenas outro passo do Jogo. No queria ser despertada pelo sabor msculo, pela sensao dos msculos firmes sob suas 
mos. Daquela vez, prometeu a si mesma, iria faz-lo ficar de joelhos.
     Ouviu-o gemer, sentiu o rpido estremecimento em todo o seu corpo quando ele a apertou contra si. Surpreendida demais pelo recm-descoberto poder para apreci-lo, 
Serena simplesmente o abraou. Ele murmurou alguma coisa, num idioma primitivo que Serena no conhecia, antes de esconder o rosto nos cabelos que lhe cascateavam 
pelos ombros.
     Serena se conteve antes que a fraqueza tomasse conta de si. No podia deixar-se levar por um desejo... ou por um homem.
     Empurrou-o com firmeza, sabendo que o conseguira apenas porque o pegara desprevenido. Devagar, implorando para que suas pernas a sustentassem, abaixou-se para 
apanhar a dashiki que cara sobre o deque. Sem uma palavra, vestiu-a e precisou de um momento para firmar-se antes de olhar para Justin.
     Viu nos olhos verdes um desejo to desesperado que fez seu corao se apertar. Viu tambm cautela. Fortaleceu-a saber que ele no estava preparado para um ataque 
dos sentidos como ela estava. Por isso, entendeu que a superioridade era sua.
     - Se, e quando, quiser fazer amor com voc, eu avisarei, Justin - disse, calmamente.
     Virou as costas e distanciou-se sem olhar para trs. Seus joelhos tremiam.
     Ele ficou olhando. Poderia det-la, pensou, com os punhos cerrados. Poderia arrast-la para sua cabina e faz-la sua em questo de momentos. Poderia mandar 
o plano do cassino ao inferno e satisfazer aquele desejo insano que parecia estar devorando-o de maneira avassaladora. Se uma vez, pelo menos uma vez, ficasse realmente 
sozinho com ela... Devagar, Justin foi abrindo as mos. No valia a pena deixar-se dominar pelas emoes. Havia aprendido isso fazia muito tempo e no iria esquecer 
agora.
     Inclinou-se e pegou o frasco de protetor solar que Serena havia deixado ao lado da espreguiadeira. Ficara intrigada com a oferta, Justin pensou, fechando a 
tampa distraidamente. E por mais que ela lutasse contra, a idia havia sido plantada. Depois de um ano obedecendo ordens, chefiar devia ser tentador... Como acabara 
de obter uma vitria, considerava-se capaz de enfrent-lo em seu prprio terreno. E era com isto que Justin contava para que ela achasse o desafio irresistvel.
     Um leve e frio sorriso entreabriu-lhe os lbios. Justin era to suscetvel a um desafio quanto Serena. Tinha feito sua aposta, decidiu. Agora, era esperar.
     A cabine de Serena estava absolutamente escura quando o telefone na mesa-de-cabeceira tocou. De olhos fechados, ela apertou o boto do radio-relgio; como a 
campainha no se calasse, tateou em busca do telefone, derrubou-o e por fim atendeu.
     - Bom dia, filhinha!
     Estonteada de sono, coando a cabea, ela apertou o fone ao ouvido.
     - Papai?
     - Como vai a vida no mar? - perguntou o vozeiro alegre, fazendo-a encolher-se.
     - Eu... hum... - Serena lutava por acordar direito.
     - Vamos, menina, fale.
     - Papai,  que... - Ela ajeitou o relgio para ver os nmeros luminosos. - So seis da manh!
     - Um bom marinheiro levanta de madrugada - replicou ele.
     - Hum-hum... Boa noite, papai.
     - Sua me quer saber quando voc vem para casa.
     Ainda meio adormecida, Serena riu. Anna MacGregor
     Jamais fora uma me superprotetora, mas Daniel...
     - Vamos chegar em Miami no sbado  tarde. Voc vai preparar banda e fogos?
     - Ah!
     - Um gaiteiro escocs para o solo triunfal?
     - Voc continua a insolente de sempre, Rena. - Daniel queria parecer reprovador, mas s exalava orgulho.
     - Sua me quer saber se est comendo direito.
     Serena engoliu uma risada.
     - Recebemos uma fatia de po de centeio todos os dias e um pedao de carne de porco salgada aos sbados.
     - Como vai a mame?
     - Bem. Ela est no hospital, retalhando algum.
     - Alan e Caine?
     Daniel emitiu um som de escrnio.
     - Quem v esses dois? O corao de sua me sangra por causa do modo que os filhos esquecem dos pais. Nenhum netinho para alegrar a velhice...
     - Ns somos horrveis, mesmo! - concordou Serena, seca.
     - Se Alan se casasse com aquela encantadora pequena de Judson...
     - Ela caminha como uma pata-choca, pai - lembrou-o ela. - Quando for a hora, Alan se casa.
     - Ah! - protestou Daniel. - Isso nunca vai acontecer se ele continuar com o nariz enfiado no trabalho, l em Washington! Caine continua plantando carvalhos, 
e voc, navegando num barquinho.
     - Navio.
     - Sua me no viver o bastante para ver o primeiro neto...
     Com um profundo suspiro, ele acendeu um dos grossos charutos que Anna no conseguira confiscar.
     - Voc me acordou s seis da madrugada para fazer sermo sobre a continuidade do cl MacGregor?
     - No faa essa cara de desprezo, menina. O cl...
     - No estou fazendo cara de desprezo! - garantiu ela, rindo, querendo evitar um longo, apaixonado discurso.
     - Como pretendo passar alguns dias em casa, voc poder comear a me atormentar no domingo.
     - Isso  modo de falar com seu pai? - ofendeu-se ele.
     - Arrependo-me de nunca ter erguido a mo para voc.
     - Voc  o melhor pai que eu tive - agradou-o ela.
     - Vou lhe levar uma caixa de usque escocs.
     - Est bem, ento - acalmou-se Daniel, encantado com a idia, ento lembrou-se de outra prometida caixa de usque escocs e do motivo real do telefonema. Conheceu 
gente interessante nesse cruzeiro, Rena?
     - Hum, daria para eu escrever um livro. Na verdade, vou sentir saudade dos companheiros de tripulao.
     - E quanto aos passageiros? - insistiu ele, aspirando a fumaa e soltando-a em anis. - Algum jogador de verdade entre eles?
     - Sempre h - ela pensou em Justin, exatamente como o paI.
     - Suponho que esteja rodeada de homens...
     Ela bufou em resposta e virou-se de costas. Estava "rodeada" de um homem, pelo menos.
     - Claro que no  errado ter um romancezinho de vez em quando - a voz de Daniel se tornar jovial - , desde que seja um homem de boa linhagem e certa posio.
     Um verdadeiro jogador tem boa cabea.
     - Voc ficaria feliz se eu dissesse que estou planejando fugir com um verdadeiro jogador?
     - Qual? - o velho estreitou os olhos.
     - Nenhum - respondeu Serena, firme. - Agora, quero dormir. Limpe toda a cinza que cair por a antes que mame volte para casa. - Daniel emitiu um som de escrnio. 
- Vejo voc e mame no domingo. Amo voc, velho pirata!
     - Coma direito no caf da manh! - ordenou o pai, antes de desligar.
     Pensativo, Daniel recostou-se na macia cadeira estofada da escrivaninha. Rena sempre havia sido um osso duro de roer, pensou. Quanto a Justin, bem... Se Justin 
Blade no fosse capaz de passar uma ou duas noites tropicais com sua filha, no era o homem que ele julgava. Bateu a cinza do charuto, lembrando a si mesmo de eliminar 
as evidncias antes que Anna chegasse.
     Que o inferno o engolisse se estivesse enganado a respeito de Justin Blade! Daniel MacGregor sabia reconhecer um verdadeiro homem. Deu a si mesmo alguns instantes 
de prazer pensando num neto de cabelos negros e olhos cor de violeta. Um menino, primeiro, decidiu. Se bem que ele no fosse dar continuidade ao nome dos MacGregor, 
o que era uma pena, continuaria o sangue da famlia. E lhe dariam o nome do av.
     Com excelente disposio, e j que comeara, Daniel pegou o telefone, disposto a atazanar seus outros dois filhos.
     
     
    
    Captulo Cinco
     
     
     Por mais que dissesse a si mesma que no era da sua conta, Serena no podia deixar de imaginar o que Justin estava arquitetando. Durante dois dias no vira 
nem sinal dele. Aquele tempo todo ele no havia posto os ps no cassino, nem comparecera ao convs Passeio, pelo menos no todas as vezes que ela estivera andando 
por l em suas horas de folga.
     O que ele estaria fazendo?, perguntava a si mesma enuanto se preparava para seu ltimo dia de folga no cruzeiro. Sabia que ele no era do tipo de participar 
do bingo na sala de estar.
     Justin sumira de propsito, decidiu, enquanto abotoava o macaco vermelho. Est querendo me provocar. No ficaria surpreendida se ele tivesse passado aquele 
tempo todo descansando e tomando sol, sabendo que ela estava trabalhando e pensando nele. Era de dar raiva! Provavelmente havia tomado vrios drinques com a sra. 
Dewalter, concluiu e pegou a escova. Escovando os cabelos com gestos bruscos, olhou-se no espelho e zangou-se consigo mesma.
     - E da? - disse em voz alta. - Enquanto ele rodeia aquela perua, me deixa em paz!
     A ltima coisa que desejaria nos seus ltimos dias de trabalho no navio era uma batalha constante, verbal ou fsica. Ento, era timo que Justin houvesse encontrado 
outro interesse para mant-lo ocupado: evitava-lhe o trabalho de ignor-lo.
     Ele a perturbava quando estava por perto, mas acontecia a mesma coisa quando estava longe, pensou e recolocou a escova no armrio. Onde estava a justia?
     No quero pensar nisso, decidiu sentando-se no cho para calar as sandlias. Vou mergulhar e fazer compras, uma caixa de usque. Vou mergulhar e no quero 
mais pensar nele.
     Est resolvido, pensou, batendo a sola da sandlia na palma da mo. Justin sacudiu diante do meu nariz a histria de dirigir um cassino dele e desapareceu. 
Sabia que ia me deixar louca, reconheceu frustrada. Muito bem,dancemos conforme a msica, disse a si mesma, calando as sandlias. Vou ficar fora do caminho dele 
nos prximos dois dias nem que tenha de dizer que estou enjoada e me fechar na cabina. Vai ser uma boa lio para ele.
     Ainda esta a resmungando quando bateram  porta.
     - Est aberta - gritou.
     A ltima pessoa que esperava ver no umbral de sua cabina era Justin e a ltima coisa que esperava sentir com isso era contentamento. Oh, meu Deus, teve que 
reconhecer, senti saudade dele!
     Ele percebeu um sorriso nos olhos de Serena antes que o brilho se tornasse agressivo.
     - Bom dia.
     - No so admitidos passageiros neste convs - disse Serena, em tom frio e afetado.
     Justin entrou, fechou a porta e observou a minscula cabina, ignorando os murmrios de raiva dela.
     Deveria ser um cubculo austero e sombrio, com o beliche simples e paredes brancas, mas Serena dera-lhe estilo com pequenos toques. Um quadro colorido com barcos 
a vela, uma vela verde, uma tigela cheia de conchas, uma almofada bordada que o fez pensar em Anna. O fornecimento de Hyannis Port era amplo, pensou divertido. 
     - Aqui no se desperdia espao - comentou, voltando os olhos para ela.
     -  o meu espao - lembrou-o Serena - , e h regras estritas contra voc estar aqui. Quer se retirar antes que eu seja despedida por sua causa?
     - Voc j se despediu. - Esgueirando-se entre ela e o beliche, Justin foi olhar o quadro de mais perto. Muito bom...  a baa de St. Thomas?
     Serena permaneceu sentada deliberadamente, pois sabia que era impossvel duas pessoas se movimentarem naquela cabina sem esbarrar uma na outra.
     - . Sinto muito no poder fazer-lhe sala, Justin, mas eu estava saindo.
     Com um distrado aceno de concordncia, ele sentou-se no beliche.
     -  bem firme - comentou, com um sorriso.
     O beliche era duro como pedra. Os dois se encararam por um momento, e ela disfarou com zanga o prazer de v-lo.
     - Bom para a coluna. Sabe? Pensei que estivesse livre de voc.
     - Pensou? - Erguendo o ursinho de pelcia com que ela dormia, Justin tocou as rendas macias da camisola de cetim.
     - Largue isso!
     Ela ergueu o corpo e se inclinou para tirar-lhe a camisola das mos, quase caindo sobre ele.
     - Ento, voc gosta de seda e rendas. - Ele deixou a camisola cair sobre o beliche antes que Serena a pudesse pegar. - Sempre admirei mulheres que usam "isto" 
e dormem sozinhas. - Olhou para Serena, ajoelhada no cho. - Demonstra certa independncia de esprito.
     As sobrancelhas dela franziram-se.
     - Isso  um cumprimento?
     - Creio que sim. - Com um sorriso, Justin tocou os cabelos soltos dela. - Por que pensou que havia se livrado de mim?
     Sentando-se sobre os calcanhares, ela suspirou. 
     - Voc no apareceu mais no cassino.
     - H outros divertimentos a bordo.
     - Tenho certeza de que sim - falou com desdm. - Como, por exemplo, explicar seu sistema de jogo  sra. Dewalter.
     - Senhora quem?
     Irritada, Serena se ps de p e comeou a procurar a bolsa de viagem.
     - Aquela divorciada de cabelos vermelhos.
     - Ah... - Divertido e lisonjeado, Justin a viu ajoelhar-se e olhar embaixo do beliche.
     - Procurando alguma coisa?
     - Sim.
     Enquanto ele olhava, ela deitou-se de bruos e rastejou para debaixo do beliche.
     - Quer ajuda?
     - No. Que droga!
     Serena praguejou ao bater a cabea na beira do beliche.
     Quando conseguiu sair de debaixo dele, Justin estava sentado no cho, a seu lado. Sem falar, ele sorriu e afastouos cabelos que lhe tinham cado sobre o rosto.
     - Justin... - Serena ajoelhou-se e despejou o contedo
     da bolsa sobre o beliche. - Eu... na verdade, detesto dizer isto!
     Acostumado com a lngua afiada dela, Justin encorajou-a:
     - V em frente, pode dizer.
     - Senti saudade de voc.
     Serena viu surpresa no rosto dele pela segunda vez.
     - Eu disse que detestava dizer isso!
     Quando ela comeou a levantar-se ele impediu, segurando-a por um brao.
     Quatro palavras. Quatro palavras que provocaram uma corrente de emoes conflitantes que ele jamais sentira.
     Estava preparado para a indiferena, para a frieza e at para a fria de Serena, mas no para aquelas quatro simples palavras.
      - Serena... - Com ternura, acariciou-lhe o rosto.  perigoso me dizer isso quando estamos sozinhos.
     Primeiro Serena tocou a mo de Justin, de leve, depois, afastou-a de eu rosto.
     - Eu no pretendia dizer, pois no sabia disso at o momento em que voc entrou. - O olhar dela era intrigado e pensativo ao mesmo tempo. - No entendo...
     - Imagino que seja porque ns dois sentimos a mesma coisa... - disse Justin, meio para si mesmo.
     De repente, ela levantou-se e comeou a colocar dentro da bolsa tudo de que precisava.
     - Vou para a praia, mergulhar com snorkel, nadar e admirar a paisagem - disse, apressada. - Quer ir comigo?
     Serena no o escutou mover-se, mas sabia que ele estava em p atrs dela. Pela primeira vez em um ano, sentiu o terror da claustrofobia.
     Justin colocou as mos nos ombros dela e obrigou-a a voltar-se. Aqueles olhos... , pensou. Impossvel serem mais lindos!
     - Uma trgua, Serena?
     Ela viu, com alvio, que ele no ia se aproveitar da vantagem que ela lhe dera.
     - Que graa teria? - retorquiu. - Se quiser, venha comigo, mas nada de trgua.
     - Parecem-me termos razoveis...
     Quando ele passou os braos pela cintura dela, Serena colocou a bolsa entre eles. Justin olhou para a bolsa, depois para ela.
     - Isso no  obstculo.
     - Eu o convidei para um passeio - lembrou-o. -  pegar ou largar.
     - Vou me contentar com isso. - Hesitante, ele deixou cair os braos. - Por enquanto.
     Serena virou-se e abriu a porta.
     - Voc j passeou em barco com fundo de vidro, Justin?
     - No.
     - Ento, vai adorar - prometeu ela e deu-lhe a mo.
     A pele de Serena estava quente, mida e brilhante  luz do sol. Duas pequenas tiras de pano mal ocultavam as curvas ntimas de seus seios e quadris. Esticando 
as pernas sobre a esteira, ela deu um suspiro satisfeito.
     - Eu adoro pensar em piratas.
     Olhou para a magnfica gua azul e quase chegou a ver um galeo flutuando com as velas enfunadas pela brisa. Altas montanhas verdes erguiam-se atrs deles, 
como se parecessem flutuar no mar tambm.
     - Trezentos anos atrs. - Sacudindo os cabelos molhados, Serena sorriu para Justin. - Pouco tempo, na verdade, quando se pensa h quantos anos estas ilhas esto 
aqui.
     Algumas gotas de gua escorriam sobre a pele morena de Justin.
     - No acha que Barba negra ficaria zangado se visse isto?
     Com um gesto Justin indicou as pessoas que pontilhavam a praia de areia branca e brincavam na gua cor de turquesa. Risos e cheiro de loes bronzeadoras flutuavam 
no ar.
     - Ao contrrio de ns - prosseguiu - , acredito que ele consideraria estas praias poludas.
     Serena riu, descontrada e animada pela uma hora que tinham passado fazendo mergulho.
     - Ele encontraria outro lugar. Piratas tm aptido para isso.
     - Voc fala como se os admirasse.
     -  fcil romancear fatos depois de alguns sculos...
     - Serena ergueu-se sobre os cotovelos, adorando a sensao de secar ao sol. - E suponho que sempre admirei pessoas que vivem segundo suas prprias regras.
     - A qualquer preo?
     - Ah, voc est sendo prtico. - Serena exps o rosto ao sol; o cu era azul como o mar e sem nuvens. - Isto aqui  lindo demais para ser prtico. H tanta 
barbrie e crueldade hoje quanto havia h trezentos anos, e muito mais aventura. Eu adoraria fazer uma viagem na mquina do tempo de H.G. Wells.
     Intrigado, Justin pegou o pente que ela usara e passou-o nos cabelos.
     - Aonde voc iria?
     - A Inglaterra de Arthur, Grcia de Plato e Roma de Csar - ela suspirou, achando o gesto de Justin penteando o cabelo sensual e suave ao mesmo tempo. - E 
mil outros lugares. Iria encontrar Rob Roy na Esccia onde papai jamais me perdoaria. Gostaria, tambm, de conhecer o oeste antes dos colonizadores o descobrirem 
e ento, chegar ao Oregon com a primeira carroa... - Rindo Serena ergueu a cabea at ver o rosto dele ao contrrio. - Ento, correria o risco de ser escalpelada 
pelos seus ancestrais.
     Justin passou a mo nos cabelos macios.
     - Seria um escalpo precioso.
     - E eu prefiro mant-lo... - admitiu Serena. - E voc, no gostaria de voltar alguns sculos e estar com o Co Vermelho na caverna do Tmulo de Pedra?
     - Eles no gostavam dos comanches.
     Deitando-se de costas, ela tirou o cabelo molhado do rosto.
     - A est voc sendo prtico de novo.
     Eles fitaram-se por instantes.
     - Eu estaria na guerra, do lado que iria atacar sua carroa... 
     Serena olhou outra vez para o mar. Era loucura esquecer quem e o que ele era, mesmo que s por um momento. Justin era diferente e isso s aumentava a sua fora 
de atrao.
     - Sim... acho que estaria, mesmo. Ns estaramos formando novas fronteiras, e voc, defendendo as suas. As fronteiras se misturariam, e voc se perguntaria 
se o outro lado estava errado no comeo. Voc sempre se sente frustrado? O seu nascimento...
     
     Justin penteava lentamente os cabelos dela;  medida que secavam, assumiam vrias tonalidades de dourado.
     - Prefiro me fazer por mim mesmo do que ficar pensando em heranas.
     Serena concordou, pois era como tambm se sentia.
     - Os MacGregor eram perseguidos na Esccia, forados a renunciar ao seu nome, ao seu padro e s suas terras. Se eu estivesse por l teria lutado, agora  apenas 
uma histria fascinante. - Ela ensaiou um sorriso, mas
     havia entristecido. - Histria essa que meu pai conta e reconta  menor provocao.
     Uma menininha, correndo pela praia para escapar da me, caiu como uma bola no colo de Serena e, rindo, passou os braos pelo pescoo dela, como se estivessem 
conspirando juntas.
     - Oi! - Com uma risada, Serena retribuiu o Abrao, depois afastou a criana de si o bastante para ver-lhe os olhos castanhos. - Veio descansar um pouco, ?
     A menina segurou o cabelo de Serena.
     - Voc  bonita!
     - Que garotinha esperta! - comentou ela, olhando para Justin por cima do ombro. 
     Para sua surpresa, ele pegou a pequena no colo, apertou o narizinho dela com o indicador e disse:
     - Voc tambm  bonita.
     Rindo de novo, a menina beijou-o no rosto.
     Antes que Serena se recuperasse da surpresa pela naturalidade com que ele aceitara o beijo molhado, uma mulher de mai inteirio preto juntou-se ao trio.
     - Rosie! - A esgotada me trazia um baldinho e uma p de plstico numa das mos e estava muito corada.
     - Oh, desculpem...
     - Bonito - garantiu Rosie de novo, dando outro beijo em Justin.
     Foi a vez de Serena cair na risada.
     - Rosie! - Exasperada, a me passou a mo por entre os cabelos. - Sinto muito, mesmo! Ela vive correndo,
     e ningum est a salvo.
     - Quando voc corre tem mais tempo para brincar do que ficando parada, no , Rosie? - Serena acariciou os cabelos castanhos, crespos, e sorriu ao comentar: 
- Ela deve dar muito trabalho...
     - Se d! - admitiu a mulher. - Mas quero que me...
     - No precisa se desculpar. - Gentilmente, Justin limpou a areia da mo da pequenina. - Ela  linda.
     Evidentemente agradada, a me se descontraiu e estendeu a mo para a menina.
     - Obrigada. Vocs tm filhos?
     Levou um instante para Serena perceber que ela os tomava por casados, mas Justin j estava respondendo.
     - Ainda no. E suponho que esta menina bonita no esteja  venda...
     Colocando Rosie de pernas escanchadas em sua cintura, a jovem mulher riu para ele.
     - No, mas confesso que s vezes me sinto tentada a fazer uma liquidao! Ela  uma parada... Obrigada, mais uma vez. Ningum gosta de ser atacado por um furaco 
de dois anos. Diga at logo, Rosie.
     - Tchau!
     Rosie acenou com a mozinha gorducha por sobre o ombro da me, que j se deslocava ativamente sobre areia. Podiam-se ouvir os risos de me e filha enquanto 
elas se distanciavam.
     - Francamente, Justin! - Serena livrou-se da areia que Rosie trouxera. - Por que disse quela senhora que ainda no temos filhos?
     - Porque no temos.
     - Voc sabe o que quero dizer e...
     - Agora  voc que est sendo prtica demais.
     E antes que Serena pudesse retrucar, ele passou-lhe um brao pela cintura e beijou-a no ombro. Em vez de resistir, ela encostou-se nele, gostando da proximidade.
     - Ela  um doce...
     - A maior parte das crianas . - Justin beijou-lhe o outro ombro. - Elas no tm pretenses, preconceitos e quase no sentem medo. Logo a me a ensinar a 
no falar com estranhos...  necessrio, mas muito triste. 
     Serena afastou-se dele o bastante para virar-se de frente.
     - Eu jamais imaginaria que voc dedicasse sequer um pensamento para crianas.
     Justin ia dizer que aqueles momentos com a menina haviam despertado nele o desejo de ter a famlia que nunca tivera,uma mulher ao seu lado, uma criana querendo 
um beijo. Ento, expulsou o pensamento com a mesma energia que Serena tirava a areia de cima da manta. Era melhor no se aventurar em terrenos desconhecidos.
     - Eu tambm me surpreendi - disse, apenas.
     Ela notou a hesitao, mas estava perturbada demais com as prprias emoes.
     - Quer saber de uma coisa? - indagou, chegando mais perto.
     - O qu?
     - No acho voc bonito.
     - As crianas tm gosto melhor do que os adultos.
     - Voc no tem, tambm, um gnio bonito - insistiu ela achando muito difcil resistir ao impulso de tocar os lbios dele com os seus.
     - Nem voc...
     Passando as mos pelas costas dela, Justin beijou-a.
     Suas plpebras baixaram, como as dela, mas no se fecharam. Serena sentiu como se seus ossos se derretessem e interrompeu o beijo, que era mais de promessa 
do que de paixo.
     - Nunca escondi isso - murmurou ela.
     - Graas a Deus.
     As mos dele seguraram-na pelos cabelos e de novo sua boca tocou a dela, de leve.
     Serena recuou. Alguma coisa havia mudado. No saberia explicar o qu, nem por qu, mas algo mudara. Precisava parar as coisas por ali at que pudesse decifrar 
o enigma. Seu corpo estava fraco e estranho.
     -  melhor irmos embora - sugeriu. - Quero fazer umas compras antes de voltar para o navio.
     - Tempo e mar no esperam por nenhum homem brincou ele.
     - Tem razo.
     Serena ergueu-se e sacudiu o macaco para livr-lo da areia, antes de vesti-lo sobre o biquni.
     - Um dia voc no ter essa desculpa - Justin ergueu-se diante dela e segurou as mos que abotoavam o macaco.
     - Pois  - concordou Serena - , mas agora tenho.
     Foi preciso bastante habilidade para dirigir entre o trfego de Charlotte Amalie e muita sorte para encontrar uma vaga para estacionar. As ruas estavam repletas 
de txis, gente e pequenos nibus abertos com tetos enfeitados por franjas. Durante o tempo todo Serena e Justin haviam se mantido calados, imersos cada qual em 
seus pensamentos.
     O que havia acontecido, perguntava-se ela, durante aquele breve e quase amigvel beijo na praia? Por que a fizera sentir-se derreter por dentro, apreensiva 
e ao mesmo tempo encantada? Talvez tivesse alguma coisa a ver com o jeito que se emocionara ao ver Justin com a menininha. Era difcil imaginar um homem como ele, 
um jogador com aquela dose de frieza e indiferena, tornar-se meigo com uma bonequinha morena de quinze quilos e mozinhas sujas de areia. Simplesmente, ela jamais 
o supusera capaz de tanta doura.
     Poderia ser tambm porque, se antes ela pensara que poderia gostar dele, agora sabia que gostava. Mas admitia isso com cuidado, como que para se assegurar. 
No era aconselhvel abandonar toda a cautela ao lidar com Justin. E agora que Serena podia admitir que gostava dele e de sua companhia, o cruzeiro estava quase 
terminando. Durante o que restava da viagem estaria to ocupada com seus turnos no cassino e preparativos para deixar o emprego que no teria nem sequer uma hora 
de folga para passar com ele, muito menos um dia. Durante o resto da viagem estariam navegando, com o cassino aberto dezesseis horas por dia.
     Claro que havia a opo de aceitar a oferta de emprego que ele lhe fizera. Com a testa franzida, Serena olhou pela Janela do carro e viu no passeio, em frente 
a uma loja Gucci, uma banca com chapus feitos com folhas de palmeira. Nos dois ltimos dias ela deliberadamente no pensara naquela proposta, primeiro por teimosia, 
depois pela intuitiva noo de que s deveria avali-la quando houvesse uma considervel distncia entre eles. Atlantic City poderia ser uma aventura. Trabalhar 
com Justin poderia ser um risco. 
     Por que a sbita suavidade da atitude dela o preocupava?, perguntava-se Justin. Essa havia sido, alis, uma de suas finalidades. Ele ainda a queria do mesmo 
modo que ao ve-la pela primeira vez. No entanto, os dias de contato, as discusses, as risadas e a paixo haviam adicionado novos aspectos ao que deveria ser apenas 
atrao fisica.
     Ja no era to simples como antes atribuir suas emoes conflitantes s maquinaes de Daniel. Na verdade ele no pensara em Serena como filha de Daniel MacGregor, 
naqueles dias. Como se saltasse no vazio, Justin decidiu que seria mais prudente pensar nela assim de novo... e por enquanto.
     - Mais caixinhas de msica que tocam Pour Elise? - perguntou, enquanto desligava o motor do automvel.
     Apesar do que havia determinado, Justin inclinou-se para provar mais uma vez os lbios de Serena.
     - Eu jamais me repito - retrucou ela, mas no ofereceu resistncia.
     - Pelo menos agora - murmurou ele- abra uma exceo. 
     Com uma risada baixa ela deixou-se beijar at que os dois se esqueceram que estavam num carro estacionado no meio de uma cidade cheia de gente. Esta noite... 
pensou, enquanto seus dedos se enfiavam nos grossos cabelos dele. Chegara a hora de parar de fingir e obter o que queria.
     - Serena... - O nome dela foi mais um suspiro do que uma palavra enquanto se separavam.
     - Eu sei. - Por instantes, ela ficou com a cabea no ombro dele. - Estamos destinados a nos encontrar em lugares pblicos. - Serena respirou fundo e saiu. - 
Perdemos muito tempo na praia, e eu preciso fazer as compras de qualquer jeito.
     Justin saiu, deu a volta no carro e foi pegar a mo dela, que sorriu e apontou para a ruazinha estreita e repleta de pessoas.
     - Tenho que comprar algumas lembrancinhas e uma caixa de usque...
     Antes que chegassem  loja que ela queria, uma vitrina da loja Cartier atraiu-lhe a ateno. O profundo suspiro foi em parte admirao e em parte desejo.
     - Por que uma mulher inteligente se derrete toda diante de um punhado de pedras cintilantes? - pensou em voz alta.
     -  natural, no ? - Justin parou ao lado dela, admirando o brilho dos diamantes, os reflexos das esmeraldas.
     - Muitas mulheres se sentem atradas por jias... homens tambm.
     - Carbono pressurizado - murmurou ela e suspirou de novo. - Pedaos de rochas retirados de profundos buracos. Sculos atrs, elas eram usadas como amuletos, 
para proteger dos maus espritos ou atrair boa sorte. Os fencios viajavam para o Bltico e os pases da Europa, atrs de mbar. Houve guerras, ento, pases foram 
explorados... e de algum modo isso tornou as pedras brilhantes ainda mais atraentes. 
     - No tem indulgncia para consigo mesma?
     Serena desviou os olhos das jias na vitrina e fitou-o.
     - No. Isso me ajuda a olhar em frente. Prometi a mim mesma que a prxima vez que eu viajar ser estritamente para relaxar. Ento, o resultado ser um enorme 
rombo na minha conta bancria. Por enquanto - ela fez um gesto na direo da loja seguinte - , preciso comprar algumas lembrancinhas tradicionais para uns primos 
e uma caixa de Chivas RegaI.
     Justin entrou na loja com ela, e imediatamente Serena foi envolvida por uma nsia de pegar, verificar, escolher e comprar. Em geral ela no gostava de fazer 
compras, mas quando fazia vingava-se da prpria m vontade.
     Quando Justin lhe disse alguma coisa ela quase no prestou ateno, enfronhada que estava na escolha de uma toalha de mesa bordada.
     Com as lembranas compradas e em sacolas, ela foi para a seo onde havia uma profuso de garrafas de usque, conhaque, licores e vinhos. Um rpido olhar ao 
relgio mostrou-lhe que tinha duas horas para se apresentar a bordo.
     - Uma caixa de Chivas doze anos - pediu.
     - Duas.
     Ao ouvir a voz de Justin ela virou a cabea.
     - Oh, pensei que tivesse me perdido de voc.
     - Encontrou o que queria?
     - E mais ainda - admitiu ela, com uma careta. - Vou me odiar quando chegar a hora de empacotar os presentes.. - O vendedor colocou duas caixas de usque no 
balco. - Quero que a minha seja entregue no navio Celebration. Deu seu carto de crdito ao vendedor e ficou esperando o comprovante para assinar.
     - A minha tambm - acrescentou Justin, contando as notas.
     Serena examinou sua caixa enquanto ele dava os dados. Esquisito, observou, no o imaginara um bebedor a ponto de comprar usque em caixa. Nunca o vira bebendo 
enquanto jogava. Alis, fora uma das primeiras coisas que ela notara. Durante o cruzeiro s o vira com um copo na mo uma vez, no piquenique em Nassau. Decidiu que 
talvez ele estivesse comprando o usque para presentear algum. Depois de assinar seu nome no comprovante de venda, ela guardou a cpia na bolsa.
     - Acho que terminei. - Dando a mo a ele, encaminhou-se para a sada. 
     - Engraado ns dois comprarmos a mesma marca de usque...
     - No quando se considera que foram compradas para a mesma pessoa - respondeu ele, suave.
     Com um sorriso de confuso ela encarou-o.
     - Para a mesma pessoa?
     - Seu pai no bebe outra marca.
     - Como voc... - Aturdida, ela sacudiu a cabea. - Por que voc comprou uma caixa de usque para o meu pai?
     - Porque ele me pediu.
     Ele a guiou entre um bando de adolescentes.
     - Pediu a voc?! - Separados por um grupo de turistas, ela teve que esperar at que Justin estivesse de novo a seu lado. - O que quer dizer, ele lhe pediu?
     - Eu nunca vi Daniel fazer alguma coisa sem segundas intenes. - Justin pegou-lhe o brao para atravessarem a rua, j que ela olhava para ele- e no para os 
carros. - Uma caixa de usque escocs pareceu-me razovel no momento.
     "Daniel"? Como ele diz o nome do meu pai com naturalidade..., admirou-se Serena. Por um momento concentrou-se nesse ponto, enquanto irrespondidas e desconfortveis 
perguntas comeavam a surgir. Sem se perturbar com o trfego catico de centenas de pessoas ela estacou no passeio.
     - Justin,  melhor que me explique direito do que est falando.
     - Estou falando de ter comprado uma caixa de usque para o seu pai em retribuio  gentileza dele em ter reservado uma passagem no Celebration para mim.
     - Deve haver algum engano... Meu pai no  agente de turismo. .
     Justin riu alto, do mesmo modo que fizera no dia em que soubera o sobrenome dela.
     - No. Daniel  muitas coisas, mas no um agente de turismo. Por que no vamos nos sentar e...
     - No quero sentar. - Serena soltou o brao com um safano quando ele quis lev-la para as mesinhas externas de um caf-livraria. - Quero saber o que meu pai 
tem a ver com as suas frias.
     - Eu acho que ele ultimamente anda se importando muito com a minha vida e a sua.
     Relutante, Serena o acompanhara e, achando uma mesa vaga, Justin afastou a cadeira para ela, que sentiu o cheiro de pezinhos e doces frescos, enquanto ouvia 
o rumor das conversas vindas da livraria. Como de repente sentiu impulso de socar algum ou alguma coisa, ela forou os punhos fechados a permanecerem em cima da 
mesa.
     - Do que est falando?
     - Conheci seu pai h dez anos...
     Calmo, Justin pegou um charuto e acendeu-o. Serena estava reagindo exatamente do modo que ele previra, e isso diminuiu a tenso contra a qual vinha lutando 
desde o momento em que, na praia, sentira que algo se modificava em seu ntimo.
     - Fui a Hyannis Port com uma proposta de negcios continuou.
     - Jogamos uma partida de pquer e somos scios desde ento. Voc tem uma famlia muito interessante. Serena no fez nenhum comentrio, porm seus dedos apertaram-se 
mais.
     - Com os anos, apeguei-me a eles - prosseguiu Justin, brandamente. - Sempre que eu ia l voc estava no colgio, mas ouvi falar muito da... Rena. Alan admira 
sua inteligncia, e Caine, o seu gnio forte. - Se bem que o olhar continuasse srio, ele no pde evitar um sorriso. - Seu pai quase erigiu um monumento a voc 
quando se formou na Smith dois anos antes do previsto. Serena conteve o impulso de gritar uma praga. Justin fizera parte de sua vida por dez anos sem seu conhecimento.
     - Voc me conhecia o tempo todo - comeou, em voz baixa e furiosa - , e no me disse. Divertiu-se  minha custa, quando deveria...
     - Espere a! - Como Serena comeasse a levantar-se ele a segurou pelo pulso. - Eu no sabia que a crupi de vinte-e-um Serena era a Rena MacGregor de Daniel, 
a maravilha de que ouvi falar por dez anos.
     Ela corou tanto por fria quanto por embarao. Sempre achara o orgulho do pai divertido, agora o sentia como uma dura e fria bofetada no rosto.
     - No sei qual  o seu jogo, mas...
     - O jogo de Daniel! - interrompeu-a Justin de novo.
     - Foi s naquele dia, na praia, quando voc disse que os MacGregor no se deixavam pressionar que soube quem voc era e por que Daniel insistira tanto para 
que eu fizesse esta viagem.
     Como pde lembrar-se da expresso chocada dele naquele dia ela acalmou-se um pouco.
     - Ele lhe deu a passagem e no disse que eu trabalhava no Celebration?
     - O que voc acha? - retrucou Justin, batendo a cinza do charuto no cinzeiro de plstico. - Quando eu soube seu nome inteiro descobri que havia sido manobrado 
por um perito. - Ele riu, divertindo-se de novo.
     - Admito que senti um pouco de desconforto.
     - Desconforto... - repetiu Serena, nada divertida.
     Sua breve conversa com o pai por telefone voltou-lhe  cabea. Ele a interrogara para ver se seu esquema dera certo.
     - Vou mat-lo - murmurou e seus olhos, quase negros de tanta fria, encontraram os de Justin - , assim que tiver acabado com voc. - Calou-se, percebendo que 
estava de novo prestes a gritar. - Devia ter me contado isso antes.
     - Devia - concordou Justin -, mas imaginei que sua reao seria essa mesma que est tendo e achei melhor ficar calado.
     - Achou melhor! - Serena falou por entre os dentes.
     - Meu pai tambm achou melhor fazer o que fez. Que grandes egostas so os homens! Creio que nem se lembraram de que eu tambm existia. - Seu rosto ficou vermelho 
de raiva. - Pensou em me levar para a cama para se vingar dos momentos de desconforto que meu pai lhe causou?
     - Voc  quem sabe... - Ele falou com tanta calma que Serena teve de engolir o ataque seguinte. - Saiba que tive maus momentos cada vez que punha a mo em voc, 
por me lembrar de quem voc era filha.
     - Vou lhe dizer o que sei - disse ela, com a mesma voz calma e perigosa. - Vocs dois se merecem. Os dois so arrogantes, pomposos e grandes idiotas! Que direito 
voc tinha de se intrometer na minha vida desse modo?
     - Foi seu pai quem provocou a intruso - retrucou Justin - , o resto foi pessoal. Se quer matar o velho o problema  seu, mas no venha para cima de mim!
     - No preciso da sua permisso para mat-lo! - rebateu ela, a voz subindo a ponto de algumas pessoas os fitarem.
     - Acho que eu disse exatamente isso.
     Serena se levantou, procurando futilmente alguma coisa para atirar nele. Parecia prestes a ter um ataque de fria, j que era impossvel atingi-lo fisicamente 
jogando-o contra a vidraa da livraria.
     - Temo no compreender seu senso de humor - conseguiu dizer depois de um momento. - Acho o que meu pai fez insultante e baixo. - Com toda a dignidade possvel, 
ela pegou as sacolas de compras. - Agradeo muito se voc ficar fora do meu caminho pelo resto da viagem Tenho medo de ser muito dificil me controlar e no empurr-lo 
para o mar, por cima da amurada do navio.
     - Concordo... - Justin acrescentou antes que ela voltasse a falar - , se voc prometer que dentro de quinze dias me dar uma resposta sobre a gerncia do cassino 
de Atlantic City.
     Como os olhos dela se arregalassem e a boca se abrisse diante de tanto atrevimento, ele ergueu a mo.
     - Oh, no. O acordo estar desfeito se me der a resposta agora. Quinze dias.
     Contrariada, ela assentiu.
     - Vai ter a mesma resposta que eu daria agora, mas posso esperar. Adeus, Justin.
     - Serena! - Ela j se afastava, mas voltou-se para fuzil-lo com o olhar. - D meus cumprimentos a Daniel antes de mat-lo.
     
     
     
    Captulo Seis
    
    
     A primeira coisa em que Serena reparou durante o trajeto do aeroporto foram as rvores. Havia muito tempo que no via carvalhos, bordos e pinheiros na poca 
da queda das folhas. O ms de setembro apenas comeava, mas o ar do outono j se fazia presente com toda a sua fora, em tons de marrom e dourado. Mas apesar da 
tranqilidade que a paisagem transmitia, Serena estava agitada.
     Se no estivesse acostumada a terminar tudo que comeava, teria pegado o primeiro avio em St. Thomas depois da revelao de Justin. Em vez disso, continuara 
seu trabalho com um sorriso nos lbios e fervendo de raiva por dentro. Em vez de se acalmar, naquele nterim sua zanga e frustrao foram ficando cada vez maiores.
     Sentia-se humilhada. Talvez porque Justin cumprira sua parte no acordo e se mantivera longe dela durante todo o resto do cruzeiro, a ira de Serena se focalizara 
em um s homem: seu pai.
     - Voc vai se arrepender - resmungou.
     O taxista observou-a, atento, pelo espelhinho retrovisor.
     Bonita moa, pensou. Mas doida de atar, falando sozinha desse jeito.
     A primeira viso da casa teve o efeito de distrair Serena dos planos de vingana. As minsculas pores de mica do granito cinzento brilhavam ao sol da tarde. 
Havia sido construda segundo a fantasia de Daniel e mais se parecia com um pequeno castelo, com suas duas torres.
     Tinha grandes balces de pedra, toscamente entalhados e janelas muito altas. Na frente da porta de entrada permanecia o canteiro em semicrculo, todo florido, 
em lugar do fosso que Serena preferia. .
     Ao lado da estrutura principal havia duas outras, mais baixas, tambm de granito. Uma era a garagem para dez carros que os amigos de Alain e Caine mantinham 
quase sempre cheia, a outra abrigava a piscina aquecida.
     Daniel podia gostar de estilos primitivos de arquitetura, mas apreciava o conforto.
     O txi parou diante dos degraus de granito, interrompendo a admirao de Serena pela casa onde crescera. Deixando as duas malas e a caixa de usque a cargo 
do motorista, ela pegou seus pacotes coloridos e subiu at a macia porta de carvalho que tinha o braso dos MacGregor na aldraba de bronze, uma cabea de leo coroado 
com o lema em gauls que, traduzido, seria: "Real  a Minha Raa". Ela riu, como sempre fazia ao ler o lema familiar. Seu pai insistira em que ela e os irmos aprendessem 
o gauls, mesmo que no aprendessem mais nada.
     - Pode deixar tudo a, obrigada...
     Ainda sorrindo, pagou o taxista e bateu a aldraba. O som, como o de um canho, reverberava pela casa inteira, lembrou-se.
     A porta foi aberta imediatamente, em seus bem azeitados gonzos, por uma mulher baixinha de cabelos grisalhos e feies agudas. A boca da mulher abriu-se, acentuando 
o queixo pontudo.
     - Srta. Rena!
     - Lily!
     Serena abraou e beijou a pequena criada com a exuberncia da juventude. Em adio aos seus deveres de governanta, Lily havia sido a me substituta de Anna, 
que passava muito tempo no hospital. Cuidara muito bem das trs levadas crianas, remendando ferimentos e sendo sbia juiz nas disputas.
     - Sentiu saudade de mim? - perguntou Serena com mais um abrao, antes de separar-se de Lily.
     - Saudade? Nem notei que voc no estava aqui... Lily riu, acolhedora. - Onde est seu bronzeado?
     - Na minha imaginao.
     - Lily, bateram  porta? - Com um trabalho de croch na mo, Anna MacGregor enfiou a cabea por uma porta que dava para o hall. - Rena!
     Foi ao encontro da filha com os braos abertos, e Serena correu para ele.
     Anna era doce e forte, ambas qualidades que se misturavam nas centenas de lembranas de Serena, que respirou fundo, inalando o perfume de flor de laranjeira 
que a me usava desde que ela se conhecia por gente.
     - Bem-vinda ao lar, querida. S a espervamos amanh.
     - Consegui um vo mais cedo.
     Serena recuou um pouco para olhar melhor o rosto da me. A pele ainda era cremosa, com poucas rugas revelando idade. Havia uma suavidade jovem no rosto de Anna 
que a filha achava que ela jamais perderia. Seus olhos eram calmos, refletindo uma natureza que se negara a mudar atravs dos anos passados em salas de cirurgia 
e convivendo com a morte. Os cabelos, a meio comprimento, conservavam o rico castanho agora entremeado com cinza.
     - Mame... - Serena abraou-a de novo. - Como faz para continuar to linda?
     - Seu pai insiste que eu continue.
     Rindo, Serena recuou, mas segurou uma das mos da me.
     -  bom estar em casa.
     - Voc est maravilhosa, Rena. - Anna observou a filha com uma mistura de orgulho maternal e profissionalismo.
     - Nada como o ar do mar para nos dar uma boa aparncia. Lily, por favor, diga ao cozinheiro que a srta. Rena chegou. Teremos o jantar de boas-vindas um dia 
antes. Quero que me conte tudo sobre o seu cruzeiro - continuou, voltando-se para a filha - , mas se no for falar com seu pai primeiro ele nunca me perdoar.
     Naquele momento, Serena lembrou-se do que tinha a fazer. Conhecendo bem a filha, Anna percebeu que havia algo errado e ergueu as sobrancelhas.
     - Ah, sim, vou subir e v-lo agora mesmo.
     - H alguma coisa que voc queira me contar?
     - Depois. - Serena respirou fundo. - Papai vai precisar de cuidados mdicos depois que eu falar com ele.
     - Sim... - Sabendo que era melhor no questionar a filha, Anna assentiu, sorrindo. - Vou ficar na sala de estar. Precisamos conversar muito depois que voc 
terminar de brigar com seu pai.
     - No vou demorar - Serena garantiu e comeou a subir a larga e curva escadaria.
     No primeiro lance olhou para o corredor a sua esquerda. Era naquela ala que a famlia dormia, com o quarto da infncia de Serena na terceira porta do corredor, 
 esquerda. A ala era uma mistura de corredores, curvas e cantos escuros. Lembrava-se de seu irmo Caine escondido atrs de uma urna com um metro e meio de altura, 
depois saltando e assustando-a terrivelmente. Serena o procurara durante a meia hora seguinte, e a raiva desaparecera com a excitao da caada. Ele a deixara encontr-lo 
na ala leste da manso, onde a derrubara no cho e lhe fizera ccegas at que ela ficara mole de tanto rir.
     Quantos anos tinha ento?, perguntou-se Serena. Oito? Nove? Caine devia ter onze ou doze. De repente sentiu uma saudade dele que chegava a doer.
     E Alan, pensou, continuando a subir. Ele sempre a protegera, de todos os modos. Talvez por ser seis anos mais velho, jamais haviam brigado um com o outro, como 
ela e Caine sempre faziam. Quando menino, Alan havia sido escrupulosamente honesto, ao passo que Caine s usava a verdade quando lhe convinha. Mas nunca mentindo, 
lembrou Serena com um sorriso, sempre e apenas evadindo-se com habilidade de mestre. No entanto,  sua maneira, Alan trabalhava as circunstncias em seu prprio 
favor. Era o trao bsico do carter dos MacGregor, reconheceu. Olhando para e estreita escada em caracol que levava ao alto da torre, Serena jurou que pelo menos 
um MacGregor ia se arrepender por isso.
     Com a cadeira estofada inclinada para trs, Daniel ouvia a montona e precisa voz ao telefone. Banqueiros!, pensou maliciosamente. Era uma praga ter de lidar 
com eles. Nem mesmo ter interesses que o faziam controlar o banco o protegia daqueles abutres.
     - D-lhes mais trinta dias de prazo para pagar o emprstimo - ordenou, enfim. - Sim, estou a par da situao, pois voc at agora s falou nela.
     Sujeito imbecil, acrescentou para si mesmo, impaciente. Tamborilava com os dedos na mesa. Por que os banqueiros no conseguiam enxergar mais de dois palmos 
adiante do nariz?
     - Um ms - repetiu. - Com o acrscimo de juros de costume.
     Ouviu a curta batida  porta e ia berrar contra o intruso quando ela se abriu. Imediatamente o aborrecimento foi substitudo pela felicidade.
     - Faa isso - disse ao telefone, antes de desligar.
     - Rena!
     Antes que Daniel se levantasse ela j estava diante dele, junto da escrivaninha. Apoiou as mos nela e inclinou-se.
     - Seu velho bode!
     Ajeitando-se na cadeira, Daniel pigarreou, preparando-se para o ataque de Serena.
     - Voc tambm est tima...
     - Cormo... se... atreveu? - Ela separou bem as palavras, falando devagar e baixo, outro sinal de perigo. Como se atreveu a me oferecer a Justin Blade como uma 
mercadoria  venda? 
     - Mercadoria? - Daniel olhou-a incrdulo. Linda menina, pensou orgulhoso, uma verdadeira MacGregor. No sei do que est falando - acrescentou. - Ento, conheceu 
Justin Blade? Bom rapaz.
     A voz de Serena no passava de um murmrio. - Voc me ofereceu... Voc planejou tudo aqui nesta sala como um rei louco com uma filha sobrando em suas mos. 
- Por que no fez um contrato? - A voz de Serena ia se elevando. -  o mnimo que eu esperava de voc. - Daniel Duncan MacGregor troca com Justin Blade sua nica 
filha por uma caixa de usque escocs doze anos.
     - Ela bateu com a mo na mesa. - Deveria haver nesse contrato, tambm, o nmero de filhos que espera que eu ponha no mundo! No me surpreenderei se voc tiver 
oferecido um dote a ele!
     - Agora, escute aqui, minha menina...
     - No sou sua menina! - Serena deu a volta na escrivaninha e girou a cadeira para ficarem frente a frente.
     - Foi uma coisa desprezvel. Nunca fui to humilhada na minha vida!
     - No sei do que est falando. Eu apenas persuadi um amigo a fazer um cruzeiro de frias e...
     - No me venha com essa histria! - Serena apontou o indicador para o pai. - Voc o mandou para o meu navio esperando que nos entendssemos, assim seu investimento 
daria frutos.
     - Vocs poderiam jamais ter se encontrado - trovejou Daniel. -  um barco grande. 
     - Navio! - trovejou ela de volta. - E um navio enorme e um cassino pequeno. Voc sabia muito bem que as circunstncias estavam a seu favor.
     - E que mal h nisso? - Daniel tinha ar inocente.
     - Voc encontrou um amigo meu. J encontrou centenas de amigos meus.
     Serena gemeu baixinho. Dessa vez virou as costas ao pai. Havia uma enorme estante de livros  frente dele. Serena caminhou at ela e retirou um volume intitulado 
Conveno Constitucional. Abriu-o, revelando o oco que escondia trs charutos. Olhando para o pai, pegou-os e partiu-os ao meio.
     - Rena! - horrorizou-se ele, levantando-se e se aproximando dela.
     - Estas coisas so um veneno para voc! - Ela esmigalhou um charuto com as mos.
     Com a mo no corao, Daniel se ps em p. Seu rosto estava transtornado pela tristeza.
     -  um dia escuro aquele em que uma filha atraioa o pai.
     - O qu?! - gritou ela, avanando de novo para ele.
     - Voc tem coragem... tem o desplante de falar em traio?!
     - Com as mos na cintura, fixou os olhos chamejantes no pai. - No sei o que Justin acha a respeito, mas quanto a mim, sinto-me insultada por seu esquema!
     O velho escocs arrepiou-se ao notar como a filha se referia a Justin, como se o conhecesse muito bem. Talvez as coisas no fossem to ruins quanto pareciam.
     - Este  o agradecimento que recebo por me importar com a felicidade da minha filha! No h nada mais cortante do que a lngua de um filho ingrato.
     - A faca de aougueiro que pensei usar .
     - Voc disse veneno - lembrou-a Daniel.
     - Sou verstil. - Ento, ela sorriu. - Bem, para que voc no pense que gastou dinheiro  toa vou lhe dizer o que decidi a respeito de Justin.
     - Est bem, ento... - Daniel voltou para trs de sua escrivaninha, pensando que talvez Serena se tornasse mais razovel depois de ter descarregado um pouco 
da raiva. Mas lamentava pelos charutos... - Ele  um bom rapaz,  inteligente, tem integridade e orgulho.
     Daniel cruzou as mos sobre o abdome, disposto a ser magnnimo e a perdoar.
     - Oh, sim, at concordo. - O tom de Serena era o mais doce possvel. - Ele , tambm, muito atraente. 
     Um sorriso satisfeito iluminou o rosto de Daniel.
     - Eu sabia que voc era uma garota sensvel, Rena.
     Tive uma forte intuio de que voc e Justin...
     - Ento, vai ficar contente ao saber que resolvi ser amante dele.
     - Eu no posso... -- Daniel calou-se, confuso, depois chocado e por fIm ultrajado. - O diabo que voc vai! O dia em que minha filha se permitir... ficar com 
algum homem, eu lhe darei a primeira e grande surra de sua vida! Vai levar uma surra, Serena MacGregor, seja maior de idade ou no.
     - Ah! Sou maior de idade, no  mesmo? - Serena fitou-o com dureza. - Lembre-se de que uma mulher maior de idade decide com quem vai se casar, se  que decida 
se casar. Uma mulher maior de idade no precisa que o pai lhe arranje namorados por meio de complicadas artimanhas. Pense em como o tiro poderia sair pela culatra 
antes de meter o nariz em outra.
     Com as sobrancelhas franzidas ele observou-a.
     - Ento, no decidiu ser amante dele?
     Serena olhou-o com altivez.
     - Se eu quisesse um amante eu o escolheria, mas no quero ser amante de ningum.
     O velho sentiu uma ponta de orgulho em meio ao desconforto.
     Mas foi preciso apenas um segundo para ele se concentrar apenas no orgulho. Pegou uma caneta de ouro de cima da escrivaninha e brincou com ela.
     - Lembrou-se de trazer meu usque?
     Serena pensou em fazer cara feia, mas o brilho nos olhos do pai a desarmou.
     - Que usque?
     - Ah, Rena...
     Aproximando-se, ela passou os braos ao redor do pescoo de Daniel.
     - No estou perdoando voc - murmurou - , estou s fingindo que perdo. E quero que saiba que no senti nenhuma saudade de voc!
     Beijou-o dos dois lados da face.
     - Continua a mesma pirralha sem respeito!
     Daniel abraou-a comovido.
     Quando entrou na sala de estar Serena encontrou a me sentada em sua poltrona preferida, de estampado cor de malva, trabalhando em seu ltimo' projeto de croch. 
Na bandeja de madeira rosada ao lado dela achava-se o servio de porcelana de ch com pequenas flores cor de violeta. Mais uma vez Serena admirou aquela mulher que 
sabia ser perfeita dona de casa e brilhante cirurgi. As mos que faziam uma delicada renda de croch naquele momento segurariam um bisturi na segunda-feira.
     - Perfeito! - Anna ergueu a cabea para a filha que entrava. - Calculei bem o tempo quando pedi o ch. Ponha duas achas na lareira, querida, depois venha aqui 
e me conte tudo.
     Ela obedeceu, e Anna deixou o croch na mesinha diante da poltrona. Assim que recebeu lenha nova o fogo avivou-se e rugiu, estalando, na lareira de pedra. Serena 
ficou olhando as chamas por alguns instantes, depois suspirou profundamente. At aquele momento no percebera a falta que sentira de um bom fogo de lareira.
     - E de um banho de banheira... - disse em voz alta. Sorrindo, voltou-se para a me. - No  estranho que s agora eu descubra a delcia que  poder ficar mergulhada 
num banho quente por quanto tempo quiser? Depois de um ano tomando banho de regador que chamam de chuveiro!
     - E voc adorou cada minuto disso.
     Rindo, Serena sentou-se numa banqueta aos ps de Anna.
     - Voc me conhece bem. Foi trabalho duro e muito divertimento, mas estou contente por voltar para casa. Pegou o pires e a xcara que a me lhe estendeu. Mame, 
eu jamais teria conhecido tanta gente, tantas pessoas diferentes, se no tivesse ido viajar.
     - Suas cartas demonstraram isso claramente. Poder l-las um dia, quando quiser lembrar-se de tudo. - Anna sentou-se sobre as pernas e riu. - No imagina como 
foi difcil falar com seu pai de outra coisa a no ser seus cruzeiros pelo oceano.
     - Quando ele parou de se preocupar? - indagou Serena.
     - Nunca. Isso faz parte do modo como ele demonstra amor.
     - Eu sei. - Serena tomou uns goles do ch. - Se ele apenas relaxasse e me deixasse levar a vida a meu modo ...
     - Por que no me conta o que acha de Justin? Quando a filha ergueu a vista para ela, rpida, Anna sorriu. - No. Eu no tinha a menor idia do que seu pai fez. 
Ele sabia que era melhor no me contar... A discusso de vocs foi bastante alta.
     - E com toda a razo! - Zangada de novo, Serena ergueu-se. - Ele induziu Justin a fazer esse cruzeiro esperando que eu voltasse para casa com estrelas nos olhos 
e flores de laranjeira no crebro. Nunca fiquei to furiosa, to... embaraada!
     - E como Justin encarou a situao?
     Serena lanou um olhar desdenhoso para a me.
     - Creio que depois do primeiro choque achou tudo muito divertido. Ele no tinha idia de quem eu era at que durante uma discusso na praia eu lhe disse meu 
sobrenome.
     Discusso na praia, observou Anna. Para esconder o sorriso, tomou um gole de ch.
     - Sei... Seu pai tem esse rapaz em alto conceito, Rena. Eu tambm. Suponho que Daniel apenas no conseguiu resistir  tentao.
     - Ele  irritante!
     - Quem?
     - Justin... Os dois- corrigiu-se Serena, colocando a xcara no pires com fora. - No me contou nada at o cruzeiro estar quase no fim e o fez do jeito mais 
displicente do mundo. Quando eu estava comeando a ... 
     Calando-se de repente, Serena voltou-se para observar o fogo outra vez.
     - Comeando a... - induziu Anna, suavemente.
     - Ele  muito atraente - resmungou Serena. - Suponho que tenha a ver com uma rudeza inata e aquele encanto que envolve a gente como uma serpente.
     Sbia, Anna nada disse quando a filha fez uma pausa.
     - Mesmo quando ele me deixa furiosa desperta em mim sensaes que eu no conhecia. Nunca senti esse tipo de paixo at conhec-lo. E no tenho certeza se gostei 
de descobri-las... - - Voltando-se, ela deu com a me fitando-a tranqila. - Passamos o ltimo dia juntos em St. Thomas.
     - Eu estava disposta a ir para a cama com ele naquela noite, at que me falou na armao de papai.
     - E como se sente agora?
     Serena olhou para as mos, depois respirou fundo.
     - Ainda o quero. No sei se  mais do que desejo... Como poderia ser, se nos conhecemos h menos de duas semanas?
     - Rena, voc confia assim to pouco no seu instinto?
     Com as sobrancelhas erguidas, Serena fitou a me, que prosseguiu:
     - Por que as emoes precisam de tempo certo para se manifestar? Esse tempo depende da pessoa que as sente. Quando conheci seu pai achei-o um touro convencido 
falante demais. - Quando a filha riu apreciadoramente, Anna sorriu como uma menina travessa. - E claro que ele era. Assim mesmo me apaixonei... Dois meses depois 
estvamos vivendo juntos e nos casamos em um ano.
     Anna ficou sria diante do choque evidente no rosto da filha.
     - Paixo e sexo antes do casamento no so prerrogativas s da sua gerao, meu bem. Seu pai queria casar, mas eu estava determinada a me formar em medicina 
primeiro. A nica coisa em que ns dois concordvamos era que no podamos viver um longe do outro.
     Serena pensou nas palavras da me enquanto o fogo estalava violentamente atrs dela.
     - Como voc soube que era amor e no apenas desejo?
     - Como meus outros filhos, voc sempre faz perguntas impossveis! - Inclinando-se para a frente Anna segurou as mos da filha. - No tenho certeza se  possvel 
separar essas duas coisas no que concerne a homem e mulher. Pode-se sentir uma sem a outra, mas no quando  um amor verdadeiro, no quando  um desejo verdadeiro. 
A paixo que chega rapidamente e esmaece com o tempo  apenas um eco. No tem substncia, apenas resultado. Voc acha que est amando Justin ou tem medo de estar 
amando?
     A boca de Serena abriu-se, mas ela nada disse. Tentou de novo.
     - As duas coisas.
     Anna apertou-lhe as mos.
     - No conte a seu pai, ele vai ficar todo vaidoso! Serena riu, relutante, enquanto Anna se recostava na poltrona. - O que pretende fazer, filha?
     - Ainda no sei. Na verdade, recusei-me a pensar nisso. - Sentou-se no tapete, abraou as pernas e apoiou o queixo nos joelhos. - Acho que o tempo todo tive 
certeza de que o veria de novo. Ele me ofereceu emprego.
     - Oh?
     Serena movimentou os ombros como se idias comeassem a agitar-se em sua cabea.
     - Para administrar um cassino em Atlantic City.  uma coincidncia, pois eu estava pensando em consultar papai sobre a possibilidade de abrir meu prprio hotel-cassino.
     - Se Justin lhe ofereceu esse cargo, ele deve confiar na sua capacidade.
     - Desenvolvi muito jeito para lidar com pessoas explicou Serena, enquanto um pensamento surgia em sua mente.
     - Voc vem desenvolvendo esse jeito desde que tinha dois anos - informou-lhe a me.
     - E tenho queda para negcios - continuou ela, com um sorriso nos lbios. - Aprendi mais do que lidar com cartas, durante este ltimo ano. Em essncia, o Celebration 
 um dos melhores hotis flutuantes que j vi e, embora seu cassino seja pequeno, possui o bsico necessrio. No h nada nele que eu no tenha aprendido.
     Serena calou-se, mas o sorriso se ampliou, e Anna conhecia aquele olhar.
     - O que est tramando, Rena?
     - Estou pensando em dobrar a aposta - respondeu ela. - Vai ser ganhar ou perder, nada de fugir. 
     Depois de dar a gorjeta ao camareiro, Justin despiu-se e foi tomar um banho de chuveiro. Sua criada desfaria as malas na manh seguinte, e o cassino poderia 
passar mais uma noite sem a sua ateno. Por enquanto, tudo que ele queria era jantar ali mesmo enquanto fazia os telefonemas necessrios para seus demais negcios. 
Com sorte, no haveria problema que no pudesse resolver por telefone. Tinha outras coisas em que pensar.
     Ajustou o chuveiro para que a gua viesse em jatos fortes. quela hora Serena j devia estar em casa, refletiu. E, se bem a conhecia, Daniel j havia pago pela 
brincadeirinha. A risada veio rpida e natural. Daria tudo para estar invisvel no encontro de pai e filha. Isso o compensaria pelos dois ltimos longos e aborrecidos 
dias passados a bordo do Celebration.
     Manter aquela parte do acordo havia sido bem mais difcil do que ele imaginara. Quase enlouquecera por saber que Serena estava ao seu alcance, dando cartas 
vestida com um sofisticado smoking, dormindo no estreito beliche com apenas uma leve camisola de cetim. Mas dominara-se porque haviam feito um trato e porque reconhecera 
que sob a raiva daquela moa bonita havia um embarao que apenas o tempo faria passar. Quinze dias dariam a Serena maior tranqilidade para pensar sobre a proposta.
     Mesmo que ela recusasse sua oferta, como esperava que faria inicialmente, ele no permitiria que as coisas ficassem assim. Calculava que, se necessrio, poderia 
provocar o orgulho de Serena a ponto de faz-la ir at Atlantic City, e assim ele teria a vantagem de lutar em seu terreno. 
     Fechou o chuveiro e pegou uma toalha.
     Precisava de um bom gerente l embaixo e de uma mulher no andar de cima. Serena era a nica que preenchia as duas exigncias. Com a toalha enrolada na cintura, 
ele atravessou o quarto.
     Como o restante da sute, o quarto era espaoso e sofisticado. O carpete sob seus ps descalos era espesso e macio. Longas persianas verticais cobriam a porta 
de vidro do terrao, e o toque de um boto as fazia abrirem-se, revelando uma vista espetacular da cidade. Justin olhou para a enorme cama coberta por uma colcha 
de seda azul-real. Quantas mulheres haviam se deitado nela? Ele no sabia e nem se importava. Elas no haviam significado nada mais do que uma noite de prazer mtuo. 
Pegou um robe do closet e vestiu-o, deixando a toalha cair. Houvera anos que ele vivera em casas bem menores do que aquele quarto.
     Tinha vrias mulheres  disposio. Se quisesse uma naquela noite, era s escolher na agenda e discar o telefone. E seu corpo estava precisando... No entanto, 
pela primeira vez na vida, sabia que apenas uma mulher aplacaria seu desejo.
     Frustrado e inquieto, vagueou pela sute. Tivera bons motivos para estabelecer-se no Leste. O hotel-cassino de Atlantic City era seu mais novo negcio e requeria 
maior ateno. Justin jamais se importara com o lugar onde morava. Ao longo dos anos, acostumara-se com a convenincia dos hotis onde conseguia o que precisasse 
e quisesse s com o apertar de um boto. E agora via-se pensando num lar, em algo permanente, com grama para ser cortada e ar que no fosse dividido com centenas 
de outras pessoas.
     Passando a mo por entre os cabelos, imaginou por que sentia aquela vaga insatisfao quando tinha tudo que queria. Mas em seus planos jamais se inclura querer 
uma mulher. Seria por causa dela que sentira aquela falta de calor quando entrara em sua sute? Se Serena estivesse ali no haveria aquela sensao de frio e de 
solido. Ela preencheria o espao com seu temperamento, com seu riso... com sua paixo.
     Por que lhe dera duas semanas?, perguntou-se Justin aborrecido, enfiando as mos nos bolsos do robe. Por que no a obrigara a vir com ele? Assim, agora no 
estaria sozinho, ansiando por sua companhia. Precisava de algum contato com Serena, pelo menos ouvir sua voz ao telefone.
     No, disse a si mesmo com mais calma, a voz dela no. Isso s serviria para complicar tudo. Foi at o telefone e discou o nmero particular de Daniel MacGregor.
     - MacGregor.
     - Seu velho bastardo - disse Justin, com suavidade.
     - Ah, Justin. - Daniel fixou os olhos no teto, preparando-se para ouvir o segundo sermo do dia. - Como foi a viagem?
     - Educacional. Suponho que Serena j tenha conversado com voc.
     - Quase derrubou a casa. - Daniel olhou os charutos destrudos sobre sua mesa. - Ela falou muito em voc.
     - Aposto que sim. - Com um sorriso triste, Justin sentou-se no sof. - No acha que teria sido mais simples se me contasse que Serena trabalhava no navio?
     - Voc teria feito a viagem?
     - No.
     - Pois ! - repisou Daniel. - E eu tinha certeza que a viagem lhe faria muito bem. Voc andava tenso, menino, inquieto... - Pensou em tentar consertar um dos 
charutos mutilados. - No se preocupe, vou conversar com Rena sobre voc, acalm-la...
     - No, no vai. Vou conservar comigo uma caixa de usque escocs como refm, Daniel, para ter certeza de que voc agora vai ficar fora disto.
     - Ora, no precisa tanto! Tratou-se apenas de uma preocupao paternal minha, a respeito de vocs dois. Por que no estende suas frias por mais alguns dias 
e vem nos visitar, Justin?
     - Serena vai vir para c - respondeu ele, seco.
     - Ela vai at a? - A larga testa do escocs enrugou-se. - O que est querendo dizer, menino?
     - O que eu disse.
     - Est bem... - Daniel respirou fundo. -  melhor me dizer quais so as suas intenes.
     - No.
     Um pouco da tenso deixou os msculos de Justin e ele reclinou-se para trs, aproveitando a sensao.
     - O que quer dizer, no? - rugiu o velho. - Eu sou o pai dela!
     - Mas no  o meu. Voc deu as cartas, Daniel, e eu estou jogando.
     - E, escute aqui...
     - No - negou Justin de novo, tranqilo. - Estou dizendo que voc nos deu as cartas. Serena e eu apostamos tudo ou nada.
     - Se magoar minha menina eu o esfolo vivo!
     Justin riu.
     - Se h no mundo uma mulher que pode cuidar de si mesma,  Serena MacGregor.
     - ! - O orgulho encheu o peito de Daniel e ele se distraiu. - Essa menina  muito esperta.
     - Claro, se voc pensa que ela vai bancar a bobinha...
     - Filha minha nunca banca a bobinha! - berrou Daniel.
     E Justin apenas sorriu.
     - Certo, ento voc vai ficar fora disto.
     Daniel rangeu os dentes.
     - D sua palavra, Daniel.
     - Est bem, est bem! Lavo minhas mos, mas no minuto em que souber que voc...
     - Adeus, Daniel.
     Justin desligou, satisfeito por ter dado o troco ao seu benfeitor.
     
     
     
    Captulo Sete
    
    
     Justin tinha seu escritrio no andar trreo do Hotel-Cassino Comanche, com um elevador particular que o levava diretamente a sua sute na cobertura. Era um 
arranjo conveniente, pois trabalhava em horas espordicas e havia momentos em que no tinha vontade de passar pelas reas pblicas do hotel.
     Como queria ter absoluta privacidade, o escritrio ficava numa ampla sala sem janelas, com apenas uma porta, alm da do elevador, dois pequenos monitores de 
circuito fechado de tev e um vidro de observao que era espelho para o lado do cassino, mas quem estivesse no escritrio via tudo o que se passava no salo. O 
espelho bi-direcional ficava oculto por um painel de madeira. Como sua experincia de cela resultara numa averso a locais fechados, para compensar, sua rea de 
trabalho era muito bem decorada. Os mveis eram de cores claras, mel, areia e bege, para dar sensao de leveza. Os quadros eram grandes e coloridos. Uma cena no 
deserto captava os ltimos raios de um sol agonizante iluminando ainda os inesquecveis picos das montanhas Rochosas e um bravo comanche cavalgando seu pnei de 
guerra. As cores davam a Justin uma iluso de liberdade que contrastava com a inquietao que s vezes o assaltava quando ele se sentia como que apanhado numa armadilha 
atrs de sua mesa de trabalho.
     Naquele momento, lia o relatrio de um acionista que agradaria a quem quer que participasse da Empresa Blade. Duas vezes Justin apanhou-se lendo sem entender 
nada e forou-se a recomear. O prazo de quinze dias que dera a Serena havia se esgotado, e sua pacincia tambm. Se ela no telefonasse nas prximas vinte e quatro 
horas iria para Hyannis Port obrig-la a cumprir sua parte do acordo.
     Droga, no queria ir atrs dela, pensou, jogando o relatrio em cima da mesa. Jamais fora atrs de uma mulher em sua vida, e no lhe agradava comear agora. 
Costumava jogar melhor quando o oponente fazia os movimentos ofensivos.
     - Oponente - murmurou. Preferia pensar nela dessa maneira, era mais seguro. Mas no importava como, acabava sempre pensando em Serena. No importava no que 
procurasse se concentrar, ela sempre estava l, no fundo de sua mente, esperando que ele baixasse a guarda. Toda vez que pensava em sair com uma mulher Serena surgia 
com mais fora em sua lembrana, chegava at a sentir o seu perfume e tinha impresso de que podia toc-la. O desejo por ela obliterava o que pudesse sentir por 
qualquer outra mulher. Frustrado, ansioso, Justin dizia a si mesmo para esperar. Afinal, j esperara tanto! Logo aps o meio-dia estava disposto a ir atrs dela. 
Quando estava pronto para pegar o telefone e reservar a passagem, bateram  porta.
     - Sim?
     Prevenida pelo tom brusco de sua voz, a secretria enfiou apenas a cabea pelo vo da porta.
     - Com licena, Justin.
     Com esforo, ele forou-se a no descontar a raiva na moa.
     - O que , Kate?
     Ela entrou. Uma pequena e esguia morena de voz grave e macia, feies delicadas.
     - Telegrama, e o sr. Streeve veio aqui a sua procura. Ele quer aumentar seu crdito.
     Justin pegou o telegrama.
     - Em quanto ele j est?
     - Cinco - respondeu ela, querendo dizer cinco mil dlares.
     Enquanto rasgava o envelope, Justin praguejou baixinho.
     - Os idiotas no sabem quando devem parar. Quem esta l?
     - Nero.
     - .Diga a Nero que Streeve pode jogar mais uma vez, depois fim. Com sorte, ele poder recuperar uns dois mil
     e ter que se contentar com isso.
     - Com o azar que ele est vai querer trocar suas aes da AT&T por fichas - retrucou Kate. - Nada pior do que um rico mimado temporariamente sem dinheiro.
     - No estamos aqui para pregar moral -Iembrou-a Justin. - Diga a Nero para ficar de olho nele.
     - Sim.
     Kate saiu, fechando a porta.
     Distraidamente, Justin procurou sem olhar o boto que fazia deslizar o painel que cobria o espelho que lhe permitia
     ver tudo que se passava do outro lado sem ser visto. Era bom que tambm se mantivesse de olho em Streeve. Antes que o apertasse seus olhos leram o telegrama.
     Considerei sua oferta: Chegarei na quinta-feira 
      tarde para discutir os termos do contrato. 
     Por favor, reserve-me acomodaes.
     S. MacGregor.
     
     Ele leu a curta mensagem duas vezes antes de sorrir. Era bem o jeito dela, considerou. Curta, determinada e lidamente vaga. E bem dentro do prazo, pensou, recostando-se 
na cadeira estofada. Passava um pouco do meio-dia de quinta-feira. Ento, ela ia chegar para discutirem os termos do contrato... Sentiu um n de tenso na base do 
pescoo. Pegou um charuto e acendeu-o, com ar pensativo. Termos, refletiu. Sim, discutiriam os termos, mantendo-se num clima estritamente de negcios.
     Justin quisera mesmo dizer tudo que dissera a ela quando lhe oferecera o cargo. Na sua opinio, Serena tinha qualificaes para lidar com seus funcionrios 
e clientes. Precisava de algum a quem pudesse dar carta branca para tomar qualquer tipo de deciso, deixando-o independente para poder estar em seus outros estabelecimentos 
quando necessrio. Com os demais hotis para administrar ele no podia passar o tempo todo supervisionando um s hotel-cassino. Soltando uma baforada de fumaa, 
decidiu que o cargo seria dado a Serena, e quando ela j houvesse comeado...
     Uma vez que ela tivesse comeado, tornou a pensar, teria de lidar com ele em nvel pessoal. Seu olhar tornou-se opaco e seus lbios comprimiram-se. Naquela 
noite Serena e ele iriam comear uma partida com dois jogadores apenas. Os olhos de Justin tornaram a clarear e seus lbios distenderam-se num sorriso. Vencer era 
o seu negcio.
     Pegou o telefone e apertou um boto no painel em sua mesa.
     - Recepo, Steve falando. Em que posso ajudar?
     - Aqui  Blade.
     O recepcionista imediatamente prestou mais ateno.
     - Sim, senhor.
     - Agora  tarde dever chegar a srta. Serena MacGregor. Providencie para que suas malas sejam levadas para a sute dos convidados, no meu andar. Ela ir tratar 
diretamente comigo.
     - Sim, senhor.
     - Avise a floricultura para colocar violetas na sala da sute.
     - Sim, senhor. Algum carto?
     - No.
     - Vou cuidar disso pessoalmente.
     - timo.
     Satisfeito, Justin desligou. Agora, tudo que tinha a fazer era esperar. Pegando o relatrio do acionista, dessa vez prestou-lhe completa ateno.
     Serena entregou as chaves do carro ao porteiro e observou o Hotel-Cassino Comanche. Justin no apelara para o opulento, e conseguira um excelente resultado, 
elegante e discreto. O edifcio era um enorme V em concreto aparente de cor acastanhada que dava um toque de Oeste na Costa Leste. Ela aprovou a arquitetura, notando 
que os apartamentos tinham vista para o mar. Diante da entrada, no meio da alameda para carros, havia uma espcie de gruta de dois andares com uma catarata em miniatura 
que caa num laguinho artificial de pedra. Notou moedas brilhando no fundo. Com certeza haviam sido atiradas na fonte por pessoas em busca de boa sorte no jogo.
     Junto  entrada havia a esttua de um chefe comanche, em tamanho natural; maravilhosamente esculpida em mrmore negro veiado de branco. Levada pelo impulso 
incontrolvel de toc-lo, ela passou a ponta dos dedos no peito de mrmore. Justin no se deixava levar pelo comum, pensou observando o rosto da esttua. Era sua 
imaginao ou havia uma semelhana? Se os olhos fossem verdes... Sacudindo a cabea, continuou a andar.
     Enquanto suas malas eram retiradas do carro, voltou-se para dar uma espiada na rua.
     Imensos cartazes brancos com nomes famosos em letras grandes, em non, contra a luz malva do fim da tarde, fabulosos hotis um aps outro, fontes, trfego e 
barulho. Mas no era a mesma coisa que em Las Vegas, decidiu. E havia mais do que a presena de montanhas e do som do mar em seus ouvidos. O ambiente parecia ser 
de carnaval. Era uma espcie de balnerio, concluiu, com a praia nos fundos. Podia-se sentir o cheiro de jogo, s que nele havia o toque iodado, salgado, do Atlntico 
e o riso de crianas construindo castelos de areia. Ajustando a ala da bolsa a tiracolo, Serena acompanhou sua bagagem para dentro. No saguo no havia carpete 
vermelho nem candelabros cintilantes, mas sim, um simples ladrilho em mosaico e luz indireta. Surpreendida e satisfeita ao mesmo tempo, ela reparou nas enormes folhagens 
em grandes vasos de cermica e peas penduradas nas paredes, que eram evidentemente da vida e cultura dos ndios da Plancie. A herana ancestral de Justin fazia 
mais parte de sua personalidade do que ele imaginava, pensou, enquanto se dirigia ao balco de recepo. Ouvia o som familiar dos caa-nqueis abafado pela distncia 
e o bater de seus saltos no ladrilho. Depois de dar uma gorjeta ao porteiro, ela voltou-se para o recepcionista.
     - Serena MacGregor.
     - Sim, srta. MacGregor. - Ele lhe endereou um leve sorriso de boas-vindas. - O sr. Blade est a sua espera. Leve a bagagem da srta. MacGregor para a sute 
dos convidados, na cobertura - disse ao camareiro que j estava ao lado das malas. - O sr. Blade quer que v direto ao escritrio dele, srta. MacGregor. Vou mostrar-lhe 
o caminho.
     - Obrigada.
     Os nervos comearam a fazer o estmago dela se apertar, mas Serena ignorou a reao. Sabia o que iria fazer e como faz-lo. Tivera duas semanas para organizar 
sua estratgia e durante a longa viagem de Massachusetts at Nova Jersey pudera revisar seu plano. Uma ou duas vezes sentira o forte impulso de fazer a volta com 
o carro e regressar para casa. Estava arriscando demais o seu futuro e seu corao. Cedo ou tarde acabaria por se machucar. Isso era inevitvel. Mas em Atlantic 
City havia algo que ela queria, e esse algo chamava-se Justin Blade.
     Apertou com mos nervosas a regio do estmago, rapidamente, a fim de acalmar os nervos, antes que o recepcionista abrisse uma porta dupla de madeira macia 
sobre a qual havia o aviso "Particular". A moreninha sentada  grande escrivaninha de bano ergueu o rosto com ar de interrogao, at que viu Serena.
     - Srta. MacGregor - anunciou o recepcionista.
     - Sim, claro. - Kate ergueu-se com um aceno de cabea. - Obrigada, Steve. O sr. Blade est a sua espera, srta. MacGregor. Deixe-me apenas avis-lo que est 
aqui.
     Ento, era por isso que o chefe andava meio estranho, concluiu Kate, dirigindo um olhar frio e avaliador a Serena enquanto lidava com o interfone. Observou 
os longos e loiros cabelos presos atrs das tmporas por dois pentes de marfim, as fortes e ao mesmo tempo suaves e bem feitas feies acentuadas pelos grandes olhos 
cor de violeta, o corpo esguio modelado levemente por um chemisier de seda cru cambiante em tons mais escuros. Muita classe, decidiu, enquanto Serena sustentava 
seu olhar sem piscar, nem se mexer.
     - A srta. MacGregor est aqui, Justin... Claro. - A secretria depositou o receptor no aparelho e deu a Serena um sorriso que era quase amigvel. - Por aqui, 
srta. MacGregor.
     Kate ergueu-se e abriu uma porta, pronta para indicar o caminho.
     - Obrigada, srta...
     - Wallace - respondeu Kate, automaticamente.
     - Obrigada, srta. Wallace.
     Serena segurou a porta pela maaneta, passou e fechou-a atrs de si. Kate ficou olhando para a maaneta por um momento, percebendo, ento, que havia sido habilidosamente 
dispensada. Mais intrigada do que aborrecida, voltou para sua mesa.
     - Serena. 
     Justin inclinou a cadeira para trs. Por que esperara que algo houvesse mudado?, perguntou-se. Julgara-se preparado para o ataque furioso de sentimentos contraditrios 
quando a visse, no entanto cada hora das duas ltimas semanas havia desaparecido naquele instante.
     - Ol, Justin. - Ela rezou para ele no lhe apertar a mo, pois estava com a palma mida. - Bonito o seu hotel.
     - Sente-se. - Ele indicou a poltrona diante de sua mesa. - Quer beber alguma coisa? Um caf?
     - No. - Com um sorriso bem-educado, ela atravessou a sala e foi sentar-se na poltrona estofada em pelica.
     - Agradeo sua gentileza em receber-me.
     Justin ergueu as sobrancelhas ao ouvir aquelas palavras. Estavam circulando ao redor um do outro, como dois pugilistas no primeiro assalto, estudando as defesas 
do adversrio.
     - Como foi o vo?
     - Vim de carro - respondeu ela. - Esta  uma das coisas da quais senti falta neste ltimo ano. O tempo esta adorvel.
     Serena estava determinada a manter uma conversa superficial at que seus nervos se acalmassem.
     - E a sua famlia?
     - Meus pais esto bem. No vi Alan, nem Caine. - Serena deu seu primeiro sorriso espontneo. - Meu pai manda-lhe cumprimentos.
     - Quer dizer que ele continua vivo?
     - Encontrei meios mais sutis de vingana...
     Com expresso de prazer Serena lembrou-se dos charutos destrudos.
     - J se habituou  vida em terra firme? 
     Incapaz de resistir, Justin fixou os olhos por instantes nos lbios dela, estavam sem batom e um tanto midos.
     - Sim, mas no ao desemprego. 
     Ela sentiu um calor no rosto que pareceu refletir-se no estmago. Tinha vontade de ir para junto de Justin, de aceitar o que ele lhe oferecesse, sob quaisquer 
condies. S queria ser abraada de novo e que aquelas mos fortes e experientes a acariciassem. Com cuidado, cruzou as mos sobre o colo.
     -  sobre isso que quero conversar com voc, Justin.
     - O cargo de gerente do cassino ainda est  disposio - respondeu ele, enquanto seus olhos relutavam em fixar-se nos dela. - As horas de trabalho so longas, 
se bem que acredito que no ir ach-las mais cansativas do que no navio. Em geral, no haver necessidade de ir para o salo antes das cinco, se bem que naturalmente 
tenha que se organizar para ter uma noite de folga. H um certo trabalho com a parte burocrtica,  evidente, porm na maior parte do tempo voc estar lidando com 
os funcionrios e os clientes. Ter seu escritrio do outro lado da rea de recepo. Quando sua presena no for necessria no salo, poder supervisionar o movimento 
da sua sala. H monitores e uma viso mais direta.
     Justin apertou o boto, fazendo o painel de madeira deslizar, e atravs do vidro Serena viu a multido no cassino jogando, conversando, andando, como se assistisse 
a um filme mudo.
     - Voc ter um assistente - prosseguiu Justin. Ele  competente, mas no est autorizado a tomar decises. Uma sute para moradia faz parte do seu salrio. 
Quando eu estiver viajando ou fora do hotel, voc ter completa autoridade sobre o cassino... dentro das minhas regras de trabalho.
     - Parece bastante claro. - Descruzando as mos, Serena fez o possvel para relaxar e deu um sorriso amigvel.
     - Assumirei com prazer a gerncia do cassino, Justin... como sua scia.
     Ela viu um brilho, mas apenas um brilho rpido, de surpresa nos olhos dele, que logo desapareceu antes que ele se inclinasse para trs. Em todo mundo aquele 
seria um gesto de descontrao, mas em Justin parecia um preparo para ataque. - Minha scia?
     - Sim, no Atlantic City Comanche - confirmou ela, calma.
     - Preciso de um gerente para o cassino, Serena, no de um scio.
     - E eu no preciso de um emprego e de salrio contraps ela. - Tenho sorte bastante de ser financeiramente independente, mas no tenho temperamento para ficar 
sem fazer nada. Aceitei o emprego no Celebration como uma experincia e j no preciso mais empregar-me para isso. Estou procurando algo que apresente maiores desafios.
     - Uma vez voc disse que estava pensando em trabalhar em um cassino quando deixasse o navio.
     - No. - Ela sorriu de novo e sacudiu a cabea. Voc me entendeu mal. Minha inteno  abrir meu prprio cassino.
     - Seu prprio cassino? - Ele se descontraiu. - Por acaso, sabe o que isso significa?
     Ela ergueu o queixo.
     - Claro que sim. Passei um ano trabalhando e vivendo num verdadeiro hotel-cassino flutuante. Aprendi como uma cozinha funciona para atender cento e cinqenta 
pessoas, como  o controle para fornecer roupa de banho e cama, como organizar o servio de camareiros, como abastecer uma adega... Sei quando um crupi est ficando 
esgotado e precisa ser substitudo. Pouco havia para eu fazer naquele navio alm de aprender. E aprendo muito depressa.
     Justin considerou o contido, porm furioso, tom de voz dela, o brilho duro e determinado em seus olhos. Provavelmente ela conseguiria ter seu hotel-cassino 
com sucesso, decidiu. Serena tinha coragem, conhecimento e iniciativa.
     - Levando tudo isso em considerao - disse, suave - , por que eu deveria tom-la como scia?
     Erguendo-se, ela se aproximou do espelho bi-direcional.
     - Est vendo aquela crupi na mesa cinco? - perguntou, batendo com a ponta do dedo no vidro.
     Curioso, Justin foi para o lado dela.
     - Sim, por qu?
     - Ela tem excelentes mos, rpidas e firmes. Parece-me que impe um confortvel ritmo no jogo sem parecer apressar os jogadores. Uma crupi como ela no deve 
trabalhar nas tardes do meio da semana.  preciso crupis desse tipo para as horas de jogo pesado. O rapaz que est bancando a mesa de dados parece mortalmente aborrecido. 
Ele deve ser despedido ou receber aumento.
     - Desenvolva.
     Uma vez que havia um toque de bom humor na voz dele, Serena sorriu-lhe.
     - D-lhe um aumento se ele puder assumir um aspecto mais apresentvel e mais entusiasmo do que tem, seno despea-o. O pessoal do cassino deve ser do mesmo 
nvel que o pessoal do hotel.
     - Bom ponto de vista - admitiu ele - e bom motivo para eu querer voc como gerente do meu cassino, mas no para assumi-la como minha scia.
     Serena virou as costas para o mundo silencioso atrs do falso espelho.
     - Ento, vamos a alguns outros motivos. Quando voc tiver de viagem no pas ou na Europa saber que deixa aqui algum que tem interesse no investimento todo, 
no apenas no cassino. Fiz uma pequena pesquisa... Se a empresa Blade continuar crescendo no mesmo ritmo voc vai ter que dividir a responsabilidade com algum. 
Ao menos,  claro, que decida trabalhar vinte e quatro horas por dia ganhando dinheiro sem ter tempo para aprovei-lo. A quantia que estou apta a investir lhe daria 
dinheiro bastante para aumentar suas possibilidades com aquele cassino em Malta.
     As sobrancelhas de Justin ergueram-se.
     - Realmente, voc fez pesquisas...
     - Ns, escoceses, jamais entramos cegamente em um negcio... O fato  que no estou disposta a trabalhar para voc e nem para ningum. Por cinqenta por cento 
dirijo o cassino e supervisiono outras reas sempre que necessrio.
     - Cinqenta por cento? - Os olhos dele eram duas fendas.
     - Partes iguais, Justin. - Ela encarou-o com tranqilidade.
     -  o nico jeito de voc me ter.
     Fez-se um silncio total, e Serena teve que esforar-se para manter a respirao normal. No queria que ele percebesse quanto estava nervosa, nem que achasse 
que seria fcil faz-la esquecer o orgulho e atirar-se em seus braos. O que acontecera durante o tempo que haviam passado juntos fora bem analisado durante a separao. 
Ela se apaixonara por ele quando no tinha conhecimento de sua situao financeira, que poderia tent-la, mas no o deixaria saber disso at que fosse o momento.
     - Se quiser algum tempo para pensar... - ofereceu Serena. - Meus planos so flexveis. - Ela foi at a poltrona onde estivera a fim de pegar a bolsa. - Pretendo 
dar uma espiada em imveis enquanto estiver na cidade.
     Quando os dedos de Justin se fecharam ao redor de seu brao, Serena voltou-se devagar. Ele ia pagar para ver seu blefe, tinha certeza. E quando o fizesse ela 
no teria outro jeito se no apostar ou fugir do jogo.
     - Est bem, desde que fique determinado em contrato que durante o primeiro ano qualquer um de ns poder romp-lo se achar que no funciona.
     Foi difcil para ela conter o riso.
     - De acordo - disse, tranqila.
     - Vou pedir a meu advogado que faa o rascunho do contrato. Enquanto isso, voc pode se acomodar e ir conhecendo tudo por aqui. - Ele indicou o cassino com 
a cabea. - Ter cerca de uma semana para mudar de idia.
     - No tenho inteno de mudar de idia, Justin. Quando tomo uma deciso  para valer.
     Os olhares de ambos se encontraram mais uma vez cautelosos. Serena estendeu a mo. 
     - De acordo, ento?
     Justin fitou por instantes a mo que ela lhe oferecia, ento apertou-a, selando o pacto, depois levou-a aos lbios.
     - De acordo, Serena - respondeu - , apesar de que receio que possamos nos arrepender.
     - Vou subir e mudar de roupa. - Serena retirou a mo. - Quero trabalhar no cassino esta noite.
     - Pode comear amanh...
     Justin acompanhou-a e colocou a mo sobre a dela, na maaneta da porta.
     - Prefiro no perder tempo - disse ela, simples. Se quiser me apresentar ao meu assistente e a alguns dos crupis, o resto ser comigo.
     - Como voc quiser.
     - D-me uma hora para me trocar e desfazer as malas.
     Querendo romper o contato com ele, ela abriu a porta.
     - Temos outras coisas para conversar, Serena.
     Controlando o impulso de se atirar nos braos dele, calma, ela respondeu:
     - Sim, mas prefiro esclarecer o que se refere aos negcios primeiro, j que uma coisa nada tem a ver com a outra.
     Com os olhos fixos nos dela, Justin segurou a gola do vestido entre o polegar e o indicador.
     - No tenho certeza se uma coisa nada tem a ver com a outra - murmurou. - E no somos bobos para fingir que assim .
     A veia na base do pescoo dela comeou a pulsar visivelmente, no entanto sua voz soou clara e firme.
     - Logo descobriremos isso, no?
     Com um sorriso, Justin soltou a gola.
     - Sim. Vejo-a daqui a uma hora, ento.
     Serena no tardou a descobrir que aquele seria um trabalho duro. Bem mais duro do que havia sido seu trabalho no Celebration. Mas dessa vez tinha interesses 
prprios, considerou, enquanto olhava ao redor no rumoroso cassino que estava sob sua responsabilidade. Assinou seu nome na nota que um dos crupis havia trazido 
para ela e sentiu um leve orgulho. Parte daquela agitao ao redor lhe pertencia.
     Seria preciso algum tempo para a adaptao, disse a si mesma enquanto surpreendia um ou outro olhar especulador dirigido a ela. Quando Justin a havia apresentado 
como scia, Serena quase pde ouvir as engrenagens dos crebros ao redor comeando a funcionar. Simplesmente, tinha de provar a si mesma que era merecedora daquela 
posio, fosse o que fosse que acontecesse pessoalmente entre ela e Justin. A regra nmero um era confiana, a nmero dois, tenacidade. Quando aplicadas juntas, 
essas duas regras significavam uma combinao invencvel para Serena, da mesma forma que a frmula que usava para dominar seu pai.
     Seu assistente, Nero, era um homem de tez escura, corpulento e tranqilo, que recebera a novidade sobre a sociedade de Serena em relao ao hotel-cassino com 
um silencioso assentimento. Ela ficou sabendo que a princpio ele trabalhava no cassino como segurana e de um jeito ou de outro funcionava como protetor das propriedades 
de Justin. Com as mnimas palavras necessrias ele mostrou o cassino a Serena, inteirou-a da rotina bsica, depois deixou-a s. Era um homem, pensou ela, que no 
se conquistava facilmente.
     Percebendo um sinal de um dos crupis, Serena atravessou o salo. Quando estava a meio caminho para a mesa ouviu alar-se uma voz zangada. Foi preciso apenas 
um olhar para determinar que o homem em questo no tinha a mnima sorte e sentia-se muito infeliz por isso.
     - Desculpe-me... - Dando um sorriso geral para os ocupantes da mesa, Serena foi para junto do crupi. Algum problema?
     - Pode apostar que sim, minha querida. - O homem zangado segurou-a pelo pulso. - Quem  voc?
     Serena baixou o olhar para a mo dele, depois fitou-lhe o rosto.
     - Sou a dona do cassino.
     Ele deu uma risadinha antes de esvaziar seu copo.
     - Conheo o dono, moa, e ele no  nada parecido com voc.
     -  meu scio - informou Serena com um sorriso gelado.
     Com o canto dos olhos viu Nero comeando a se aproximar e fez-lhe um leve sinal que no.
     - Posso ajud-lo em alguma coisa?
     - Perdi um monte de dinheiro nesta mesa... - disse o homem. - Meus amigos podem testemunhar isso. Os demais jogadores se entreolharam, aborrecidos, e o ignoraram.
     - O senhor quer ir ao caixa trocar o restante de suas fichas? - indagou ela, polidamente.
     - Quero uma chance de recuperar o que perdi - retrucou o homem, colocando o copo vazio na mesa. - Este jogo no tem limite...
     Serena observou o crupi e viu sinais de fria em seus olhos.
     - Nossos crupis no esto autorizados a continuar o jogo alm do nosso limite de banca, senhor...
     - Carson, Nick Carson, e quero saber que tipo de operao  a de vocs, que no permite a um homem a chance de recuperar o que perdeu.
     - Como eu disse - voltou Serena, calma - , nossos crupis no esto autorizados a ultrapassar o limite de cada banca, mas eu estou. Quanto mais pretende jogar, 
sr. Carson?
     - O tempo de mais uma dose - ele apontou para o copo, pedindo outra bebida, e Serena assentiu para a garonete. - Mais uma mo de cinco. - Ele deu um sorriso 
abobalhado para Serena. - Acho que vai dar para equilibrar as coisas. Traga a nota do sr. Carson, Nero - ordenou ela, sentindo que ele estava ao alcance de sua voz. 
- Pode jogar mais uma mo valendo cinco mil, sr. Carson - fitou-o com determinao - , e se perder no jogar mais esta noite.
     - Tudo bem, boneca. - Ele segurou-a de novo pelo pulso, olhando de alto a baixo o vestido vermelho longo, solto junto ao corpo, que ela usava. - E se eu ganhar 
voc ir tomar um drinque comigo em algum lugarzinho sossegado?
     - No abuse da sua sorte, sr. Carson. - avisou Serena, com um sorriso frio.
     Rindo, o homem pegou a nota que Nero lhe entregava e assinou-a.
     - Nunca faz mal tentar, doura. Oh, no! - reclamou quando Serena ia se afastar. - Voc d as cartas.
     Sem uma palavra, ela ocupou o lugar do crupi. Foi ento que viu Justin de p, a pouca distncia, observando-a. Droga! Encontrou o olhar dele por um instante, 
imaginando se no deixara a irritao influenciar em sua atitude. Depois de outro olhar a Carson disse a si mesma que tinha de tirar os cinco mil dlares dele pacificamente.
     - Apostas? - indagou olhando para os demais jogadores e contou as fichas de Carson. Todos os demais parceiros da mesa fugiram do jogo.
     - Seremos apenas ns dois - observou Carson, empurrando as fichas para a frente. - D as cartas.
     Em silncio, Serena deu um sete e um dois a ele. Um olhar nas prprias cartas disseram-lhe que tinha doze, com um nove aberto.
     - Carta - ordenou Carson, olhando de modo ausente para o copo j vazio de novo. - Chega - falou e deu-lhe um sorriso vazio.
     - Satisfeito com dezenove. - Serena virou mais uma carta para si. - Doze,quinze - disse, virando um trs e virou outra carta em seguida: cinco. - Vinte.
     Carson soltou uma imprecao.
     - Perdeu de novo, sr. Carson- Serena fitou-o com frieza extrema.
     O homem ficou olhando enquanto ela calmamente recolhia sua fichas, ento levantou-se e saiu do cassino sem uma palavra.
     - Peo-lhes que nos perdoem pela inconvenincia disse Serena, aos jogadores da mesa, antes de dar o lugar para o crupi.
     - Foi incrvel, srta. MacGregor! - aprovou Nero quando ela passou por ele.
     Serena parou.
     - Obrigada, Nero. Pode me chamar apenas de Rena.
     - Viu-o sorrir, feliz, antes de se aproximar de Justin.
     - Voc confiou em mim?. - perguntou-lhe em voz baixa
     Justin fitou-a, depois enroscou uma mecha dos cabelos loiros em seus dedos.
     - Sabe? Eu queria voc aqui por uma srie de razes e esta e uma delas.
     Satisfeita, ela riu.
     - E se eu perdesse?
     Justin sacudiu os ombros.
     - Seria perdido e pronto. Voc lidou com uma situao potencialmente desconfortvel com um mnimo de mal-estar. E com estilo - ele contornou o rosto dela com 
as costas os dedos. - Admiro sua classe, Serena MacGregor.
     - Estranho ... - Ela pudera sentir que algo mudava em seu ntimo enquanto as coisas aconteciam, tornando-a suave, aquecida. - Eu sempre admirei a sua. 
     - Voc est cansada. - Ele passou de leve o polegar nos olhos dela, onde se formava uma sombra.
     - Um pouco - admitiu ela. - Que horas so?
     - Quase quatro.
     - No  de admirar. O ruim neste trabalho  que se troca o dia pela noite...
     - Voc j fez mais do que devia por hoje. - Ele a levou para a sada atravs do salo. - Precisa de um bom caf da manh.
     - Hummm!
     - Eu sabia que voc estava com fome.
     - Eu no tinha notado, mas  verdade! Estou morta de fome. - Serena olhou por cima do ombro enquanto ele a levava para o elevador privativo. - O restaurante 
no  do outro lado?
     - Vamos tomar caf na minha sute.
     - Oh, espere a! - Rindo, ela parou. - Acho que  mais sensato comermos no restaurante. 
     Justin ficou olhando-a por momento, em seguida procurou nos bolsos.
     - Justin...
     - Cara, minha sute; coroa, restaurante.
     Com a testa franzida ela ergueu a mo.
     - Deixe-me ver essa moeda. - Virando-a de ambos os lados, ela devolveu-a, concordando. - Est bem, estou cansada demais para discutir. Jogue. E ele jogou a 
moeda para o ar, com um movimento do polegar. Serena esperou que a segurasse nas costas da mo, olhou-a e suspirou.
     - Para o elevador - disse Justin.
     
     
     
     
     
    Captulo Oito
    
    
     - Ainda vou ganhar de voc, qualquer dia - disse Serena com um bocejo, enquanto Justin apertava o boto da cobertura.
     - E quando eu ganhar ser muito mais do que um caf da manh. - Ela olhou as paredes com vidros fums.
     - No reparei neste elevador quando estive no seu escritrio.
     -  uma rota de fuga - sorriu ele. - Todos precisamos de uma, ocasionalmente.
     - No pensei que voc precisasse. - Ela lembrou-se do espelho bi-direcional de seu escritrio e indagou: - Eles impressionam voc s vezes, Justin? Toda aquela 
gente do outro lado de uma simples parede?
     - Antes me impressionavam - admitiu ele. - E acho que voc deve ter se sentido assim alguma vez no navio. No era por isso que ia para o convs quando todos 
estavam dormindo? 
     Ela respondeu com um alar de ombros.
     - Bem, vou ter que me acostumar se vou morar aqui, pois de qualquer modo sempre irei me sentir entre a multido.
     Quando o elevador parou e as portas se abriram ela saiu, comentando:
     - Tudo aqui  realmente adorvel.
     Ele usava cores fortes em seus aposentos particulares, azul-anil no amplo sof, abajur vermelho-vinho numa mesa de canto em compensao, havia quadros em cores 
pastel nas paredes e um espelho bisot.
     - Aqui  timo para a gente relaxar - decidiu Serena, pegando a estatueta de um falco esculpida em madeira. No se tem impresso de estar em um hotel, com 
todas estas coisas pessoais. 
     Estranhamente, quando Justin viu algo seu nas mos dela, sentiu pela primeira vez intimidade com aquela sala. Para ele, a sute era apenas um lugar para ficar 
quando no estava trabalhando, nada mais, nada menos. Tinha aposentos semelhantes nos seus demais hotis. Eram confortveis, particulares, e nada lhe diziam at 
ento.
     - A minha sute  bonita - prosseguiu Serena, pegando outras peas de arte -mas s vou senti-la de fato minha quando tiver objetos pessoais nela. Acho que vou 
pedir a mame que mande minha escrivaninha e algumas outras peas. 
     Voltando-se deu com ele fitando-a. Subitamente nervosa, sentou-se no que parecia uma pequena tigela invertida de acrlico azul-cobalto.
     - Como  a vista daqui?
     Inquieta, tornou a erguer-se e foi at a imensa janela; ao passar viu que a mesa de vidro j estava posta. Erguendo a tampa da travessa, viu uma cremosa omelete 
mexicana, fatias de presunto defumado e bolinhos de milho. Quando ergueu a tampa do alto bule de prata. o delicioso aroma de caf fresco invadiu a sala. Numa mesmha 
auxiliar havia um balde de prata com gelo e uma garrafa de champanhe.
     - Olhe s, Justin! - exclamou depois de pegar o nico boto de rosa no solitrio de cristal. - Veja o que a fada-madrinha deixou para ns!
     - E dizem que milagres so coisas do passado!
     - Quer saber qual  o milagre? - perguntou ela passando o boto de rosa sob o nariz dele. - Milagre e eu no despejar este bule de caf na sua cabea.
     - Prefiro beb-lo... - garantiu ele. - Gostou da sua rosa?
     -  a segunda vez que voc organiza uma refeio sem me consultar e...
     - Da outra vez voc tambm estava com fome - lembrou-a Justin.
     - O problema no  esse.
     - Qual ?
     Frustrada, Serena respirou fundo e foi tentada pelo cheiro bom de comida.
     - H alguns minutos eu sabia qual era - resmungou.
     - Como conseguiu ter tudo aqui, pronto e quentinho?
     - Falei com o servio de quarto antes de ir para o cassino ver se voc precisava de ajuda.
     Enrolando o grande e alvo guardanapo no gargalo da garrafa, Justin tirou a rolha do champanhe.
     - Muito esperto!
     Cedendo  fome, Serena sentou-se, colocou os cotovelos na mesa e apoiou o queixo nos dedos entrelaados.
     - Champanhe no caf da manh?
     -  o melhor momento para champanhe, Serena.
     Ele encheu duas taas antes de sentar-se  mesa.
     - Se eu decidir passar por cima da sua arrogncia - considerou ela, servindo-se da omelete - posso achar tudo muito bonito da sua parte... de maneira clandestina.
     - Bem-vinda, Serena - ele ergueu a taa.
     Ao primeiro bocado ela fechou os olhos, em silenciosa apreciao.
     -  fcil passar por cima da arrogncia quando se tem comida... Estou morrendo de fome ou esta omelete  mesmo maravilhosa!
     - Vou transmitir sua aprovao ao chef.
     - Humm! Amanh, vou dar uma olhada na cozinha e na boate - acrescentou Serena, depois de outra garfada.
     - Notei que Chuck Rosen est cantando aqui, esta semana. No deve ficar uma s mesa vazia.
     - Tenho um contrato exclusivo de dois anos com ele. - Justin partiu um bolinho de milho ao meio e quando passou-lhe manteiga, ela derreteu. - Ele se apresenta 
em todos os meus hotis.
     - Esse  um investimento de primeira - aprovou Serena. - Sabe... - ergueu a taa e fitou-o por cima da borda - , voc foi exatamente como eu pensei que era 
na primeira vez que sentou a minha mesa e agora no  nada do que eu pensei que fosse.
     Tomando um gole de champanhe, ele retribuiu-lhe o olhar.
     - O que pensou que eu fosse?
     - Um jogador profissional e no errei nisso. Mas...
     - Ela tomou outro gole, concordando com Justin: champanhe ia muito bem no caf da manh. - Nunca imaginei que fosse um homem capaz de construir uma cadeia de 
hotis como este.
     - No? - Divertido, ele brincou com a comida no prato, sem desviar os olhos dela. - O que imaginou, ento?
     - Acho que o via como uma espcie de nmade. O que tambm no  de todo errado, por causa.dos seus ancestrais. No o considerei capaz de assumir toda a responsabilidade 
que este tipo de hotel requer. Voc  uma interessante mistura, Justin, de rudeza e responsabilidade - ela pegou o boto de rosa - , de dureza e doura.
     - Jamais algum me acusou disso antes - murmurou ele, enchendo a taa dela de novo.
     - Do qu?
     - De ser doce.
     - Bem, no  uma das suas virtudes dominantes - Serena sorriu e bebeu um gole. - Suponho que seja por isso que sempre me surpreendo quando esse seu lado aparece.
     - Fico contente por voc ter notado. - Ele desceu um dedo pelas costas da mo dela at o pulso. - Creio que tambm descobri em voc uma certa vulnerabilidade.
     Determinada, ela tomou outro gole da bebida.
     - No sou sempre vulnervel.
     - No - concordou ele. - Talvez seja por isso que me sinta recompensado por ser o culpado de voc sentir-se vulnervel. Sua pulsao se acelera quando a toco 
aqui...
     Justin tocou-lhe a parte interna do pulso.
     Perturbada, Serena colocou a taa na mesa.
     - Preciso ir.
     Mas ele ergueu-se tambm, segurando-lhe as mos. Ao encontrarem os de Serena, os olhos dele eram calmos e confiantes.
     - Ontem  tarde prometi a mim mesmo - a voz de Justin era suave - , que faria amor com voc antes que a noite terminasse. - Dando um passo para junto dela, 
segurou-lhe a outra mo. - Ainda h uma hora antes de o sol nascer. 
     Era tudo que Serena queria. Cada milmetro de seu corpo clamava por ele. Se as mos de Justin no estivessem segurando as suas com tanta firmeza Serena teria 
fugido.
     - Justin, no vou negar que quero voc, mas acho melhor esperarmos um pouco mais.
     - Razovel - concordou ele, abraando-a. - S que no se deve perder tempo.
     Justin silenciou-lhe o protesto com os lbios. No havia comida que saciasse a fome que ele sentia. A sua boca era exigente, devoradora, e apoderou-se dos lbios 
dela antes que Serena pudesse responder ou escapar. Ela sabia que ao abra-la com fora Justin no iria permitir-lhe lutar. Nos lbios dele havia o gosto da urgncia. 
Sentiu o corpo firme contra o seu e desejou-o.
     Quando sua lngua encontrou a de Serena no foi numa busca delicada, mas sim numa exigncia desesperada de intimidade. Agora, ele parecia dizer, no h como 
recuar.
     O que havia comeado semanas atrs com uma longa e fria troca de olhares chegava ao auge.
     Iria acontecer, pensava Serena aturdida, porque os dois desejavam que acontecesse.
     Entre aquelas primeiras exigncias urgentes da paixo, ela sentiu uma tranqila alegria. Amava. E amar, compreendia agora, era a aventura mxima. Segurando 
o rosto de Justin com ambas as mos, afastou-o um pouco de si e fitou-lhe os olhos, agora escuros pelo desejo que sentia por ela. Serena pedia um momento, apenas 
um momento, para clarear a mente e dizer o que sentia sem o calor da paixo devorando-a por dentro. Suavemente, passou a ponta dos dedos pelo rosto de traos fortes. 
O corao dele batia contra seu seio desenfreadamente. Um sorriso feliz desenhou-se nos lbios de Serena.
     - Isto - disse ela, calmamente -  o que eu quero, o que eu escolhi.
     Justin ficou a fit-la sem nada dizer. Aquelas simples palavras eram mais sedutoras do que o envolvente perfume que vinha dela, do que o rpido ritmo de sua 
respirao, e o enfraqueciam, revelando em Justin uma vulnerabilidade que ele jamais desconfiara ter. De repente, descobriu que havia mais do que paixo em seu ntimo. 
Pegou a mo delicada e beijou-lhe a palma.
     - No pensei em nada a no ser em voc, nestas semanas - disse, emocionado. - Eu no queria nada e ningum, a no ser voc.
     Afagou-lhe os cabelos sedosos antes que sua mo se fechasse em punho. Desejo... Santo Deus, jamais desejara uma mulher como desejava aquela!
     - Vamos para a cama, Serena. No posso mais ficar sem voc.
     O olhar dela era calmo quando estendeu-lhe a mo, num gesto de assentimento. Sem falar, foram para o quarto que estava s escuras, iluminado apenas pelo fulgor 
intermitente dos luminosos l fora. E havia silncio. Um silncio tal que Serena pde ouvir sua prpria respirao se apressando. Quando sentiu que Justin se afastava 
dela parou e s ento percebeu quanto estava nervosa.
     Ele no seria gentil, pensou, ao lembrar-se da boca e das mos dele tocando-a. Como amante, Justin devia ser arrebatador e terrvel. Ouviu um estalido e viu 
a luz de um fsforo aproximar-se de uma vela. As sombras oscilaram. 
     Os olhos de Serena estavam fixos nele. Na trmula luz amarelada o rosto de Justin era de uma beleza agressiva. Ele lembrava mais seus ancestrais ndios do que 
o mundo que ela entendia. E, naquele instante, compreendeu por que a mulher cativa lutara contra seu raptor no primeiro momento, depois ficara com ele.
     - Quero ver voc - murmurou Justin, levando-a para perto da vela.
     Surpreendeu-se ao v-la estremecer. Ela, a mulher que momentos antes havia sido to firme, to segura de si!
     - Voc est tremendo, Serena...
     - Eu sei. - Ela respirou fundo e rpido algumas vezes. - Bobagem, no?
     - No.
     Justin sentiu-se forte, poderoso, pois Serena MacGregor no era mulher que tremeria por qualquer homem e estava tremendo por ele! Segurando-lhe os cabelos, 
Justin a fez inclinar a cabea para trs. Viu nos olhos azuis o mais profundo e selvagem desejo.
     - No - repetiu e esmagou-lhe os lbios com os seus.
     Serena sentiu o sangue correr mais rpido em suas veias e soube, quando Justin intensificou o abrao, que ele havia percebido sua excitao. Querendo senti-lo 
mais perto de si, Serena amoldou-se perfeitamente ao corpo dele. Naquele instante, Justin aceitou sua rendio, mas logo teria mais, muito mais. Com a boca ainda 
vida colada  dela, comeou a despi-la. Esquecendo-se da fragilidade da seda, ele puxou o vestido com fora, parando apenas para colar seu corpo, centmetro a centmetro, 
 pele que ficava  mostra. Trmula, ela lutava com os botes da camisa quando o vestido escorregou-lhe pelo corpo e caiu no cho, ao redor de seus ps.
     Justin devia ter imaginado que por baixo ela usava alguma coisa muito fina e suave. Com a ponta dos dedos, percorreu a estreita ala da combinao sobre os 
ombros delicados mas no as removeu. Ainda no. Queria sentir o prazer daquela nica barreira separando-os. Ele a quis ento com tal intensidade que foi dificil 
controlar-se. Os seios de Serena eram pequenos e firmes sob suas mos, acariciados sob o cetim enquanto se beijavam com selvageria. Justin abandonou-lhe os lbios 
para tocar com a boca e a mo um dos pequenos picos endurecidos. Alucinado pelos gemidos abafados dela, ele mordiscou o mamilo. O corpo de Serena arqueou-se contra 
o dele, surpreendido por inesperadas sensaes. Sentiu-se aprisionada num mundo de seda e de fogo quando Justin a deitou de costas sobre a cama. A cada movimento 
a seda dos lenis acariciava-lhe as costas nuas e as pernas, sussurrando promessas. Seu corpo reagia aos toques dele como se houvesse na ponta de cada dedo uma 
pequena chama como a da vela. Do ponto em que sua combinao estava molhada pelos lbios dele, um verdadeiro incndio se propagava pelo corpo de Serena. Como uma 
voz a distncia, ouviu-o murmurando seu nome e dizendo coisas que no conseguia entender. 
     Quando perdeu a pacincia com a frgil barreira, ele abaixou as alas e puxou-lhe a combinao at a cintura para tocar a carne nua. Serena puxou-o mais para 
si, suas mos agora to exigentes quanto as dele. Embora sua boca ansiasse pela de Justin, seu corpo queria desesperadamente que ele continuasse a toc-lo com a 
lngua, a mordisc-Io com suavidade. Agora ela sentia apenas prazer, o ardente prazer de uma inesgotvel paixo. Haviam desaparecido todas as restries e regras, 
restava apenas o delicioso abandono no qual ela mergulhava como num sonho.
     S naquele momento Serena compreendeu quanto no sabia, quo pouco havia sentido at ento. Segundo a segundo fazia uma nova descoberta. Enquanto a boca de 
Justin chegava apenas at a linha demarcada pelo cetim da combinao, ela desejava mais. Sua imaginao galopava selvagem, pensamentos dele dentro dela, preenchendo-a 
toda, uma sensao de prazer to aguda que fazia doer o pequeno recanto em fogo entre suas coxas. Em delrio, Serena agarrou-se aos ombros dele.
     - Me possua - pediu, ofegante. - Justin, quero voc, agora.
     Mas Justin continuava a lev-la mais alto com suas carcias, como se no tivesse escutado o pedido. Puxou a combinao at tir-la e acariciou com os lbios 
e a lngua a nova poro de carne exposta, o ventre macio, achatado, a suave curvatura do quadril, a delicada pele da parte interna das coxas.
     Serena arqueou-se como se fosse partir-se ao meio, arrastada pela torrente de paixo. Ele no parava, um amante habilidoso como ela previra, to vibrante quando 
esperara.
     E Serena estava exatamente como Justin queria: macia, mida e sem qualquer controle. Desesperada, ansiosa, agarrava-se a ele, arranhando-o com as longas e elegantes 
unhas. Ele podia ouvir seus gemidos, as palavras incoerentes que lhe passavam pela garganta apertada enquanto a enlouquecia cada vez mais com seus toques. A pele 
dela estava molhada do suor produzido pela paixo, enquanto seus quadris movimentavam-se contra ele mais e mais. Agora Serena era dele, irracionalmente dele, e Justin 
sabia que jamais algum a tivera to completamente. Lutando para prolongar aquele momento o mximo possvel, ele deitou-se sobre ela, que segurou-o pelos quadris, 
puxando-o alucinadamente para si.
     Ao toque da primeira e suave claridade do amanhecer o rosto dela era de porcelana. Seus olhos estavam fechados, os lbios entreabertos tremiam a cada respirao. 
Meio enlouquecido pelo desejo, ele jurou que homem algum a veria como ele a via naquele momento.
     - Olhe para mim - pediu Justin, com voz spera pela paixo. - Olhe para mim, Serena.
     Serena abriu os olhos brilhantes de prazer, escurecidos pelo desejo.
     - Voc  minha mulher. - Justin penetrou-a e perdeu completamente o controle. - No h mais volta para voc, agora.
     - Nem para voc... - Os olhos dela perderam o foco quando os dois comearam a mover-se juntos.
     Justin esforou-se por compreender o que ela dissera, mas Serena movia-se cada vez mais depressa. Escondendo o rosto nos cabelos dela, ele se deixou levar pela 
loucura.
     A luz do alvorecer filtrava-se pela enorme janela num sensacional jogo de tons rosados e dourados. Com a cabea de Justin aninhada entre seu ombro e pescoo, 
Serena olhava os raios do sol brincarem nas costas nuas dele. A claridade parecia com ela, descobriu. Brilhante, rica e nova. Haveria melhor modo de admirar o amanhecer 
do que com o corpo do amante aquecendo o seu? Dormir... No precisava disso. Sabia que seria capaz de ficar assim, imvel, durante horas, com o sol tornando-se cada 
vez mais brilhante e o som da respirao dele junto ao seu ouvido. Com um suspiro de contentamento, passou a mo pelas costas morenas e musculosas.
     Ao leve toque, Justin ergueu a cabea. Encostando o rosto no de Serena, deixou que seus olhos percorressem os traos suaves at que nada mais alm daquele rosto 
feminino estivesse em sua mente. Sem uma palavra ele baixou a cabea at seus lbios tocarem os dela, como asas de borboleta, coisa que to raramente Justin fazia. 
Gentil e quase reverente, ele beijou-lhe de leve as plpebras, as tmporas, as faces, at que Serena sentiu que o pranto lhe apertava a garganta. Seu corpo parecia 
fludo e livre.
     - Eu pensei que soubesse como iria ser... - sussurrou ele, os lbios tocando os de Serena outra vez. - Eu j deveria saber que com voc nada  como a gente 
espera.
     - Erguendo a cabea de novo ele passou um dedo sob os olhos dela. - Precisa dormir, Serena. Ela riu e arrepiou os cabelos dele.
     - Eu acho que nunca mais vou dormir, no quero perder um amanhecer sequer!
     Ele beijou-a de leve, depois rolou de lado e puxou-a para si.
     - Quero voc comigo, Serena.
     Contente, ela aninhou-se em seus braos.
     - Estou com voc.
     - Quero que viva comigo - corrigiu-se ele, segurando-lhe o queixo para que o fitasse. - Aqui. No me basta saber que voc est na sute pegada  minha. - Ento 
ele calou-se, pensativo, enquanto passava o polegar pelos lbios dela. - Vo falar, l em baixo...
     Repousando de novo a cabea no ombro dele, Serena traou sinais com a ponta da unha no peito dele, enquanto dizia:
     - O falatrio l embaixo no vai parar enquanto seu nome estiver ligado ao da filha de Daniel MacGregor.
     - No. - Ela percebeu a mudana de tom e soube que se o fitasse os olhos dele seriam insondveis. - A imprensa acharia a relao interessante, considerando 
meu passado e reputao, to opostos aos seus.
     - Justin - ela desceu a unha pelo peito, at o umbigo e subiu de novo - , est me pedindo para viver com voc ou dizendo para no viver?
     Por um longo momento ele ficou em silncio, enquanto Serena traava linhas imaginrias em seu peito.
     - As duas coisas - respondeu por fim.
     - Sei... - Ela virou a cabea o quanto pde. - Ento, suponho que devo pensar a respeito. - Sentiu um estremecimento em resposta quando deslizou a mo pelo 
ventre dele. - Pesar os prs e os contras - continuou, beijando o rosto anguloso. Ajeitando-se, deitou-se quase em cima dele, seus rostos juntos. - Ser que voc 
pode me dizer quais so? - Com um sorriso, Serena tocou-lhe os lbios com os seus. - S para refrescar minha memria .
     - E para ajud-la a tomar um deciso inteligente. Ele deslizou a mo pelo quadril de Serena.
     - Hum-hum...
     Mas quando ele tentou beij-la de verdade, num gesto rpido ela apoderou-se do lbulo da orelha de Justin e mordiscou-o.
     - Sabe que eu era a capit do grupo de debates no ltimo ano na Smith?
     - No.
     Os olhos verdes fecharam-se sob a deliciosa sensao de estar sendo seduzido.
     - D-me um tema - pediu ela, deslizando as unhas pelas costelas dele - e tempo para... pesquisa - acrescentou e mordeu-lhe de leve o pescoo. - Depois disso 
serei capaz de discutir qualquer ponto do tema. No que se refere ao nosso tema - ela deu um suspiro de prazer ao tocar com os lbios o ponto pulsante na base de 
seu pescoo- ,morar com voc implica em muitas e grandes inconvenincias...
     A mo dele desceu pelo quadril de Serena e foi localizar-se entre as coxas. Ela retirou o corpo, frustrando-o.
     - Serena...
     - No,  a minha vez, agora... - Tocou-lhe o peito com a ponta da lngua. - Eu iria perder minha privacidade, muito tempo de sono - a respirao alterada dela 
dizia que tambm se excitava tocando o corpo dele - , me arriscaria aos inevitveis falatrios e especulaes, tanto dos meus novos funcionrios como da imprensa.
     Com os msculos dele endurecendo sob suas mos e lbios, Serena perdeu o rumo dos pensamentos. Como a escultura de mrmore do cacique ndio, l embaixo, pensou, 
enquanto o sangue lhe corria mais depressa nas veias.
     -  impossvel viver com voc - concluiu, perdida em algum lugar entre sua iniciativa e a selvagem beleza do corpo nu de Justin. - Exigente e imperioso como 
voc , e porque o acho incrivelmente atraente, eu jamais teria um momento de paz.
     Ela moveu-se para cima dele, deixando que seus corpos se roassem sensualmente, com um sorriso que se tornou sedutor quando viu que os olhos dele estavam fixos 
em seu rosto.
     - Justin, d-me uma boa razo para que eu deva viver com voc, depois de considerado tudo isto. A respirao dele ainda no estava ofegante, mas j era dificil 
control-la. Com um gesto gentil puxou-lhe os cabelos.
     - Eu quero voc.
     Serena baixou o rosto at que seus lbios ficassem a um centmetro dos dele.
     - Mostre-me - pediu ela.
     Quando suas bocas se uniram Justin j havia rolado o corpo, fazendo-a fIcar sob si. Penetrou-a rapidamente, e o grito de Serena se transformou em gemidos enquanto 
ele se mexia mais e mais depressa dentro dela. Ele a amava com furor, fazendo o desejo crescer, ainda mais no momento em que ela agarrou-se a ele com braos e pernas, 
gemendo alto e dizendo seu nome. Justin estava inundado de suor, flutuando naquele limbo de prazer prometido, sentindo-se como se estivesse flutuando no espao, 
apenas com Serena, cuja voz ouvia pronunciar seu nome, sem parar.
     Seu corpo parecia estremecer com o som da voz dela, prestes a explodir com a desesperada repetio de seu nome. Ento, a palavra balbuciada despedaou-se em 
mil fragmentos, e ele no soube mais nada a no ser da delcia do gozo final.
     Aturdido, adormeceu com o corpo ea mente unidos aos dela.
     O toque do telefone acordou-o cerca de quatro horas depois. Ao seu lado, Serena espreguiou-se, suspirou e resmungou uma reclamao. Passando um brao em volta 
dela, Justin esticou o outro e pegou o telefone.
     - Sim? - Olhando para baixo, viu Serena abrir as plpebras pesadas para fit-lo. Roou o alto da cabea dela com os lbios. - Quando? - Percebendo que ele estava 
tenso ela ergueu-se sobre um cotovelo. - J evacuaram o prdio?... No, vou cuidar disso... Estarei a embaixo em alguns minutos.
     - O que foi?
     Justin j estava em p, indo para o closet.
     - Ameaa de bomba em Las Vegas...
     Ele pegou a primeira coisa que encontrou, uma cala jeans e um pulver de cashmere.
     - Meu Deus! - Serena procurava suas roupas de baixo. - Quando?
     - Telefonaram dizendo que ela explodir s quinze e trinta e cinco, horrio de Vegas, se no entregarmos meio milho de dlares em dinheiro. Isso no nos d 
muito tempo - resmungou vestindo a cala. - Ainda esto evacuando o prdio.
     - Voc no vai pagar!
     Com fria nos grandes olhos azuis, Serena vestiu a combinao. Justin ficou olhando-a em silncio por alguns momentos, depois sorriu, um sorriso frio e cortante 
como uma navalha.
     - No vou pagar.
     Enquanto ele se encaminhava para a sala, Serena o seguiu, terminando de ajeitar o vestido.
     - Estarei l embaixo assim que mudar de roupa.
     - No h nada que voc possa fazer.
     As portas do elevador j se abriam quando ela tocou-lhe o brao.
     - Quero estar com voc.
     Em menos de dez minutos Serena atravessava o saguo de recepo, na direo do escritrio de Justin. Ele ergueu os olhos quando ela entrou, mas fez apenas um 
aceno de cabea enquanto continuava a falar ao telefone.
     Kate estava ao lado dele, as mos juntas, o rosto sempre composto desta vez alterado.
     - Bom dia, srta. MacGregor - disse, sem tirar os olhos de Justin.
     - Pode me contar o que h, por favor?
     - Um maluco qualquer diz que escondeu uma bomba em algum lugar do Vegas Comanche Hotel. Supe-se que ele tenha um controle remoto para deton-la dentro de - 
ela olhou o relgio em seu pulso- , uma hora e quinze minutos. Esto evacuando o prdio, e o esquadro anti-bomba j est examinando o edifcio, mas...
     - Mas? - impacientou-se Serena.
     - Tem idia do tamanho que  o hotel - indagou Kate com voz trmula - , e quo pequena e mortal uma bomba pode ser?
     Sem nada dizer, Serena foi at o bar do outro lado da sala e serviu um pouco de conhaque. Voltou para perto de Kate e lhe entregou o copo.
     - Beba - ordenou.
     Com um estremecimento, Kate tomou o conhaque at terminar.
     - Obrigada. - Apertou os lbios por um instante, depois fitou Serena. - Desculpe quase ter perdido a compostura.
     Meu marido perdeu um brao no Vietn... num campo minado... e isto... - Ela respirou fundo. - Isto trouxe todo o horror de volta.
     - Vamos sentar - convidou Serena, levando-a at o sof. - Nada podemos fazer a no ser esperar.
     - Justin no vai pagar - murmurou Kate.
     - No. - Serena viu surpresa nos olhos negros da moreninha. - Voc acha que ele devia?
     Kate passou a mo nos cabelos.
     - No sou muito objetiva com coisas como esta, mas fitou Serena de frente outra vez - , ele tem muito a perder.
     - Ele perder muito mais do que dinheiro, se pagar.
     Serena foi ficar perto de Justin e colocou por um instante a mo em seu ombro. Enquanto Kate olhava, ele cobriu a mo dela com a sua e apertou-a. O gesto dizia 
mais do que mil palavras.
     Ele a ama, pensou Kate, surpreendida. Jamais vira Justin Blade ser vulnervel a uma mulher. Enquanto estudava o rosto do chefe, a secretria perguntava-se se 
ele saberia disso.
     - A bomba est escondida num dos compartimentos do depsito no poro. - Justin tirou o telefone do ouvido por um momento.
     - Oh, Deus, algum ferido?
     Ele fitou Serena com olhos que no revelavam seus pensamentos.
     - No. Houve estragos no prdio, mas isso  o de menos.
     Ele telefonou para a polcia dizendo que essa pequena bomba  apenas para mostrar que no est blefando. Ele quer o dinheiro at as quinze e trinta e cinco, 
horrio de Vegas.
     Serena colocou a mo no brao dele.
     - O que voc est achando, Justin?
     - Acho esse bandido tranqilo demais para algum que pede meio milho. Estou imaginando atrs do que ele de fato est. Quando ligou para c, ele perguntou por 
mim.
     Serena sentiu um leve mal-estar.
     - Voc  conhecido por muita gente, Justin. Pode ser algum que trabalhou com voc ou que conhece algum que trabalhou.
     - Vamos ter de esperar para ver, no ? - Na voz dele havia algo que Serena conhecia: uma ameaa de violncia e promessa de vingana. Perguntou ao telefone:
     - Quantas pessoas ainda esto no hotel? ... No. Quero saber o momento exato em que no houver mais ningum.
     - Vou pedir caf - disse Serena.
     No - Kate se ps em p - , eu fao isso. Fique aqui com ele.
     Serena olhou o relgio de mesa, de ouro, sobre a escrivaninha.
     Dez e quarenta e inco. Umedecendo os lbios, apoiou-se no encosto da cadeira de Justin e esperou.
     Os olhos dele tambm foram para o relgio. Menos de uma hora, pensou, e nada podia fazer. Como explicar que aquele hotel era mais do que um monte de concreto 
para ele? Fora o primeiro que construra, sua primeira casa depois que os pais haviam morrido. Simbolizava sua indepncia, seu sucesso, sua herana. Agora s podia 
ficar ali, esperando que ele explodisse e desabasse em pedaos.
     Por que havia em seu ntimo a certeza de que aquela ameaa era pessoalmente para ele? Passando a mo pela nuca, Justin decidiu que aquilo no fazia sentido, 
mas o instinto lhe afirmava o contrrio.
     - Pode ser um blefe.
     A voz de Serena soou calma e firme atrs dele. Justin sentiu a onda de frustrao baixar. Ergueu a mo e ela segurou-a, dando a volta na cadeira.
     - Eu no acho.
     Ela apertou a mo de Justin com as suas.
     - Seria errado pagar. Voc est fazendo a coisa certa, Justin.
     Sentou-se no brao da cadeira, e os dois ficaram olhando para o relgio.
     Kate chegou com o caf, que ficou intocado sobre a mesa enquanto eles esperavam. Enquanto os minutos se escoavam, Serena podia sentir a tenso crescendo em 
Justin, que estava sentado, em silncio, com o telefone na mo. Ela tentou imaginar a complexidade da busca de uma bomba num hotel do tamanho do Vegas Comanche. 
Quantas centenas de quartos, closets, armrios e cantos? Imaginou, desanimada, se daria para ouvir a exploso pelo telefone. Quantas outras vezes, perguntou-se, 
o destino de Justin ficara ao capricho da sorte? Dessa vez, concluiu, colocando a mo no ombro dele, o destino teria que derrotar ambos. 
     Como estava olhando para a mo dele em cima da mesa, Serena viu os dedos enrijecerem.
     - Sim?
     Ela mordeu o lbio para se impedir de fazer perguntas e ficou ouvindo Justin falar ao telefone.
     - Sei... No, que eu saiba... Sim, estarei a o mais rpido possvel... Obrigado. - Desligou e voltou-se para Serena. - Encontraram-na.
     - Oh, graas a Deus! - Serena encostou a cabea no ombro dele.
     - Pelo que me disseram, a bomba teria arrasado o cassino e metade do primeiro andar. Kate, reserve um lugar no primeiro vo para Las Vegas.
     - Justin - Serena ficou em p ao lado da cadeira e sentiu os joelhos fracos -, eles tm alguma idia de quem foi?
     - No.
     S ento ele notou a bandeja de caf em sua mesa. Pegou uma das xcaras e bebeu tudo de uma vez.
     - Preciso ir, para orientar as coisas no hotel e conversar com as autoridades. Voltarei em dois dias. - Ergueu-se e segurou-a pelos ombros. - Parece que minha 
scia vai ter um batismo de fogo...
     - Ficarei bem. - Erguendo-se na ponta dos ps, Serena roou os lbios nos dele. - Vou cuidar bem do nosso hotel.
     - Tenho certeza de que vai - afirmou J ustin, puxando- a mais para perto. - Eu no queria deix-la agora.
     - Estarei aqui quando voc voltar. - Serena segurou o rosto dele com ambas as mos. - No se preocupe.
     S pense em voltar logo.
     Justin beijou-a de leve e sugeriu:
     - V dormir um pouco.
     - Oh, no! Este  meu primeiro dia inteiro de trabalho.
     O rosto dele aparentava calma, mas Serena podia sentir a tenso que o atormentava. Em vez das interminveis perguntas que queria fazer, ela apenas sorriu e 
apressou-se para sair.
     - Tenho uma poro de coisas a fazer... Conhecer o hotel, inspecionar a cozinha, ver o arquivo no meu escritrio e levar minhas coisas para a nossa sute.
     O "nossa sute" deixou Justin meio atordoado.
     - Faa isso primeiro - pediu, ento, segurando-lhe as mos de novo. - Quero saber que voc est na minha cama, Serena, e...
     - Seu avio sai em quarenta e cinco minutos, Justin - interrompeu Kate, enfiando a cabea pela porta. Tem de correr se. quiser peg-lo.
     - Mande que um carro fique na porta, a minha espera.
     - Justin... - Com um meio sorriso Serena forcejou para livrar as mos das dele - , voc vai quebrar meus dedos. Havia algo no olhar de Justin que fez sumir 
o sorriso de Serena.
     - O que foi, Justin?
     - Vai dar tudo certo - disse, afinal.
     - Sim...
     Como queria apagar aquela tenso do rosto dele, Serena sorriu de novo. Ento, passou os braos pelo pescoo forte e beijou-o de leve.
     - Seja infeliz longe de mim, por favor!
     - Vou fazer o possvel. Kate tem o nmero do telefone, se precisar falar comigo.
     - Justin, o carro est esperando.
     - Sim, est bem... - Ele deu mais um rpido beijo em Serena. - Pense em mim - ordenou antes de sair. 
     Com um suspiro, Serena sentou-se na cadeira, ainda quente do calor dele.
     - E tenho alguma escolha? - perguntou em voz alta.
     
     
     
    Captulo Nove
     
     
     Durante a semana seguinte Serena mergulhou na rotina do Comanche. Era, decidiu, seu primeiro investimento que no havia sido cuidadosamente escolhido por Daniel, 
e estava disposta a ficar por dentro dele intimamente. No se importava com olhares observadores, palavras sussurradas por trs de si quando inspecionava os locais 
de circulao pblica ou examinava livros de contabilidade e arquivos de computador. J esperava por isso. Passou os dias conhecendo o hotel de alto a baixo, as 
noites no cassino ou em seu escritrio nas atividades de gerente. Os fins de noite e as madrugadas passava sozinha na sute de Justin.
     Durante a semana descobriu duas coisas. Primeiro, o Comanche tinha uma organizao perfeita que agradava as pessoas que dispunham de dinheiro para gastar. Isso 
significava ter o mximo em clientela, porm exigia um preo. Segundo, a ausncia de Justin era quase uma bno. 
     Tinha pouco tempo para sentir sua falta, com todas as coisas que precisava fazer. S de madrugada, quando ficava sozinha na sute, percebia quanto se tornara 
dependente dele. Precisava de sua voz, de seu carinho, da sua presena. Mas, sozinha, tinha oportunidade de provar a si mesma e aos funcionrios que era sria e 
competente na direo do hotel-cassino. E fazia questo disso.
     A experincia anterior lhe servia muito. No decorrer dos anos acostumara-se com o padro dos hotis finos, tornando-se capaz de analisar um cliente e saber 
como ele se comportaria, desde o momento do registro at a sada. No ano anterior o Celebration lhe dera outra perspectiva. Entendia os problemas que martirizavam 
os funcionrios, desde o cansao at o tdio, passando pela falta de roupas de cama e mesa. No primeiro dia j conquistara Kate e Nero. No segundo fora a vez do 
chef da cozinha, do gerente da noite e da chefe dos camareiros e arrumadeiras. Cada uma das conquistas significava uma grande vitria.
     Atrs da escrivaninha de nogueira de seu escritrio, Serena ficou a par da distribuio semanal do trabalho entre os crupis. Diretamente diante dela abria-se 
o painel, oferecendo-lhe a completa viso do cassino. Naqueles momentos saboreava duas sensaes simultneas, de isolamento e de companhia. Uma vez que estava comeando 
a se familiarizar com os padres do cassino, decidiu dedicar duas horas por dia  documentao, sabendo que se precisassem dela a campainha tocaria no aparelho sobre 
sua mesa e uma luz indicaria o lugar do hotel em que estava o problema. Dedicou-se inteiramente ao trabalho, determinada a se ocupar de tal maneira que no seria 
tentada a pegar o telefone e ligar para Justin, em Las Vegas.
     Ele era um homem que precisava ter seu espao, que no fazia nem esperava promessas. Se quisesse mesmo vencer no final, ela sabia que no podia esquecer-se 
disso. Se fosse paciente, chegaria o momento em que ele acharia confortvel am-la.
     Com um pequeno sorriso, sacudiu a cabea. Jamais se sentiria confortvel amando-o. E nem pretendia sentir-se. Massageando a nuca, franziu a testa ao observar 
a escala de trabalho. Ficaria bem menos complicado se contratassem mais um crupi, que funcionaria como curinga. Isso tornaria os horrios mais flexveis e...
     Bateram  porta.
     - Sim, pode entrar...
     Ela no levantou os olhos da tabela. Com um curinga para preencher as folgas, pensou, poderia aliviar mais os turnos.
     Ento, de repente, um mao de violetas caiu sobre o papel diante de seus olhos.
     - Acho que isto vai chamar a sua ateno.
     Com o corao disparado, Serena ergueu a cabea.
     - Justin!
     Num piscar de olhos afastou a cadeira e correu para os braos dele. Quando seus lbios se encontraram, Justin pensou que era a primeira vez que via aquela espontnea 
e irrestrita alegria no rosto de Serena. O cansao do longo vo, a tenso da semana, tudo desapareceu.
     - O que se faz com uma mulher - perguntou - , que  to gostosa de se abraar?
     Rindo, ela inclinou a cabea para trs e preocupou-se ao reparar no rosto dele.
     - Voc parece cansado... - Percorreu com a ponta dos dedos as pequenas linhas nos cantos da boca bem feita.
     - Nunca o vi to abatido. Foi assim to ruim?
     - J passei semanas mais agradveis...
     Virou-a de costas para si e abraou-a, mergulhando o rosto no pescoo dela, como se quisesse sentir seu cheiro.
     Mais tarde, pensou ele, iria contar-lhe sobre o bilhete com letras recortadas de revistas que recebera. Outra ameaa, sem detalhes ou motivos. Apenas a promessa 
de que ainda no terminara.
     - Fiz o que voc pediu - acrescentou Justin, passando a mo na pele que o decote posterior da blusa deixava  mostra.
     - Humm... O qu?
     - Me senti pssimo sem voc.
     Serena no riu como Justin esperava, mas sim, virou-se e passou os braos por seu pescoo. Lutando contra as lgrimas, beijou-o no queixo .
     - Voc no telefonou - murmurou - , esperei que telefonasse. - Surpreendida pelas prprias palavras ela recuou, engolindo as lgrimas. - No, no estou reclamando. 
Sei que voc estava ocupado. - Ergueu as mos, depois deixou-as cair. - E eu tambm estava. Havia um milho de coisas... - Serena remexeu nos papeis em sua mesa. 
- Somos adultos e independentes. A ltima coisa em que podemos pensar  colocar correntes um no outro.
     - Voc fala demais quando est nervosa - comentou Justin.
     Voltando-se, ela fitou-o com fria.
     - No caoe de mim!
     - Engraado eu ter esquecido desse seu olhar assassino - disse ele, aproximando-se.
     Emoldurou o rosto dela com as mos, gentilmente, olhos nos olhos. Serena sentiu a raiva esvair-se, deixando-a fraca e ansiosa.
     - Serena...
     Foi mais um suspiro do que uma palavra, enquanto a boca de Justin encontrava a dela. O terno beijo tornou-se exigente. Era a saudade e o desejo de uma longa 
semana intensificados pelas bocas vidas se procurando, pelas mos que acariciavam com urgncia. Depois de uma breve pausa Justm beijou-a de novo. Mulher alguma, 
pensou confusamente, jamais o fizera sofrer como aquela.
     - Oh Deus como eu a quero, Serena! Quero tanto que no posso pensar em outra coisa se no em estar com. voc.
     Ela pressionou a face contra a dele, mas a movimentao no espelho bi-direcional chamou-lhe a ateno.
     - Pode ser bobagem - admitiu - , mas me sinto... exposta. - Deu uma risada, mas seus olhos permaneciam escuros e apaixonados. - Por que no fecha o painel e 
me ama?
     Uma batida  porta impediu-o de responder. Com longa inspirao, Justin afastou-a um pouco de si, mas continuou a segur-la pelos ombros.
     - Esqueci que lhe trouxe um presente.
     - Mande-os embora- sugeriu Serena - , e me d o presente depois. - Passou os braos no pescoo dele. - Mais tarde...
     Bateram de novo, e uma voz soou l fora.
     - Como , Justin? Voc j teve seus dez minutos!
     - Caine?
     Serena ficou aturdida, e Justin observou a alegria que substituiu o espanto no rosto bonito. Beijando-lhe a ponta do nariz, soltou-a.
     - Por que no deixa Caine entrar?
     Serena correu para a porta e escancarou-a.
     - Caine! Alan! - Rindo, ela se lanou nos braos de um, depois do outro. - O que esto fazendo aqui? - perguntou, depois de beij-los. - O governo estadual 
e federal no vo entrar em colapso?
     - At mesmo os servidores pblicos merecem uns dias de folga de vez em quando - retrucou Caine e estendeu os braos, mantendo a irm longe de si, para admir-la.
     Ele havia mudado to pouco, pensou. Embora ambos os irmos houvessem herdado a estrutura fsica do pai, Caine era mais alto e esguio. Quase magro, pensou Serena, 
com objetividade de irm. No entanto, tinha um rosto fascinante, com traos angulosos e marcantes, um sorriso expressivo e olhos que eram de um azul quase to escuro 
quanto os dela. Os cabelos, loiros com reflexos avermelhados, encaracolavam-se naturalmente ao redor do rosto, loiros com reflexos ruivos. Olhando-o, ela podia facilmente 
entender o porqu de sua elevada reputao como advogado e entre as mulheres.
     - ... Ela at que no ficou muito feia, no , Alan?
     Com as sobrancelhas erguidas ela fitou o irmo mais velho.
     - No... - respondeu ele.
     Alan deu um sorriso discreto que combinava com seu jeito srio. Mais parece com Heathcliff do que com um senador da Repblica, avaliou ela, enquanto ele acrescentava:
     - ...se bem que ainda um tanto magricela. - Segurou-a pelo queixo, fazendo-a virar o rosto para a esquerda e para a direita. -- Menina linda - determinou, numa 
perfeita imitao do modo de falar do pai.
     - Afinal de contas, acho que voc deveria ter se casado com Arlene Judson - disse Serena, docemente. Depois passou um brao pelos ombros de cada irmo. - Como 
estou contente em ver vocs!
     Justin permanecia de p junto  mesa de Serena, admirando-os. Ela parecia muito pequena entre os dois homens altos, e pela primeira vez ele notava a semelhana 
entre Serena e Caine, o formato da boca, do nariz e os olhos. Alan era uma verso maior e masculina de Anna, no entanto os trs no poderiam negar que eram filhos 
de Daniel. Isso estava to claro agora que Justin perguntou-se como no descobrira quem era ela no primeiro instante em que a vira.
     Viu-os felizes, como parte de uma famlia, e pensou em Diana, sentindo uma ponta de remorso. Bem, dera e dava  irm distante tudo que podia dar, lembrou a 
si mesmo. Acontece que at ento no tinha a menor idia do que era viver essa bsica e eterna amizade, nem de que jamais ocuparia no corao de Serena o lugar que 
era da famlia.
     - Quanto tempo vocs vo ficar? - perguntou ela, fazendo-os acomodar-se na sala.
     - S o fim de semana - respondeu Alan.
     Caine fazia um rpido exame do escritrio.
     - Ento, afinal, voc aceitou um scio, opa, desculpe, uma scia no Atlantic City Comanche! - disse ele a Justin. - Ficamos surpresos, depois de voc ter recusado 
papai tantas vezes.
     - Eu fui mais persuasiva - garantiu Serena, calmamente.
     Caine dirigiu a Justin um olhar de quem no faz perguntas apenas porque j sabe as respostas. Mas em seus olhos havia um aviso sutil, porm claro.
     - Vocs ainda no me disseram por que apareceram por aqui deste jeito - observou Serena..
     Foi para o lado de Justin, sentado a sua mesa, enquanto Caine se deixava cair numa poltrona e Alan ia olhar atravs do espelho.
     - Ficamos sabendo da bomba no Vegas Comanche respondeu Alan. - Telefonei para Justin e ele me disse que voc gostaria de uma visita nossa. E - tornou a dar 
um dos raros sorrisos - , Caine e eu pensamos que se vissemos evitaramos o aparecimento de papai aqui por algum tempo.
     - A ltima vez que falei com ele - interferiu Caine - , comentou que gostaria muito de passar uns dias na praia...
     Serena emitiu um som que lembrava o de uma gargalhada contida.
     - Creio que vocs j sabem da ltima proeza dele.
     - Parece que deu timo resultado - afirmou Alan, reparando na mo de Justin no ombro da irm.
     - Fui tentada a quebrar mais do que simples charuto - resmungou Serena, depois olhou para o aparelho em sua mesa, cuja campainha tocara. - Mesa seis. No disse, 
segurando o brao da Justin que j ia erguer-se.
     - Eu cuido disso. Por que os trs no vo para a cobertura e relaxam? Assim que tudo estiver certo aqui embaixo vou me juntar a vocs.
     - Posso jogar aqui, agora que voc  meio dona de tudo? - indagou Caine.
     - Claro, desde que jogue apostando as quantias baixa. que sempre apostou - Serena j estava saindo da sala. Com uma praga abafada, Caine esticou as longas pernas.
     - S porque eu costumo deix-la ganhar de mim no pquer...
     - Costuma deix-la ganhar, coisa nenhuma! - contraps Alan. - Ela  que costuma massacr-lo. Voc no disse muita coisa ao telefone, Justin - continuou, voltando 
as costas para o espelho. - Pode contar o que aconteceu em Vegas?
     Com um sacudir de ombros, Justin tirou um charuto do bolsinho.
     - Era uma bomba de fabricao caseira, muito compacta. Estava no poro, bem debaixo de uma das mesas de bingo. O FBI est fazendo uma lista de ex-empregados, 
de clientes que perderam altas somas, de extorsionrios conhecidos por esse mtodo de ao. No ponho muita f nisso. Houve vrios telefonemas ameaadores, mas no 
conseguiram localizar as chamadas e no reconheci a voz. Eles no tm muito por onde comear. - Enquanto acendia o charuto, por cima do ombro de Alan seu olhar fixava-se 
em Serena no salo, de p, falando com um cliente. -  impossvel rastrear todos que perderam nos meus cassinos, se  que este  o motivo da bomba. 
     - Voc acha que no ? - indagou Caine e segum o olhar de Justin at sua irm.
     -  apenas um palpite. - Justin levantou-se, inquieto.
     - Houve uma ameaa feita h uns dois dias, mas nada de especfIco, apenas o bastante para me demonstrar que haveria algo mais.
     - Nada de onde, quando e como? - insistiu Caine.
     - No. - Justin deu-lhe um sorriso sombrio. - Claro que eu poderia fechar todos os meus hotis - deu uma tragada furiosa no charuto -, mas recuso-me a fazer 
isso.
     Com esforo, controlou a fria impotente. Estava sendo perseguido. Sabia disso como se houvesse visto uma sombra atrs de si.
     - Quero que Serena v para casa at isto ser resolvido - disse, seco. - Por isso pedi que viessem aqui, s vocs dois podero convenc-la.
     Caine respondeu com uma curta risada e Alan fitou Justin por algum tempo.
     - Ela ir - disse Alan - , se voc for com ela.
     - Maldio, Alan! No vou me esconder num buraco enquanto algum brinca com a minha vida!
     - E Serena vai? - rebateu Alan.
     - Ela tem apenas metade da sociedade em um dos meus cinco hotis - argumentou Justin. - Se alguma coisa acontecer com este, o seguro cobrir as perdas. Os olhos 
verdes foram para o espelho atrs dele. - Tenho mais do que este investimento para proteger.
     - Voc  bobo se pensa que isso  tudo que Serena quer - murmurou Alan.
     Justin voltou-se para ele, dando liberdade  raiva que contivera durante uma semana.
     - E o seguinte, tenho um mau pressentimento a respeito disso tudo. Algum quer me pegar, e ela est muito perto, Alan! Quero que Serena fique a salvo, em um 
lugar onde nada possa acontecer-lhe. Creio que podem entender isto. Pelo amor de Deus, ela  irm de vocs!
     - E o que ela  para voc? - indagou Caine, suave.
     Furioso, Justin voltou-se para ele, com mil imprecaes querendo escapar-lhe dos lbios. Fixou os olhos azuis-escuros e to diretos quanto os de Serena.
     - Tudo - respondeu antes de voltar-se de novo para o espelho. - Ela  tudo para mim!
     Naquele momento a porta abriu-se e Serena entrou.
     - Problema resolvido. Eu apenas...
     Sentiu de imediato a tenso que pairava na sala. Devagar, olhou os homens um a um, aproximou-se dos irmos, depois foi para junto de Justin.
     - O que h?
     - Nada. - Esforando-se por manter-se calmo, ele apagou o charuto e pegou-lhe a mo. - J jantou?
     - No, mas...
     Deliberadamente Justin olhou para Alan e Caine.
     - Podemos mandar subir alguma coisa, a no ser que vocs queiram comer no restaurante.
     - Eu acho que vou ao cassino tentar a sorte. - Caine ergueu-se com naturalidade. - Alan pode me acompanhar para impedir que eu perca um ms de salrio. Alguma 
dica, maninha?
     - Tente e perca no quarto caa-nqueis - respondeu ela, rindo.
     - Oh, mulher de pouca f! - citou ele e puxou a orelha da irm. - Vejo voc amanh.
     - Amanh, bem tarde - avisou Alan, enquanto ia para a porta. - No vou conseguir arrancar esse doido das mesas de jogo antes das trs.
     Serena esperou at que a porta se fechasse atrs deles.
     - Justin, o que est acontecendo?
     - Estou cansado. - Ele pegou-a pelo brao. - Vamos subir.
     - Justin, no sou boba. - Seguiram pelo corredor at o elevador particular. - Senti que algo ia explodir aqui dentro quando entrei. Est zangado com Alan e 
Caine?
     - No. E nada tem a ver com voc.
     A fria e indiferente resposta a fez ficar na defensiva.
     - Olhe aqui, no estou querendo me meter na sua vida, mas como parece que meus irmos esto envolvidos, acho que mereo uma explicao.
     Na voz de Serena ele reconheceu mgoa e raiva. Queria entrar logo no elevador, tom-la nos braos e faz-la parar com as perguntas, desfazendo assim sua prpria 
ira e tenso. Mas quando as portas do elevador se abriram ele forou-se a pensar friamente. Podia usar a prpria raiva para conseguir o que queria.
     - No  nada que lhe interesse - afirmou, com indiferena.
     - Por que no pede o jantar enquanto tomo um banho?
     As portas do elevador se abriram e, sem esperar resposta, ele entrou na sute. Espantada demais para reagir, Serena entrou atrs. O que havia acontecido com 
aquele desesperado, tempestuoso, porm completo entendimento que havia entre eles? Por que Justin a tratava como uma estranha? Ou pior, reconheceu ela, como uma 
confortvel amante que se pode pr de lado quando bem entender? De p, no meio da sala, Serena tentava se enfurecer, mas s conseguia ficar mais angustiada. Sabia 
o risco que estava correndo e parecia-lhe estar perdendo o jogo. 
     No. Fechando as mos com fora, sacudiu a cabea.Deixaria que ele tomasse banho e comesse em paz. Ento,iria explicar a Justin o que esperava dele. Obrigou-se 
a ir at o telefone. Precisava manter-se muito calma. Apertouo boto do servio de quarto.
     - Aqui  a srta. MacGregor. Quero um fil e uma salada de alface.
     - Claro, srta. MacGregor. Como quer o fil?
     - Queimado - resmungou ela.
     - Como?
     Dominando-se, ela explicou:
     -  para o sr. BIade. Tenho certeza de que sabem como ele prefere.
     - Claro, srta. MacGregor. Subir j.
     - Obrigada.
     Todo mundo saltava quando se tratava de Justin BIade, pensou amargurada ao desligar o telefone. Foi at o bar e preparou um usque com gelo.
     Quando Justin voltou para a sala Serena estava sentada no sof, enquanto o garom arrumava a mesa para o jantar na mesa de vidro. Ele vestia um robe que se 
abria no peito quando enfiava as mos nos bolsos.
     - Voc no vai comer? - perguntou, ao ver que na mesa havia um s lugar.
     - No. - Ela tomou um gole de usque. - Pode jantar.
     - Abriu a bolsa, pegou uma nota de um dlar e deu ao garom. - Obrigada.
     Assim que o rapaz se retirou, Justin sentou-se  mesa.
     - Pensei que voc ainda no havia jantado.
     - No estou com fome - respondeu ela, simplesmente.
     Justin sacudiu os ombros e comeou a comer a salada, sem sentir o gosto.
     - Pelo visto, no houve grandes problemas aqui desde que fui embora. 
     - Nenhum que eu no pudesse resolver. Alis, tenho algumas sugestes pessoais. Acho que o hotel e o cassino rendem pouco.
     - Voc fez um bom investimento - ele cortou um bocado da carne.
     - Voc pensa assim.
     Serena estendeu um brao sobre o encosto do sof. A blusa com vidrilhos negros cintilou. Fitando-a, Justin nada mais queria a no ser correr para ela, tirar-lhe 
a saia e blusa de seda negra e acariciar de novo a branca pele macia e os cabelos dourados. Espetou um pedao de carne com o garfo.
     - O hotel parece ter atingido o lucro mximo no ltimo ano - disse, tranqilamente. - No  necessrio que nos dediquemos a ele vinte e quatro horas por dia. 
- Incapaz de continuar comendo, serviu-se de caf. -  bom voc ir pensando em voltar para sua casa.
     O copo que Serena levava  boca parou no meio do caminho.
     - Casa? - repetiu, tolamente.
     - No momento no preciso de voc aqui - reforou Justin. - Achei que talvez seja mais prtico que v para casa, ou para qualquer outro lugar que queira, e vir 
quando eu no estiver aqui.
     - Sei... - Cegamente, Serena ps o copo na mesinha de centro e ergueu-se. - No tenho inteno de fazer o
     papel de scia silenciosa, Justin. - A voz dela soava clara e firme, mas ele pde ver que as lgrimas assomavam-lhe aos olhos. - Nem tenho inteno de entrar 
para a categoria de excesso de bagagem.  muito simples voltarmos ao nosso acordo original e esquecer uma noite errada. - Como sentiu que as mos comeavam a tremer, 
ela tomou o restante da bebida. - Vou pegar minhas coisas e ir para minha sute.
     - Droga, Serena! Quero que voc v para casa!
     Vendo que ela lutava bravamente com as lgrimas, Justin sentiu algo quebrar-se em seu ntimo. Para se defender, ergueu-se e aproximou-se dela.
     - No quero que fique aqui.
     Ouviu-a respirar fundo e seu olhar clarear, tornando-se seco e vazio, o que era mil vezes mais terrvel do que v-la chorar.
     - No precisa ser cruel, Justin - murmurou ela. Voc j foi bem claro. Vou para minha sute, mas sou dona da metade deste hotel e vou ficar aqui.
     - Ainda no assinamos o contrato - lembrou-a Justin.
     Ela ficou parada, olhando-o, por um longo momento.
     - Voc est mesmo desesperado para livrar-se de mim... - Serena olhou para o copo vazio em suas mos.
     - Se eu fosse esperta no teria dormido com voc antes de estarmos com o contrato assinado.
     Enraivecido, ele tirou o copo das mos dela e atirou-o contra a parede.
     - No! - Puxando-a para si, escondeu o rosto nos cabelos dela. - No posso fazer deste modo... No posso deixar que pense isso.
     Ainda chocada e ferida, Serena no se mexeu, apenas pediu:
     - Por favor, deixe-me ir.
     - Serena, oua-me, por favor! Oua-me - repetiu ele enquanto a segurava pelos ombros e sacudia. - Antes que eu fosse para Las Vegas recebi uma carta endereada 
a mim, pessoalmente. Quem quer que tenha planejado colocar a bomba l quis que eu soubesse que no havia terminado. Ele ainda pretende me atacar um dia, em algum 
lugar. H mais do que dinheiro envolvido nisso.  pessoal, entende? Voc no est segura a meu lado.
     Ela o fitou enquanto aquelas palavras penetravam a dor.
     - Voc disse aquelas coisas porque acha que ficarei em perigo se permanecer aqui?
     - Queria tir-la disto tudo.
     Reagindo, Serena passou os braos nos ombros dele.
     - Voc no  melhor do que meu pai - acusou, furiosa.
     - Como ele, quer decidir a minha vida com seus planos r esquemas. Sabe o que me fez? - As lgrimas subiram de novo e ela as conteve. - Sabe o quanto me magoou?
     No pensou, em nenhum momento, em me dizer a verdade?
     - Eu j disse - retrucou ele, em batalha com a irritao e o desejo. - Voc vai embora?
     - No.
     - Serena, pelo amor de Deus...
     - Espera que eu faa minhas malas e saia correndo? - ela interrompeu-o. - Que me esconda porque algum pode plantar uma bomba no hotel, um dia? Por que no 
me diz para arranjar uma torre de marfim em algum lugar e ir morar nela? Droga, Justin! Estou nisto tanto quanto voc.
     - O hotel est completamente coberto pelo seguro, e se algo acontecer voc no vai perder seu investimento.
     Ela fechou os olhos e suspirou.
     - Seu idiota!
     - Serena, seja razovel.
     Quando os olhos azuis se abriram a fria brilhava de novo neles.
     - E voc est sendo razovel, por acaso?
     - S sei que eu a amo! - Ele sacudiu-a de novo. - Sei que voc significa para mim mais do que tudo na vida e no vou me arriscar a perd-la!
     - Ento, como pode me dizer que v embora? - gritou ela de volta. - Quem se ama fica junto.
     Olharam-se, cada qual percebendo o que havia dito. O aperto das mos de Justin se suavizou nos ombros dela, depois ele a soltou.
     - Faa isso por mim, Serena.
     - Qualquer outra coisa que me pea, mas isso no.
     Ele voltou-lhe as costas e foi para a janela. L fora o sol estava mergulhando no mar. Traos de fogo, nuvens douradas... Igual a mulher atrs dele.
     - Eu jamais amei algum - murmurou Justin. - Meus pais, minha Irm, talvez, mas eles saram da minha vida h muito tempo e consegui sobreviver sozinho. Mas 
acho que no sobreviverei sem voc. Apenas o pensamento de que qualquer coisa pode lhe acontecer me aterroriza.
     - Justin... - Serena se aproximou, abraou-o por trs e ,apoiou o rosto nas costas dele. - Voc sabe que no h garantias, apenas probabilidades.
     - Joguei com probabilidades a minha vida inteira mas com voc no quero isso. 
     - Eu tambm fao minhas escolhas - lembrou-o - Voc no pode mudar este fato. No posso deixar voc. Diga-me de novo - pediu ela, antes que Justin pudesse falar 
- , e desta vez no grite. Sou to suscetvel ao amor quanto voc...
     Quando ele se voltou de frente para ela, Justin traou o desenho dos lbios queridos com a ponta do dedo.
     - Eu sempre achei que "amo voc" era to vulgar... at agora! - Substituiu o dedo pelos lbios, sempre com um roar gentil. - Eu amo voc, Serena.
     Ela suspirou quando sentiu a blusa deslizar-lhe pelos ombros.
     - Justin - murmurou quando ele a ergueu nos braos.
     - Hum?
     - No vamos contar ao meu pai! Detesto quando ele se diverte com a desgraa alheia.
     Rindo, ele a levou para a cama.
     Ia fazer amor com ela gentilmente. Parecia-lhe o certo depois de ter visto tanta dor nos olhos dela. Serena era preciosa para ele, vital para sua vida, uma 
parte permanente de seus pensamentos. Macia, clida, apertou-a contra si. Queria fazer um amor gentil, mas ela o deixava louco.
     As pequenas mos j o estavam livrando do robe e passeando por seu corpo. Os lbios de Serena j lhe tocavam o rosto, mordiscando-lhe os lbios, brincando, 
atormentando, pedindo...
     Justin praguejou enquanto tentava tirar-lhe a saia, e a risada rouca o fez perder a cabea. Talvez at a machucasse, pois no conseguia controlar as mos que 
estavam ansiosas por acariciar e apertar. Ela apenas arqueou-se sob ele, com abandono, enquanto o sangue rugia nos ouvidos de Justin que, sem perceber, falou na 
lngua de seus ancestrais, ameaas, promessas, palavras de amor e de guerra que j no sabia diferenciar.
     Serena ouviu as speras palavras, ao mesmo tempo primitivas e erticas, que ele pronunciava contra sua pele. Agora nada mais havia em Justin do sofisticado 
e elegante jogador, mas apenas um homem alucinado pela paixo. E ele era dela, pensou selvagemente enquanto as mos msculas a tocavam deliciosamente. Sentiu o odor 
almiscarado do homem, um cheiro que as melhores colnias no diluam, e escondeu o rosto no ombro dele, querendo absorv-lo todo. Mas o desejo no permitia que ficasse 
inativa. Quente, vida, a boca de Justin procurou a de Serena exigindo no rendimento, mas sim agresso. Me deseje!, ele parecia dizer. Precise de mim! E ela respondeu 
com uma torrente de carcias apaixonadas.
     Serena pensava que Justin j lhe havia mostrado tudo que havia para conhecer na primeira noite de amor. Como era possvel ainda haver tantas delcias e segredos? 
Ele parecia ser um poo sem fundo de energia e desejo. Beijou-a, lambeu-a entre as pernas, e uma poro de violentas exploses irromperam no corpo de Serena. As 
imagens juvenis que criara de como fazer amor, palavras ternas, toques suaves, empalideciam, insignificantes, diante do que os dois faziam e sentiam. E era exatamente 
por aquilo que ela ansiava: tempestade e fria.
     Com os lbios desesperadamente unidos, eles se tornaram um s ser, uma insacivel e nica forma.
     Com os olhos ainda fechados, Serena espreguiou-se languidamente.
     - Oh, Deus, como me sinto bem!
     At mesmo aos seus ouvidos a prpria voz parecia o ronronar de uma gata satisfeita.
     - Eu tambm - concordou Justin e acariciou as curvas acentuadas do corpo de Serena.
     Com uma risada, ela se levantou, esticando os braos acima da cabea. Na meia luz do amanhecer ele viu os cabelos de ouro cascatearem pelas costas nuas quando 
o corpo dela se arqueou.
     - Quer saber, Justin? Estou morrendo de fome.
     - Voc disse que no estava com fome - lembrou ele.
     Levantando-se tambm, passou um brao pela cintura dela e a fez cair de novo na cama.
     - No estava. - Serena rolou para cima dele. - Agora estou. Depois de cobrir-lhe o rosto de beijos, mordeu o lbio dele. - Estou faminta!
     - Pode comer o resto do meu fil.
     - Est frio - ops ela. Comeou a rir e o riso abafou-se quando mordeu o pescoo msculo. - No pode pensar em mais nada?
     - Admiro sua disposio. - Ele beijou-a, alisou-lhe os cabelos e a fez aninhar a cabea em seu ombro. - Quer que eu chame o servio de quarto?
     Serena deu um longo e profundo suspiro.
     - Daqui a pouco. Eu amo voc, Justin.
     Ele fechou os olhos e rodeou-a com os braos, apertando-a contra si.
     - Eu estava imaginando quando voc iria me dizer isso.
     - Eu no disse? - Sorrindo, Serena apertou-se contra peito dele. - Como?! Eu o amo - comeou, pontuando as palavras com beijos. - Eu adoro voc. Estou fascinada 
por voc. Eu desejo voc..
     - Para comear, acho que est bom. - Pegou a mo dela e beijou todos os dedos, devagar. - Serena...
     - No. - Rpida, ela colocou a mo sobre os lbios dele. - No me pea de novo. No vou para lugar algum e no quero brigar com voc, Justin. No agora. - Encostou 
a face na dele - Parece que a minha vida inteira esperei para me sentir assim. Este momento no  mais do que um preldio. Pode parecer loucura, mas acho que eu 
sabia que tudo ia mudar na minha vida desde o minuto em que ergui a cabea e vi voc. - Ela riu de novo, feliz. - E pensar que eu estava muito intelectualizada naquela 
noite para acreditar em amor  primeira vista...
     - Seu intelecto fez as coisas demorarem um bocado para acontecer - afIrmou Justin.
     - Ao contrrio. - Serena deu um sorriso altivo. Foi o que fez as coisas acontecerem direitinho. Cheguei aqui com a idia de ser sua scia para que tivssemos 
tudo em partes iguais quando eu o convencesse de que no poderia viver sem mim.
     - Foi, mesmo?
     Ela riu.
     - E funcionou.
     - Voc  uma grande convencida, Serena!
     Dando-lhe um leve puxo de cabelos, Justin saiu da cama.
     - Comprei isto para voc em St. Thomas.
     - Um presente? - Ela se ajoelhou e estendeu a mo.
     - Adoro presentes.
     - Pequena feiticeira interesseira! - Ele colocou a caixinha na mo estendida.
     O riso de Serena silenciou quando a abriu. Dois pequenos brincos em forma de cata-vento, cravejados de ametistas e brilhantes, cintilaram  luminosidade do 
amanhecer. Ela lembrou-se de como os havia admirado ao v-los  luz do sol, na vitrina da joalheria. Hesitante, tocou-os com a ponta do dedo como se temesse que 
fossem uma iluso e sumissem.
     - Justin, so fabulosos! - murmurou, erguendo os olhos para ele. - Mas, por qu?
     - Porque combinam com voc, que no quis compr-los... E porque - passou a mo pelo rosto dela - , eu j havia decidido naquele momento no deixar que sasse 
da minha vida. Se voc no tivesse vindo, eu iria busc-la e a traria para c.
     - Mesmo que eu no quisesse? - Serena comeou a sorrir.
     - Avisei-a que essa  uma velha tradio da minha famlia. - Ele empurrou-lhe os cabelos para trs das orelhas. - Ponha-os. Quero ver se ficam como os imaginei 
em voc.
     Serena pegou os brincos e colocou-os no delicado lbulo das orelhas. Ainda ajoelhado na cama, Justin tornou a pr os cabelos dela para trs.
     - Quero ver...
     E no foi apenas um olhar.
     A pele de Serena era suave, cor de marfim. Os cabelos, quando ele os soltou, desceram em ondas selvagens. Usando nada mais do que o cintilar dos brilhantes 
e o refulgir arroxeado das ametistas, como seus olhos, ela parecia uma extica criao de sua fantasia. O desejo que flamejou nos olhos de Justin contagiou-a.
     Com um emocionado sorriso nos lbios, Serena abriu os braos para Justin.
     
     
     
    Captulo Dez
    
    
     Espreguiando-se com luxria, Serena pensou em levantar. Se Justin j no houvesse ido l para baixo a idia de ficar na cama seria mais atraente. Ficou envolta 
nos lenis de seda, bem no lugar em que haviam dormido abraados.
     Sabia que ele ainda estava preocupado. Apesar de ele no haver murmurado mais do que palavras doces ao seu ouvido antes de descer, ela sentira sua tenso controlada. 
Uma vez que Justin estava convencido de que a bomba plantada no Vegas Comanche era dirigida a ele e um preldio de mais atentados, no havia nada que ela pudesse 
fazer para acalm-lo. Podia apenas permanecer a seu lado, tentando convenc-lo que ela no corria perigo, que podia tomar conta de si.
     Homens, pensou com um sorriso. No importava quanto fossem liberais, eles simplesmente no podiam aceitar o fato de que as mulheres podiam cuidar de si mesmas. 
A ltima coisa que ela iria fazer era ficar sentada em Massachusetts enquanto o homem que amava estava em Nova Jersey. No era lgico, disse a si mesma enquanto 
saa da cama. Acreditava no que havia dito a ele na noite anterior: pessoas que se amam ficam juntas.
     Justin no se acalmaria enquanto a polcia no pegasse quem plantara a bomba no hotel, e isso poderia levar meses, se  que ele seria apanhado. O autor do 
atentado poderia desistir, ao ver seus planos arruinados, ou esperar dias, semanas, meses, antes de atacar de novo.
     Pegando um robe do closet, considerou essa possibilidade, depois afastou a preocupao. Quer o prendessem ou no, Serena no compartilhava a opinio de Justin 
de que o homem tentaria de novo. Provavelmente mandara a carta por frustrao ao ver que falhara seu plano de extorquir dinheiro. Isso fazia mais sentido do que 
algum querendo atingi-lo por motivos pessoais.
     Ele no estava sendo objetivo, decidiu enquanto amarrava o cinto. Aqueles hotis faziam parte de sua vida de tal maneira que no conseguia v-los como os demais 
os viam: edifcios que haviam custado um monte de dinheiro. O homem apostara e perdera. Ele devia saber que as autoridades estavam investigando e que Justin tomaria 
providncias para sua. maior segurana. Quem planta bombas  covarde, disse a si mesma, e um covarde no se arrisca a ser pego. Com o tempo Justin reconheceria essa 
lgica.
     Quando ouviu as batidas  porta Serena automaticamente olhou para o relgio de cabeceira. Cedo demais para a arrumadeira, pensou, indo para a sala. Quem poderia 
ser? Colocou a mo na maaneta, e as palavras de Justin, da noite anterior, ecoaram em sua mente. Voc no est segura a meu lado.
     Subitamente inquieta, espiou pelo olho mgico. Em seguida disse a si mesma que aquilo era uma bobagem, abriu a porta e sorriu para o irmo.
     - Voc deve ter perdido depressa ontem, se j est de p to cedo - comentou.
     Caine fitou-a por instantes, antes de entrar.
     - No  assim to cedo - ele olhou ao redor. - Vim falar com Justin.
     - Ele acabou de sair. - Serena fechou a porta e ajeitou os cabelos despenteados para trs. - Foi para o escritrio h uns quinze minutos. E Alan?
     A afeio de Caine por Justin oscilava porque Serena era sua irm. Sua irm caula, pensou, e estava na sute
     dele vestida apenas com o robe de seda que lhe dera no Natal anterior.
     - Est tomando caf - respondeu Caine andando pela sala.
     - Bem, voc sempre foi o primeiro  se levantar de manh - lembrou Serena. - E eu sempre achei esse seu hbito de mau gosto. Aceita um caf?  uma das poucas 
coisas essenciais que temos na cozinha.
     - Sim, aceito.
     Ainda tentando lidar com o choque que tivera ao se conscientizar de que sua irm no era apenas sua irm, Caine a seguiu.
     A cozinha espaosa surpreendeu-o; paredes e piso brancos, armrios, fogo em preto-fosco, pia em mrmore branco veiado de preto. Serena colocou a cafeteira 
em cima do balco e convidou o irmo:
     - Sente-se.
     - Voc parece estar bem  vontade aqui - Caine no pde impedir-se de dizer.
     Ela lanou-lhe um olhar entre zangado e divertido.
     - Eu moro aqui.
     Aborrecido, ele sentou-se num dos bancos altos.
     - No h dvida de que Justin age rpido.
     - Eis uma observao chauvinista demais para o liberal promotor pblico - comentou Serena, medindo o p de caf. - De outro ponto de vista pode-se dizer que 
eu agi rpido.
     - Vocs se conheceram no ms passado.
     Serena sacudiu a cabea e foi pegar as xcaras.
     - Caine, lembra-se de Luke Dennison?
     - Quem?
     - Ele tinha acabado de entrar na faculdade e eu tinha quinze anos. Voc o encurralou num canto do estacionamento do cinema e lhe disse que se pusesse as mos 
em mim quebraria todos os ossos dele!
     Viu um sorriso iluminar o rosto de Caine quando ele se lembrou.
     - E ele nunca ps, no ?
     - Nunca... - Serena foi at o irmo e segurou-lhe as duas. orelhas. - J no tenho quinze anos, Caine, e Justin no  Luke Dennison.
     Inclinando-se, ele tambm segurou as orelhas dela, puxando-a mais para si.
     - Eu amo voc - beijou-lhe a face rapidamente.
     - Ento, fique contente por mim. Justin  tudo que eu quero.
     Soltando-a, Caine ajeitou-se no banco.
     - Ele disse a mesma coisa de voc.
     Viu a alegria iluminar os olhos da irm.
     - Quando?
     - Ontem, quando pediu a mim e a Alan para convenc-la a ir para casa por algum tempo. - Caine ergueu a mo quando a alegria se transformou em ira. - No salte 
na minha jugular, Rena! Ns dois nos recusamos. Serena suspirou, aliviada.
     - Justin acha que quem plantou aquela bomba tem algum outro motivo alm de simples extorso. Por isso enfiou na cabea a idia de que no estarei em segurana 
se ficar aqui. - Ela fez um gesto de desalento com as mos. - Simplesmente, ele no consegue ser lgico ou prtico a esse respeito.
     - Ele a ama.
     A tempestade que se formava dentro de Serena desfez-se no mesmo instante.
     - Eu sei. Mais uma razo para eu ficar ao lado dele. Diga-me - ela inclinou-se sobre o balco para aproximar-se mais dele - , o que voc faria?
     - Se eu fosse Justin faria tudo para voc ir embora. Se eu fosse voc - continuou antes que a irm comeasse a gritar - , no me mexeria daqui.
     - Nada pior do que a mentalidade legal, analtica- murmurou Serena enquanto o caf coava. - Por que no me conta algo sobre voc? Algumas fascinantes mulheres 
na sua vida... Ou seu estilo  apenas trabalhar?
     - Consigo reservar um tempo para recreao - e mereceu um sorriso da irm que se voltou para servir o caf. - Decidi voltar para a advocacia particular.
     - Verdade? - Surpreendida, ela o fitou. - No  uma deciso muito sbita?
     - Na verdade, no. - Ele pegou a xcara. - Venho pensando no assunto h algum tempo. Alan  poltico, tem pacincia para ser. - Sacudiu os ombros e tomou um 
pouco de caf. - Sinto falta do tribunal, de julgamentos, e a burocracia no me d tempo para isso.
     - Sempre adorei ver voc no tribunal. - Serena sentou-se num banco do outro lado do balco. - Havia algo ameaador em seu estilo, como um lobo rodeando uma 
fogueira e perdendo a pacincia.
     Caine riu.
     - Eis a voadora imaginao dos MacGregor em ao de novo!
     - Esto entoando louvores ao nome da famlia? Perguntou Alan da porta da cozinha.
     Serena voltou-se para ele com um sorriso acolhedor. Sua expresso alterou-se sutilmente ao ver o homem ao lado do irmo.
     - Alan queixou-se de que foi abandonado - comentou Justin. - Esse caf d para mais dois?
     - D e acabei de faz-lo.
     Ela estendeu-lhe a mo, Justin pegou-a e beijou-a antes de se dirigir para a cafeteira.
     - Alan, voc quer?
     - Sim, obrigado - respondeu ele, olhando para a irm.
     - Caine no me disse quanto perdeu ontem  noite - observou Serena, enquanto Alan se encostava no balco.
     - Oh, at que a sorte dele estava boa...
     Alan lanou um olhar intencional para Caine, que o retribuiu calmamente.
     Serena ergueu as sobrancelhas e avisou Caine:
     -  melhor voc no ter tentando sua sorte com alguma das minhas crupis.
     - A loirinha de olhos castanhos - Alan riu.
     - Caine! - Serena olhou-o com espanto e divertimento.
     - Ela mal completou vinte e um anos...
     - No sei do que ele est falando. - Calmo, Caine tomou seu caf. - Alan estava ocupado, tentando impressionar
     uma ruiva com seus pontos de vista sobre poltica estrangeira.
     - Bem - Serena voltou-se para Justin que saboreava o caf - , parece-me que nem as funcionrias e nem as clientes esto a salvo se deixarmos estes dois soltos 
por a.
     - Voc pode manter o olho neles hoje  noite, durante o show do jantar.
     Justin deu uma xcara para Alan antes de abrir a geladeira em busca de leite.
     - Eu devia ter avisado vocs.
     Serena voltou-se para os irmos enquanto entrelaava os dedos nos de Justin.
     - Ele tem o hbito de organizar coisas sem perguntar nada a ningum - acrescentou, rindo. - Mas desta vez,
     pelo menos, vou gostar do show do jantar.  a estria de Lena Maxwell. Creio que Justin pode ser persuadido a apresent-la a vocs se jantarem conosco.
     - A que horas  o jantar? - Caine e Alan perguntaram ao mesmo tempo.
     Rindo, Serena se ps de p.
     - Pobrezinhos! Balance uma moreninha sexy diante do nariz deles e iro onde voc os quiser levar. Vou tomar um banho e me vestir. - Ficou na ponta dos ps e 
roou a boca na de Justin. - Estarei l embaixo em meia hora.
     Enquanto ela ia para o quarto ouviu Caine perguntar:
     - Onde Lena Maxwell vai ensaiar hoje  tarde, Justin?
     Durante o banho Serena apanhou-se rindo. Se Caine enfiasse na cabea de encontrar Lena Maxwell no precisaria da apresentao de Justin para engrenar uma encantadora 
conversa com ela. Caine MacGregor tinha, mais do que beleza para encantar as pessoas.
     Pensou na reao dele ao encontr-la na sute de Justin Fora mais por carinho, decidiu. Notara tambm o longo olhar que Alan lhe dera ao entrar na cozinha com 
Justin. Assim que seus irmos ficassem a ss, teve certeza, iriam falar sobre seu relacionamento com Justin, provavelmente discutiriam a respeito e ento lhe dariam 
seu aprecivel apoio. Sempre fora assim entre os trs.
     Por um instante, com a gua quente correndo sobre o corpo, Serena sentiu uma onda de piedade por Justin. Ele jamais conhecera de fato a segurana, o vnculo 
nem a frustrao dos laos familiares. Talvez com o tempo ela pudesse lhe mostrar. Quem sabe no dia em que tivessem filhos.
     Deliberadamente, ps a cabea sob a gua. Estava indo longe demais. Ele a amava, mas isso no queria dizer que estivesse pensando em casamento e filhos. Justin 
fora um solitrio por tanto tempo e o amor deles era to novo! Filhos significavam lar, e ele jamais quisera ter um. Escolhera um tipo de vida sem permanncia. E 
o nmade que existia nele havia sido, e era, parte da atrao que exercera sobre ela. Era loucura ficar sonhando com mudanas quando mal tinham vivido quarenta e 
oito horas sob o mesmo teto.
     No entanto, ele falara na irm duas vezes, e em ambas Serena percebera uma ponta de tristeza. Justin no voltara as costas para sua famlia, mas sim, havia 
sido forado pela circunstncias a viver sem ela. Se um dia ele quisesse uma, prometeu Serena a si mesma, ela estaria ali para isso.
     Saiu do chuveiro, enxugou-se, envolveu a cabea com uma toalha e, cantarolando, passou creme hidratante no corpo. Brevemente, revisou o que deveria fazer naquele 
dia e concluiu que estaria com tudo pronto at o momento de se arrumar para o jantar. Mas no se ficasse cismando no banheiro o dia inteiro, lembrou a si mesma, 
vestindo o roupo. Quando voltava para o quarto, retirando a toalha da cabea, a porta que dava para a sala abriu-se.
     - Justin! Voc me deu um susto! Pensei que tivesse ido l para baixo.
     Enfiando as mos nos bolsos, ele a olhou lentamente, dos ps  cabea.
     - No...
     Por que ser, pensou Serena, que quando ele me olha desse jeito faz meus joelhos se tornarem de gelia?
     - Alan e Caine? - perguntou para disfarar a perturbao.
     - Desceram para competir por Lena, eu acho.
     - Detesto perder essa cena! - Ela dirigiu-se para o closet.
     - O que vai fazer?
     - Vestir-me. - Ela riu. - O que acha que vou fazer?
     - Acho que seria uma perda de tempo vestir-se, desde que vou tirar tudo em seguida.
     Ela lanou-lhe um olhar por cima do ombro.
     - De qualquer modo, creio que Kate ficaria surpresa se eu fosse para meu escritrio de roupo.
     Ele sorriu, insinuante.
     - Acontece que voc no vai sair deste quarto.
     - Justin, no seja ridculo. - Com outra risada, Serena comeou a pegar as roupas. - Tenho uma poro de coisas para fazer antes do jantar e...
     As demais palavras ficaram presas em sua garganta, e todo o ar saiu-lhe dos pulmes quando foi jogada de costas na cama.
     De p, ao lado, ele assentiu.
     - gosto de voc numa cama desarrumada.
     - E mesmo? - Serena ajoelhou-se. - E eu gostaria de saber de onde voc tirou a idia de me jogar desse jeito. - Quando ela ps as mos na cintura o roupo escorregou 
num ombro. Lembrou-se daquele dia, no mar,
     - No  a primeira vez, mas se pensa que pode fazer disso um hbito...
     - Eu sei. Ningum empurra um MacGregor - murmurou ele, enfiando o indicador no V do roupo.
     - Isso mesmo. - Ela afastou a mo dele e tirou os cabelos da testa. - Lembre-se disso na prxima vez que sentir um impulso incontrolvel de me empurrar.
     - Vou me lembrar. Desculpe...
     Com um sorriso contrito, ele retirou a mo. Serena ia sair da cama quando, de sbito, viu-se deitada de costas, com ele por cima.
     - Justin! - Lutando contra o riso, empurrou-o. - Quer parar? Preciso me vestir.
     - Oh, ela tem que se vestir! Ento, vou ajudar.
     Com um gesto rpido, ele abriu completamente o roupo.
     - Pare! - Divertida, sem jeito e excitada, ela lutou contra ele. - Justin, no estou brincando! A arrumadeira pode entrar a qualquer instante.
     - Ela s vir  tarde. - Ele encontrou uma pequena pinta na curva da cintura delgada e beijou-a, fazendo Serena gemer. - Avisei a chefe dela.
     - Voc... - Com energia renovada, ela tentou libertar-se. - Voc fez de novo! - Conseguiu livrar os braos, porm ele prendeu-os outra vez, segurando-lhe os 
pulsos acima da cabea. - No lhe ocorreu que posso ter outros planos? Que talvez eu no queira passar a tarde na cama com voc?
     - Acho que tenho boas chances de persuadi-la - brincou ele.
     - Oh! - As pernas deles se entrelaaram quando ela se debateu, tentando escapar.
     - Est bem, ento vamos ficar aqui lutando at as cinco horas. .
     - No tem graa, Justin! - Ela engoliu o riso. Estou falando a srio.
     - Muito a srio! - Ele rolou o corpo de modo que Serena ficasse por cima. - Agora  a sua vez... - Antes que ela piscasse estava embaixo dele de novo - , e 
agora  a minha.
     - Claro! - Serena afastou os cabelos dos olhos. Bonita esta luta em que estou quase nua e voc inteiramente vestido.
     - Tem razo. - Ele cobriu-lhe o rosto com pequenos beijos. - Por que no toma alguma providncia? Minhas mos esto ocupadas.
     Ela no pde conter o profundo gemido quando Justin passou as mos ao longo de seu corpo.
     - Seu louco... - disse, ofegante. - Justin...
     - Paro? - perguntou ele ansioso, o olhar atento no rosto dela, as mos acariciando.
     - No.
     Enfiando os dedos nos cabelos dele, ela o beijou.
     Era sempre a mesma coisa e sempre nica. Cada vez que seus lbios se encontravam, Serena sentia aquele enervante choque de calor, seus ossos pareciam diluir-se 
e seu corpo se transformava mima espcie de massa de sensibilidade, respondendo ao dele com vibrao, como se tudo estivesse acontecendo pela primeira vez. Esquecendo-se 
que ele -lhe pedira que o despisse, Serena entregou-se  primeira e mansa onda de prazer.
     Justin sentiu que ela se rendia, uma rendio que sabia ser apenas o preldio de uma excitao alucinada e de frentica exigncia. Regozijou-se com o breve 
instante de controle total. Ela era uma mulher forte e voluntariosa, que se encontrava nas mos dele. Saber disso o tornou gentil, e ele acariciou-a com uma ternura 
da qual nunca se imaginara capaz. Ser que o amor fazia tanta diferena?, perguntou-se enquanto deslizava os longos dedos na macia pele de marfim.
     Seus lbios tocaram os dela, fazendo-a emitir um leve som de prazer. Os olhos de Serena, entreabertos, encontraram os dele. Quando Justin seguiu o desenho dos 
lbios dela com a ponta da lngua, as plpebras tremeram. Roou-lhe de leve a boca com a sua, saboreando-a, e s ento percebeu que suas mos haviam parado, apertando-a 
contra si. Todo o seu empenho estava em fazer suas bocas se unirem, e o poder que sentira pouco antes tornou-se tambm submisso, a mesma de Serena. Sentiu-se fraco 
diante dela, mas no teve medo.
     - Eu te amo - murmurou contra os lbios dela. Nem sei quanto te amo.
     O beijo foi profundo, suave e mais excitante que todos os que provara.
     Ento, a lngua dela passou entre seus lbios e tocou a dele para no perder a mnima sensao. Um arrepio percorreu o corpo de Justin, fazendo-o compreender 
que agora o poder estava com ela.
     Serena deslizou o finssimo pulver de l acima da cabea dele, o que fez com que suas bocas se separassem, mas apenas por segundos. Com movimentos rpidos, 
ele livrou-se da roupa, e as mos dela tornaram-se exigentes, tocando, roando. Ele podia v-la na mente, esguia e branca sobre sua pele morena, as longas unhas 
arranhando-o de leve. Desceu a boca para uni mamilo e foi surpreendido pelo odor dela, que o fez pensar em mornas noites de vero, em amores selvagens sobre o solo 
coberto por um verde tapete de grama. Com beijos cada vez mais ansiosos cobriu-lhe a parte interna do brao, e quando lambeu a pele suave, veiada de azul, a paixo 
fez o corpo esguio arquear-se.
     Serena rolou de modo a ficarem ambos de lado, frente a frente, e abraou-o. No sentiu o farfalhar dos lenis de cetim sob o corpo, j que o roupo escorregara 
at abaixo de suas pernas. Tudo que sentia era a estrutura forte, rija, e a umidade quente da boca dele em sua pele. - Quando Justin deslizou para baixo ela ofereceu-lhe 
todos os lugares secretos que ele havia descoberto na noite anterior. Nenhum outro homem despertaria nela o trrido, incontrolvel desejo que a consumia e ao mesmo 
tempo a tornava forte. Com um movimento sbito, acompanhado por Justin, ela se encontrou de novo em cima dele, a boca gulosa, as mos rpidas, espertas. Ele gemeu, 
enfiando os dedos nos cabelos loiros, ainda midos, fazendo-a movimentar-se com maior urgncia. Justin era lindo, to lindo!, foi tudo que ela pde pensar enquanto 
o acariciava e lambia.
     Uma leve camada de suor cobria a pele morena. Serena podia sentir-lhe o gosto salgado, enquanto passava a boca pelo peito forte, sentindo as depresses das 
costelas e a pele marcada pela cicatriz, at chegar ao ventre liso e firme.
     Ento, as mos dele a seguraram e a fizeram subir at sua boca tocar a dele. E Serena sentiu seus gostos misturados de um modo que fez sua cabea girar. O corpo 
dela passou a agir como se tivesse vida prpria, deslizando at que o sexo de Justin a penetrou. A sensao violenta a fez gritar e arquear as costas, fremente. 
Mas ele puxou-a para si e enterrou as mos em seus cabelos boca contra boca, no momento em que fundiu-se com ela.
     Serena mal podia respirar, mas enquanto lutava pelo ar, seu corpo continuava a mover-se, no mesmo ritmo que o dele.
     Os braos dela o rodeavam, os dele a rodeavam. O abrao mtuo apertou-se convulsivamente quando chegaram ao auge do gozo. Minutos depois jaziam imveis na cama, 
como uma s pessoa, com a respirao ofegante.
     - No posso ter voc o bastante... - Justin suspirou.
     - Nunca terei...
     - Nunca - Serena ergueu um pouco a cabea do ombro dele - , nunca tenha o bastante de mim, sempre queira mais.
     Ficaram ali, parados, at sua respirao se acalmar e arrepios cessarem de percorrer-lhe os corpos saciados. Com a palma da mo no peito dele, ela sentia o 
bater do corao tornar-se mais lento, forte e firme.
     - S h voc - disse Justin, orgulhoso do amor que sentia. - S existe voc para mim.
     Serena ergueu de novo a cabea para fita-lo.
     - Amor que no tenha loucura no  amor. - Sorrindo, passou a mo pelo rosto dele. - At agora eu no sabia disso e s sei que no quero sarar desta loucura.
     Ele levou a mo dela aos lbios.
     - Quer dizer que a intelectual Serena MacGregor quer ser louca?
     Franzindo o nariz, ela dobrou os cotovelos sobre o peito dele e encarou-o.
     - No tem que misturar meu intelecto nisto.
     -  o que me fascina - riu Justin. - E  um lado seu que ainda no conheo. At que ponto voc  inteligente?
     Ela ergueu uma sobrancelha.
     - Bem, esta  uma pergunta abstrata.
     - E tambm sabe ser evasiva! - Rindo, ele empurrou os cabelos dela para trs dos ombros. - Quantos diplomas voc tem?
     - A pergunta anterior nada tem a ver com esta. E voc, quanto  inteligente, Justin?
     - Sou inteligente o bastante para perceber quando estou apaixonado de verdade por algum... Ento, no est louca para dedicar-se  poltica ou  advocacia, 
como seus irmos?
     - No. Primeiro, eu estava louca para aprender, depois, louca para ser, existir, viver. Agora - ela mordeu o lbio inferior - , estou louca pelo homem mais 
maravilhoso do mundo.
     - Hum! - Ele a beijou longamente. - No acha que dirigir um hotel-cassino  desperdiar tudo que aprendeu?
     - Claro que no. O que aprendi servir para alguma coisa e sempre escolhi o que preferia fazer. De que adianta ter diplomas se a gente no aproveita a vida? 
- Com um suspiro, ela se deixou cair sobre o peito dele outra vez. - Eu no estudei para ter uma poro de diplomas pendurados na parede, mas sim, porque queria 
aprender, era curiosa. Por que voc tem e dirige hotis?
     - Porque sou bom nisso.
     Serena riu.
     - E  esta a razo pela qual me tornei uma estudante profissional. Mas comeou a ficar repetitivo e fcil. No mundo h muitos desafios e constante variedade 
de pessoas. Alm disso - acrescentou com ar maroto - , tambm sou boa nisso.
     - Nero acha que voc tem classe.
     O sorriso de Serena tornou-se to maroto quanto sua voz.
     - Ele  muito perspicaz... Por que no o colocou no cargo de gerente?
     - Nero no se interessou. - Justin desceu a mo pela espinha dela. - Ele gosta de sua posio no-oficial de leo-de-chcara. Vou mand-lo para Malta no ano 
que vem.
     - Quer dizer que comprou o cassino l?
     - Vou comprar. - Pensativo, ele fitou-lhe o rosto. - Estou pensando em ter uma scia.
     Viu o sorriso nos olhos dela antes mesmo de os lbios se curvarem.
     - Est? Ento, suponho que posso fazer meu lance?
     Ele curvou a mo na nuca de Serena.
     - Quanto antes, melhor - murmurou, puxando-a para si e beijando-a.
     Quando o telefone tocou ele praguejou, zangado. Serena riu e escondeu o rosto no vo do seu pescoo enquanto ele atendia.
     - Blade.
     Ouvindo a voz de Kate alterada, quando sempre era to calma, a tenso tomou conta dele, e Serena pde senti-la.
     - Est bem, Kate. Deso agora mesmo. - Depois de desligar, ele beijou os cabelos dela. - Precisam de mim l embaixo.
     - Esse  o problema de morar no trabalho. - Com um suspiro resignado, ela rolou para o lado e espreguiou-se. - Vou descer tambm.
     Vestindo-se, Justin perguntou-se o que seria melhor, ela ficar ali em cima ou descer. Decidiu que seria melhor Serena ficar na cobertura.
     - Voc no teve nenhum dia de folga em uma semana. Fique aqui descansando, que eu volto j. Por que no pede um almoo para ns?
     A idia de ter Justin ao seu lado uma tarde inteira era tentadora. Serena tratou de esquecer a papelada em sua mesa.
     - Est bem... Daqui a uma hora?
     - Sim, perfeito.
     Preocupado, ele tomou o elevador. Kate o esperava, quando saiu. Em silncio, estendeu-lhe um envelope branco.
     - Steve encontrou-o no balco da recepo. Assim que eu o vi... - Ela calou-se, procurando se controlar. -  igual ao que voc recebeu em Vegas, no?
     - ... - Justin respondeu, enquanto verificava atentamente seu nome em letra de forma. Teve o impulso de rasgar o envelope sem ler o contedo, mas pegou um 
estilete na escrivaninha e passou-o cuidadosamente pelo lado do envelope. Tirou um papel e desdobrou-o.
AINDA NO TERMINOU.
VOC TEM UMA DVIDA A PAGAR.

     - Chame o segurana - disse a Kate, enquanto lia a frase mais uma vez. Respirou fundo antes de acrescentar:
     -  a polcia.
     
    
    
    Captulo Onze
    
    
     Serena vestiu jeans e um suter preto de l angor. Ia ser bom ficar um dia inteiro na preguia, decidiu, com roupas confortveis e sem fazer nada. Justin e 
ela no tinham passado nenhum dia inteiro juntos depois de St. Thomas.
     Isso a fez pensar nos brincos que ele lhe dera. Ia us-los naquela noite, pensou, enquanto abria uma gaveta da penteadeira para pegar a caixinha. Tinham muita 
importncia porque ele os comprara para ela antes de se tornarem amantes.
     Que homem estranho ele era, refletiu. To frio em alguns aspectos, to introspectivo, no entanto capaz de gestos cheios de ternura. As violetas em sua sute 
no primeiro dia, champanhe ao caf da manh... E sob tudo aquilo havia uma latente, controlada violncia. Ele a excitava sob todos os aspectos.
     At que ponto voc  inteligente? Serena riu ao lembrar-se da pergunta de Justin. Inteligente o bastante para saber que sou uma mulher feliz, respondeu em silncio. 
Procurando de novo na gaveta, pegou a moeda de vinte e cinco centavos com duas caras que conseguira enquanto Justin se encontrava em Las Vegas. Com um sorriso, examinou-a, 
depois guardou-a no bolso da cala jeans. Inteligente o bastante para guardar um s na manga, acrescentou, em pensamento, com um brilho malicioso no olhar.
     Ao ver seu reflexo no espelho, o sorriso tornou-se uma expresso de espanto. Os cabelos haviam secado naturalmente e desciam, lisos e despenteados, dos lados 
do rosto. Devem estar embaraados, pensou, pegando a escova. Ia dar um jeito neles antes de ligar para o servio de quarto. Justin no iria se zangar se tivesse 
que esperar um pouco pelo almoo, concluiu, enquanto escovava os cabelos vigorosamente. Dobrando o corpo e a cabea para a frente, cerrou os dentes, e escovou os 
cabelos por baixo.
     - Ufa! Um minuto! - gritou para as insistentes batidas  porta.
     Com certeza, um de seus irmos levara a melhor com Lena Maxwell, e o que perdera a parada viera se lamentar. Ainda escovando os cabelos, foi abrir a porta.
     - No espere que eu d um jeito se... Oh!
     - Camareiro - disse-lhe um rapaz magro, de sorriso tmido.
     Justin decidira que arrumassem o quarto antes do almoo, concluiu ela. Tpico. Devia t-la avisado.
     - Posso voltar mais tarde, se...
     - Oh, no. Eu estava pensando em outra coisa. - Serena sorriu e abriu a porta o bastante para ele entrar com o carrinho de limpeza. - Voc  novo aqui, no?
     - Sim, senhora.  o meu primeiro dia.
     Isso explicava o nervosismo dele, pensou Serena, e tornou-se ainda mais acolhedora.
     - Fique  vontade - disse ao rapaz. - No vou atrapalh-lo. - Fez um gesto com a escova, j virando as costas para ele. - Por que no comea pela cozinha, enquanto 
eu...
     Algo foi colocado sobre sua boca e nariz. Surpresa demais para se assustar, Serena segurou o brao que a imobilizava e tomou ar para gritar. Inalou algo adocicado 
e forte, que fez sua cabea girar. Reconhecendo aquele cheiro, ela passou a lutar freneticamente contra as nuvens escuras que se adensavam diante de seus olhos.
     Oh, Deus, no! Os braos dela penderam, a escova caiu de sua mo. Justin...
     - O recepcionista encontrou-o em cima do balco - disse Justin ao tenente Renicki. - Ningum viu quem o colocou l. Foi durante a mudana de turno, quando todos 
estavam ocupados.
     - Sei. Tolo ele no ... - O policial segurou a folha de papel com a ponta dos dedos e colocou-a num saco plstico. Preciso voltar para a Delegacia e mandar 
isto ao laboratrio, mas vou deixar alguns homens  paisana de guarda.
     - Tenho seguranas em todas as reas pblicas.
     O tenente Renicki ergueu as grossas e grisalhas sobrancelhas. No  a mesma coisa, pensou, mas esse  um homem frio. Ficou olhando Justin acender um charuto 
com mos firmes. Poucos conservam tanta calma.
     - Tem inimigos, sr. Blade?
     Justin deu-lhe um olhar brando.
     - Pelo jeito, sim.
     - Algum, especificamente?
     - No.
     -  a primeira ameaa que recebe desde que voltou de Nevada?
     - .
     O tenente abafou um suspiro. Pessoas como Blade faziam-no sentir-se como um dentista tentando arrancar um dente relutante.
     - Contratou ou despediu algum, recentemente?
     Como resposta, Justin apertou o boto do intercomunicador.
     - Kate, verifique com o departamento do pessoal se contratamos ou dispensamos algum nos ltimos dois meses. Depois, pea que os demais hotis tambm verifiquem.
     - Coisa maravilhosa, o computador! - disse o policial, quando Justin desligou. - Meu filho adolescente praticamente se casou com um... - Como no teve resposta, 
sacudiu os ombros arredondados. - Vou verificar pessoalmente a sua segurana. Para plantar uma bomba, ele precisa primeiro entrar aqui.
     - Ele j entrou - lembrou Justin.
     - Verdade. - O tenente ficou olhando a fumaa do charuto subir. - O senhor poderia fechar o hotel... A nica mudana na expresso de Justin foi apenas um leve 
estreitar de olhos.
     - No.
     - Foi o que pensei. - Renicki levantou-se. - Meus homens sero discretos, sr. Blade, mas temos que fazer uma pesquisa de rotina. Virei falar com o senhor depois 
de interrogar os recepcionistas.
     - Obrigado, tenente.
     Justin esperou at a porta fechar-se atrs do policial e apagou o charuto com tanta fora que o partiu em dois. J tivera antes a sensao de estar sendo perseguido, 
mas agora quase podia sentir a respirao do perseguidor em sua nuca. Ele estava ali, se no no hotel, em algum lugar muito perto.  espreita. Serena ia voltar para 
Hyannis Port nem que ele tivesse que amarr-la e jog-la dentro do avio.
     Ficou sentado at que se controlou. No queria convencer Serena com gritos e ameaas. O nico modo seria faz-la compreender que a presena dela alio impedia 
de ser completamente racional. Se ela fosse embora, ele poderia pensar com mais clareza e talvez encontrasse as respostas.
     Pegou de novo o intercomunicador.
     - Kate, vou subir. Passe os telefonemas para minha sute.
     Ergueu-se e foi para o elevador. Enquanto subisse, poderia pensar na melhor maneira de manter Serena e os irmos fora do hotel.
     Assim que entrou na sala, ele olhou para a mesa junto  janela como se esperasse ver Serena ali, pronta para almoar. Ficou vagamente surpreso ao verificar 
que a mesa no estava posta. Ele demorara um pouco mais que a uma hora combinada para voltar. Pensando que ela talvez tivesse adormecido, foi para o quarto. A cama 
desarrumada desta vez no lhe despertou desejo, mas sim uma inexplicvel angstia. Chamando por ela, foi para o banheiro.
     Pairava no ar o perfume suave de Serena Ver o banheiro vazio fez a angstia aumentar. No seja idiota disse a si mesmo. Ela no est amarrada a esta sute. 
Pode ter sado por mil razes. Mas estava me esperando... Ela teria telefonado.
     Como podia ter certeza disso? Enquanto voltava para a sala, Justin lembrou a si mesmo que no estavam juntos por tempo suficiente para conhecerem os hbitos 
um do outro. Ela poderia ter descido at a butique para escolher um vestido.
     Inclinando-se, Justin pegou a pequena escova de cabelos esmaltada do cho. Por um instante sua mente ficou em branco, e no fez mais do que fitar a escova, 
imvel. Disse a si mesmo que parasse com aquilo. Estava sendo alarmista. Serena entraria na sute a qualquer momento. Era bem dela deixar as coisas espalhadas na 
sute inteira. No que fosse desmazelada ou sem cuidados...
     Pegou o telefone e discou um nmero.
     - Procure Serena MacGregor pelo pager.
     Ficou segurando a escova, enquanto esperava. A blusa com vidrilhos negros, que ele despira dela na madrugada, estava no sof. Em algum momento ela a pegara 
do cho e jogara ali. Ento, por que havia deixado a escova no cho?
     - A srta. MacGregor no responde ao bip do pager, sr. Blade.
     Justin sentiu formar-se um n no estmago. Apertou de tal modo o cabo da escova que seus dedos ficaram brancos.
     - Localize Alan ou Caine MacGregor e mande-os ligar para c.
     Olhando para o relgio, Justin viu que havia se passado meia hora do horrio que marcara com Serena.
     O telefone tocou.
     - Blade.
     - Justin,  Caine.
     - Serena est com voc?
     - No, Alan e eu estvamos...
     - Vocs a viram?
     - No, desde hoje de manh.
     Nos dez anos que conhecia Justin, pensou Caine, aquela era a primeira vez que percebia uma ponta de pnico em sua sempre controlada voz. Sentiu como se uma 
pedra de gelo lhe descesse pela espinha.
     - Por qu?
     A garganta de Justin estava apertada e ele continuou calado, olhando para a escova por mais alguns segundos.
     - Ela desapareceu.
     Caine sentiu o receptor do telefone tornar-se mido contra a mo.
     - Vou j para a.
     Em minutos, Justin abria a porta para os irmos de Serena.
     - Ela deve ter sado por algum motivo - disse Caine, assim que entrou. - Procurou saber se o carro dela est a?
     - No. - Justin amaldioou a si mesmo e pegou o telefone de novo. - Blade. A srta. MacGregor pediu o carro para sair?
     Esperou, impaciente, enquanto Caine dava largas passadas pela sala e Alan permanecia a sua frente, fitando-o. Justin ouviu a resposta do encarregado da garagem 
e desligou.
     - O carro dela ainda est l.
     Talvez ela tenha ido dar um passeio na praia sugeriu Alan.
     - Ela ficou de me esperar aqui, faz mais ou menos meia hora. - A ansiedade transparecia na voz de Justin.
     - Ia pedir almoo para ns, mas chequei com o servio de quarto e no foi feito nenhum pedido. Achei isto no
     cho, diante da porta de entrada. 
     Alan pegou a escova da mo de Justin. Lembrava-se do antigo jogo de penteadeira que Serena havia ganhado ao completar dezesseis anos. Era uma das poucas coisas 
que ela guardava com o maior carinho.
     - Vocs discutiram?
     Justin girou nos calcanhares e ficou de frente para Caine, tentando se controlar.
     - Escute - disse Caine, rpido - Rena tem gnio explosivo. Quando fica zangada,  capaz de sair sem dizer uma palavra a ningum. Neste caso, caminharia pela 
praia at se acalmar.
     - No, no discutimos - respondeu Justin - , estivemos fazendo amor. - Enfiou as mos nos bolsos para livrar-se da desconfortvel sensao de umidade. - Recebi 
um telefonema do meu escritrio. Haviam deixado um envelope endereado a mim sobre o balco da recepo. Era mais uma ameaa.
     Alan colocou a escova de Serena cuidadosamente sobre a mesa.
     - Justin... - Ele esperou at que os furiosos olhos verdes encontrassem os dele. - Chame a polcia.
     Como uma exclamao no final de sua frase, o telefone tocou. Justin agarrou-o.
     - Serena... - comeou.
     - Est  procura dela por todo lado? - A voz era abafada, e era impossvel identificar se quem falava era homem ou mulher. - Peguei a sua squaw, Blade. No 
 assim que se diz "mulher" em lngua de renegado?
     O telefone foi desligado.
     Por alguns segundos, Justin ficou imvel, como se fosse de pedra. Sentiu gosto de cobre na boca e reconheceu a sensao: medo.
     - Ele a pegou - ouviu algum dizer e custou a dar-se conta de que era a sua prpria voz.
     Numa cega onda de fria, arrancou o telefone da parede e jogou-o longe.
     - O desgraado pegou Serena!
     O tenente Renicki olhou ao redor na sala de estar da sute de Justin e decidiu que era mais acolhedora do que
     esperara. O homem que conhecera l embaixo agora estava sombrio e seus traos pareciam de granito. O olhar dele no se,desviava do telefone cado perto da parede, 
do outro lado. guas profundas so calmas na superfcie, refletiu.
     O homem alto, loiro, que olhava pela janela era Caine MacGregor, o importante jovem advogado que estava na promotoria do Estado de Massachusetts. O outro, tambm 
alto, moreno-claro e de cabelos negros, que no tirava os olhos de uma escova de cabelos que tinha nas mos, era Alan MacGregor, senador da Repblica, um crtico 
da ala esquerda de lngua afiada.
     O policial voltou-se de novo para Justin.
     - Ento, c estamos de novo.
     Os olhos de Justin encontraram os do tenente, demonstrando furor e um gelado controle.
     - Eu desci para ver o envelope que deixaram para mim em cima do balco da entrada. Serena ficou. Passava um pouco do meio-dia. Combinamos almoar aqui dentro 
de uma hora. Atrasei-me cerca de meia hora e quando cheguei vi que ela havia desaparecido. Fiquei preocupado e quando encontrei a escova de cabelos dela no cho 
chamei o servio de comunicao interna e pedi que a chamassem. Como ela no respondeu, mandei chamar seus irmos. Quinze minutos atrs recebi um telefonema.
     - Sim, aparentemente do seqestrador - disse Renicki, sem saber se estava aborrecido ou divertido com a fria descrio de Justin. - Gostaria que me dissesse 
o que ele falou, exatamente.
     Justin dirigiu ao policial um longo e intenso olhar.
     - Ele disse que pegou a minha squaw.
     Prestes a explodir, Caine voltou-se, dando as costas para a janela.
     - Droga, isto no vai nos levar a parte alguma! Por que voc no est procurando por ela?
     O tenente Renicki fitou-o com olhos cansados e pacientes.
     -  justamente o que estamos fazendo, sr. MacGregor.
     - Ele vai telefonar de novo - disse Alan, calmamente. Ergueu os olhos da escova para fitar o policial. - Ele deve saber que entre Justin e a m.inha famlia 
podemos pagar uma alta soma para ter Rena de volta. - Olhou brevemente para Justin. - Se  que o motivo  dinheiro...
     - Vamos trabalhar por enquanto nessa premissa, senador - retrucou o tenente com voz neutra. - Poremos uma escuta no seu telefone, com sua permisso, sr. Blade.
     - Faa o que for preciso.
     Pela primeira vez, depois do telefonema, Caine olhou para Justin.
     - Onde est o conhaque?
     - O qu?
     - Voc precisa de uma bebida. - Como Justin apenas balanasse a cabea, Caine voltou a falar. - Bom, eu vou beber alguma coisa antes de contar a meus pais. 
Justin sentiu um forte aperto no estmago e indicou:
     - Nesse armrio.
     O telefone tocou nos outros aposentos da sute. Sem esperar pela aprovao do policial, Justin foi atender na cozinha, pois no tinha coragem de entrar no quarto.
     - Blade. - Apertando, com desnimo, voltou e avisou o tenente: -  para voc.
     Alan e Caine conversavam em voz baixa.
     - Alan vai falar com nossos pais - disse Caine. - Entende-se melhor com eles, que com certeza vo querer vir para c.
     Justin lutava para que o pnico e a dor no se apoderassem dele.
     - Sim, claro.
     Ao sair da cozinha, o tenente Renicki deu com trs. pares de olhos fitando-o.
     - Meus homens encontraram um carrinho de limpeza abandonado na garagem, e foi encontrado um trapo ensopado em ter nele. Tudo ser enviado para o laboratrio.
     Pelo jeito, foi assim que Serena saiu daqui sem ser vista.
     Chegando mais perto, o policial pde ver que os dedos de Caine que seguravam o copo estavam brancos nas juntas e que havia uma raiva horrorizada no olhar de 
Alan. Na expresso de Justin nada se modificara.
     - Temos sua descrio da srta. MacGregor, sr. Justin, porm uma fotografia ajudaria. O aperto no estmago de Justin passou para a garganta.
     - No tenho nenhuma.
     - Eu tenho... - Desajeitado, Alan pegou a carteira.
     - Vamos pr uma escuta na sua linha agora mesmo, sr. Blade. - O tenente pegou a foto que Alan lhe estendia.
     - Vamos gravar tudo que for dito. Quanto mais tempo o senhor conservar o homem na linha, melhor. Seja o que for que ele diga, insista em falar com a srta. MacGregor 
antes de concordar com qualquer coisa. Ainda no temos certeza absoluta de que ela esteja com ele.
     E viva, acrescentou s para si. 
     - E se ele recusar? - perguntou Justin.
     - O senhor se recusa a fazer o acordo.
     Justin forou-se a sentar-se. Se ficasse de p comearia a andar e se andasse perderia o controle.
     - No - disse, sem qualquer expresso.
     - Justin - comeou Alan, antes que Renicki falasse - o tenente tem razo. Temos que ter certeza que Rena est com ele e bem. -  a Rena, pensou enquanto fazia 
um tremendo esforo para manter a voz calma. A nossa Rena! - Se voc deixar claro que no pagar o resgate se no falar com ela, ele a por ao telefone.
     Voc tem uma dvida a pagar. As palavras flamejaram na mente de Justin. Mas Serena, no, pensou desesperado. Deus, Serena, no!
     - E depois que eu tiver falado com ela - argumentou Justin - , concordarei com todos os termos dele. No vou negociar e no quero procurar ganhar tempo.
     - O dinheiro  seu, sr. Blade - sorriu o tenente Renicki.
     - Gostaria que o senhor ouvisse - com ateno a voz do homem, quando ele ligar. H chances de que disfarce a voz, mas o senhor poderia reconhecer uma frase, 
uma inflexo.
     Houve uma rpida batida  porta e o tenente foi abrir.
     Enquanto ele permaneceu afastado, falando em voz baixa com um policial, Caine aproximou-se de Justin, oferecendo-lhe o conhaque. Pela segunda vez, ele fez que 
no.
     - A polcia vai peg-lo - disse Caine, necessitando ouvir essas palavras em voz alta.
     Devagar, Justin ergueu os olhos.
     - E quando o fizerem - afirmou, calmo - , eu o matarei.
     Sentindo-se grogue e dolorida, Serena acordou, bocejando. Tinha adormecido, pensou. Perderia a hora da aula se no Nada disso... No. Tinha que ir para o cassino, 
e Dale Justin... No. Justin ia subir para almoar e ela ainda no pedira o almoo.
     Quis levantar-se, porm seus olhos recusavam-se a abrir. Percebia uma luminosidade e tinha uma sensao desagradvel no estmago. Enjo, pensou vagamente. Mas 
nunca enjoava, como... A porta, lembrou-se. Algum batera  porta. A nusea aumentou e com ela veio o medo. Reunindo todas as suas foras, Serena abriu os olhos. 
     O quarto era pequeno e escuro, cortinas pesadas cobriam a janela. Havia uma mesa consolo, de baixa qualidade, contra uma parede acima dela, um espelho empoeirado, 
e, junto  janela, uma cadeira-de-balano. No havia lmpada, apenas o buraco correspondente no teto. Ela sabia que era dia graas  pouca luz que se filtrava pela 
fenda entre as cortinas. Mas como sua noo de tempo estava distorcida, no sabia que dia era. 
     Certa vez algum pintara as paredes de amarelo-claro, mas a cor escurecera e agora mais se parecia com o amarelado sujo das pginas de livros velhos. Serena 
estava no meio de uma cama de casal, sobre uma colcha de chenilha. Quando quis mover o brao direito, descobriu que estava algemada  cabeceira da cama. Foi ento 
que o medo se sobreps ao aturdimento.
     O camareiro, lembrou-se. ter. Oh, Deus, como pudera ser to idiota? Justin a avisara... Justin, pensou de novo, mordendo o lbio. Ele deveria estar desesperado. 
Ser que a estava procurando? Ser que chamara a polcia? Talvez pensasse que ela apenas fora dar um passeio.
     Tenho que sair daqui, disse a si mesma e arrastou-se para a cabeceira a fim de verificar as algemas. O rapaz devia ter algo a ver com a bomba de Las Vegas. 
Era incrvel! Ele parecia pouco mais que um adolescente. Mas era adulto o bastante para seqestrar, lembrou a si mesma amargamente, sacudindo em vo as algemas. 
Foi ento que ouviu passos. Sentou-se e esperou, imvel.
     Havia planejado tudo perfeitamente, pensou Terry, enquanto erguia o telefone. Seqestrar a mulher debaixo do nariz de Blade havia sido arriscado, mas to gratificante! 
Mais do que a bomba, decidiu, tamborilando com os dedos na mesa. Dera tempo suficiente a eles para encontrar a bomba porque no queria ferir ningum alm de Blade. 
Mas o que conseguira agora fora perfeito. 
     Ela era bonita, pensou. Blade pagaria para t-la de volta. Mas antes de pagar, sofreria. Terry tinha certeza disso. Para aliviar a prpria tenso, lembrou a 
si mesmo quanto havia sido esperto. Enquanto Justin ia para Las Vegas, ele vinha para Atlantic City. Antes ele se criticara no ter comeado pelo hotel da Costa 
Leste, mas agora estava at satisfeito.
     Notara Serena na primeira noite que fora ao cassino depois ficara sabendo que era scia de Justin. Fizera algumas perguntas disfaradas nos lugares certos e 
descobrira que era muito mais do que scia para ele. Ento, armara seu plano.
     No comeo, estava assustado. Tirar uma mulher do hotel seria mais difcil do que plantar uma bomba nele. Mas observara. Ningum olhava duas vezes para as pessoas 
com o uniforme branco de camareiro. Depois de estudar os movimentos de Serena por alguns dias, conclura que havia uma passagem particular que ligava a sute da 
cobertura diretamente aos escritrios. Provavelmente um elevador raciocinara. Era assim que os ricos faziam as coisas. Depois de colocar a carta sobre o balco de 
recepo, fora paciente; passara a maior parte do tempo nos caa-nqueis, esperando.
     Quando viu que Justin descera, soube que era tempo de agir. Roubar o uniforme havia sido to fcil quanto deixar a carta. Ningum reparava num jovem inofensivo, 
com roupas simples. Tivera que obrigar-se a ir devagar, com calma. Dissera a si mesmo que devia dar dez minutos depois que Justin descesse para subir pelas escadas 
at o terceiro andar e trocar a roupa pelo uniforme de camareiro num quartinho de depsito, depois simplesmente sairia andando calmamente, empurrando um dos carrinhos 
de limpeza que havia l.
     Lembrava--se de como seu corao batera descontrolado ao dirigir-se para o elevador de servio. Havia uma chance de ela no estar na sute ou que chegasse  
porta justamente quando Justin estivesse voltando. Quando ela abrira a porta e sorrira, ele quase perdera a calma. Ento, lembrara-se de Blade, e o resto fora fcil.
     Levara menos de cinco minutos para colocar o corpo inerte no carrinho, cobri-lo com a roupa de cama e descer para a garagem, onde seu carro esperava.
     Com Serena deitada no assento de trs, coberta com uma manta, ele sara tranqilamente.
     Talvez houvesse usado ter demais, refletiu, ou... Foi ento que ouviu um gemido. Levantou-se de um salto para levar uma xcara de ch para ela.
     Quando abriu a porta, Serena estava sentada com as costas na cabeceira da cama. Olhou-o assim que entrou e no parecia assustada como ele esperava que estivesse. 
Imaginou se estaria em estado de choque e esperava que ela comeasse a gritar a qualquer instante.
     - Se voc gritar - ele falou em voz baixa - , vou ser obrigado a amorda-la e no quero fazer isso.
     Pela xcara que ele trazia, Serena percebeu que sua mo tremia. Um seqestrador nervoso, observou, podia ser mais perigoso do que um calmo. Tratou de controlar 
o impulso de gritar.
     - No vou gritar.
     - Eu lhe trouxe ch. - Ele chegou mais perto. - Voc deve estar com enjo...
     Ele se movia, notou Serena, como algum que se aproximasse de um animal acuado. Esperava que ela estivesse aterrorizada, compreendeu. Bem, no errara completamente. 
Seria mais vantajoso para ela se no perdesse o controle, por isso forou-se a manter a calma. A primeira coisa que queria saber era onde ele guardava a chave das 
algemas.
     - Estou, sim. Por favor... - Ela fez a voz tremer. Posso usar o banheiro?
     - Tudo bem, no vou machucar voc.
     A atitude dele era de quem queria tranqiliz-la. Colocou a xcara sobre a mesa e deu um passo  frente. Tirou uma chave do bolso do jeans e enfiou-a na algema 
que prendia o pulso de Serena.
     - Se voc tentar fugir ou comear a gritar vou ter que det-la de qualquer jeito. - Ele abriu a algema e fitou-a. - Entendeu?
     Serena assentiu. Deu para perceber que ele era forte enquanto, em silncio, levou- a at o banheiro.
     - Vou ficar aqui perto da porta - avisou. - Se no bancar a esperta nada lhe acontecer.
     Concordando novamente com um movimento de cabea, Serena entrou no banheiro. Imediatamente compreendeu que no havia esperana de fuga por ali. No havia janela. 
Uma arma, quem sabe? Uma rpida busca mostrou que s havia a barra do pendurador de toalha, que era irremovvel. Mordeu os lbios enquanto o medo e o desnimo tomava 
conta dela. Precisava encontrar outra sada. Ia encontrar outra sada.
     Abriu a torneira de gua fria da pia e,lavou o rosto. Precisava manter-se calma e alerta, assim como no devia subestimar o homem do outro lado da porta. Ele 
era mais perigoso ainda porque estava to assustado quanto ela. No. Iria demonstrar que estava mais assustada, decidiu. Poderia encolher-se de medo e choramingar 
para que ele no percebesse que estava observando,  espera da primeira chance de fuga. Primeiro, teria que saber quais eram os planos dele.
     Abrindo a porta, deixou que ele a segurasse pelo pulso de novo.
     - Por favor, o que vai fazer comigo?
     - No vou machuc-la - garantiu Terry de novo, levando-a para a cama. - Ele vai pagar para t-la de volta.
     - Quem?
     Viu fria nos olhos dele.
     - Blade.
     - Meu pai tem mais dinheiro - comeou ela, depressa.
     - Ele...
     - No quero o dinheiro do seu pai! - Diante da violenta exploso, ela no precisou fingir que estremecia.
     - Blade! Ele  quem deve pagar. Vou sangr-lo at que fique sem nada.
     - Foi voc... foi voc que plantou a bomba no hotel de Vegas?
     Terry entregou-lhe a xcara de ch. Serena considerou a possibilidade de jog-la no rosto dele, depois decidiu no fazer isso. Se estivesse quente a ponto de 
queim-lo ele com certeza recuaria e a chave das algemas ficaria fora de seu alcance.
     - Sim.
     Serena fitou-o, atenta. Havia tanta tristeza no rosto e nos olhos dele que o estmago dela se apertou.
     - Por qu?
     - Ele assassinou meu pai. - Terry respondeu e saiu do quarto.
     Por que ele no telefona?, perguntou-se Justin, tomando outra xcara de caf. Se ele a machucar... Olhou para baixo e viu que batera a xcara na mesa, bem longe 
do pires. Colocando-a no lugar, acendeu um charuto. Atrs dele, na sala de estar, dois investigadores jogavam baralho.
     Caine andava de um lado para outro, e Alan estava a caminho do aeroporto para pegar Daniel e Anna. A extenso telefnica da sala havia sido consertada e estava 
ligada a um aparelho de escuta.
     Esperavam.
     Nuvens se acumularam no cu, e a sala ficou quase s escuras. Ia chover  noite... Pelo amor de Deus, onde ela estaria? Justin queria cobrir o rosto com as 
mos, queria machucar algum, quebrar alguma coisa, qualquer coisa. No entanto, permanecia sentado, imvel, fitando a parede. Por que achei que ela estaria a salvo 
aqui?, perguntou a si mesmo. Eu a teria feito ir embora se no a amasse tanto. Deveria t-la feito ir embora. Se alguma coisa lhe acontecer...
     Ele expulsou o pensamento. Se conseguisse continuar se controlando no poderia dar-se sequer o alvio de se reconhecer culpado. Os nicos sons na sala eram 
a conversa baixa dos policiais e o barulho que o isqueiro de Caine fazia cada vez que acendia um cigarro. Se o telefone no tocasse, Justin ficaria louco. E quando 
tocou, correu para ele.
     - Mantenha-o na linha o mximo tempo que puder - ordenou um dos investigadores, seco. - E diga-lhe que s far acordo se falar com ela.
     Justin no deu qualquer sinal de ter ouvido as instrues ao erguer o receptor. O gravador comeou a trabalhar silenciosamente.
     - Blade.
     - Quer sua squaw de volta, Blade?
     Era uma voz jovem, notou Justin. E assustada. A mesma voz que ouvira nas gravaes da polcia em Las Vegas.
     - Quanto? - indagou.
     - Dois milhes em dinheiro. Depois eu digo quando e onde. .
     - Serena. Deixe-me falar com ela.
     - Pode esquecer.
     - Como vou saber que ela est com voc? - insistiu Justin. - Como vou saber se ela... - Precisou reunir foras para continuar - , ainda est viva?
     - Vou pensar nisso. E o seqestrador desligou.
     Serena encolheu-se sob a manta. Tinha frio. No, corrigiu-se brutalmente, tinha medo. O frio que sentia nada tinha a ver com o jeans, o suter fino ou os ps 
descalos. Ele assassinou meu pai. A terrvel afirmao girava em sua cabea. Ser que ele era filho do homem que atacara Justin todos aqueles anos antes? Ele deveria 
ser um beb, naquela poca. Se alimentara o dio durante todo aquele tempo...
     Serena estremeceu de novo e ajeitou a manta nos ombros. No devia ter duvidado do instinto de Justin. De algum modo ele sabia que algum estava atrs dele. 
At onde o rapaz iria. para vingar-se?, indagou-se. Seja objetiva, ordenou a si mesma, aquilo era real.
     Tinha visto o rosto dele. Ser que iria correr o risco de deix-la viva, uma vez que poderia identific-lo? Contudo, no parecia um assassino a sangue-frio. 
Mas havia plantado uma bomba no hotel, lembrou-se. Deus, tinha que fugir!
     Fechando os olhos, Serena concentrou-se em ouvir. Estava tudo quieto, no havia sons de trfego. Ela achava, mas no podia ter certeza, que ouvia o mar. Poderia 
ser apenas o vento. A que distncia da cidade estariam? Se jogasse a xcara de ch pela janela e gritasse, ser que algum a ouviria? Enquanto analisava as possibilidades, 
Terry entrou.
     - Trouxe-lhe um sanduche.
     Ele parecia mais agitado ou, talvez, reconsiderou ela, excitado. Tenho que faz-lo falar, determinou.
     - Por favor, no me deixe sozinha.
     Segurou-o pelo brao e fez com que seus olhos implorassem.
     - Voc vai sentir-se melhor depois que comer - murmurou ele e colocou o sanduche embaixo do nariz dela.
     - No precisa ter medo. Eu j disse que no vou machuc-la se no tentar nada.
     - Eu vi seu rosto - disse ela, tateando o terreno. - Como vai me soltar?
     - Fiz meus planos.
     Inquieto, ele comeou a andar para um lado do outro do quarto. Ele no  muito grande, pensou Serena. Se eu estivesse com as mos livres teria uma chance.
     - Quando fizer Blade saber onde voc est - prosseguiu Terry, pensando na Sua - , estarei longe. Eles no vo me pegar, e terei dois milhes que me ajudaro 
a ficar confortavelmente escondido.
     - Dois milhes - sussurrou ela. - Como sabe que Justin vai pagar?
     Terry olhou para ela e riu. O rosto dele era plido, os olhos imensos. Os cabelos desciam, despenteados, at os ombros. - Ele vai pagar. No demora muito, ele 
estar me implorando que receba.
     - Voc disse que ele matou seu pai.
     - Assassinou.
     - Mas ele foi absolvido. Justin me contou...
     As palavras restantes ficaram engasgadas na garganta dela porque Terry voltou-se, furioso.
     - Ele assassinou meu pai e o deixaram solto! - gritou.
     - Deixaram-no solto porque tiveram pena dele. Foi uma questo poltica, minha me me disse. Deixaram-no solto porque era um pobre rapazinho ndio. Minha me 
me contou que o advogado dele pagou as testemunhas.
     A me dele, pensou Serena, havia condicionado a mente de Terry durante anos. Seria preciso mais do que umas poucas palavras para mudar seu modo de pensar. Ser 
que a me lhe contara sobre a cicatriz no flanco de Justin?
     Ser que contara que o pai dele estava bbado ou que a faca que o matara era dele mesmo? Serena estudou o rosto assustado de Terry, os olhos cheios de dio.
     - Sinto muito - disse, baixinho. - Sinto muito...
     - Agora ele est pagando. - Terry afastou uma mecha de cabelos dos olhos. - Eu gostaria de poder mant-la comigo mais do que por alguns dias. - Ele deu uma 
risada abafada. - Quem diria que estou fazendo Blade danar por causa de uma mulher?
     - Por favor, como  o seu nome?
     - Terry - respondeu ele, seco.
     Serena procurou sentar-se mais reta.
     - Terry, voc deve saber que Justin chamou a polcia.
     Eles esto me procurando.
     - No vo encontr-la - afirmou ele, com convico.
     - No  de ontem que planejei isto. Aluguei esta casa h seis meses, quando Blade abriu o hotel. Pensava chantage-lo de novo aqui, depois que ele pagasse por 
Vegas.
     - Sacudiu os ombros, como se o fracasso em Las Vegas tivesse pouca importncia. - O velho casal dono desta casa a esta hora deve estar na Flrida. Eles nunca 
me viram, eu fiz tudo por carta e enviei um cheque.
     - Terry...
     - Olhe, nada vai acontecer com voc. Coma e durma.
     Dez horas depois de Blade me pagar, telefonarei para ele e direi onde voc est.
     Ele saiu do quarto antes que Serena pudesse dizer alguma coisa e bateu a porta.
     - O que eles esto fazendo para encontr-la? - perguntou Daniel, andando de um lado para outro na sala da sute de Justin. - Olhe s esses dois - fez com a 
mo um gesto para o lado dos dois investigadores de polcia - , jogando cartas enquanto um manaco est com minha menina.
     - Esto fazendo tudo que podem - argumentou Alan, mansamente. - O telefone est grampeado, e se ele ficar durante certo tempo na linha eles o rastreiam. Esto 
levantando as impresses digitais do carrinho de limpeza.
     - Ah! - Deixando o pnico assumir forma de raiva, Daniel mirou outro alvo. - Que tipo de lugar  este em que um homem pode enfiar minha irm num carrinho de 
arrumadeira e sair com ela?
     - Daniel - advertiu suavemente Anna do sof, ao lado de Justin.
     Ela apenas disse o nome do marido, mas a dor em seus olhos o fez praguejar e ir para a janela. Anna voltou-se e colocou a mo sobre a de Justin.
     - Justin...
     Mas ele sacudiu a cabea e ergueu-se. Pela primeira vez em seis horas de medo viu que ia ceder  presso. Sem uma palavra, foi para o quarto e bateu a porta 
atrs de si.
     O roupo estava nas costas da cadeira onde Serena o deixara. Era s peg-lo para sentir o cheiro dela. Cerrou os punhos e virou-lhe as costas. A caixinha com 
os brincos que ele lhe dera estava aberta sobre a penteadeira. Lembrava-se de como tinham ficado nela na noite anterior, cintilando  suave luminosidade do amanhecer; 
ela estava ajoelhada na cama e abrira os braos para ele.
     Medo e raiva misturavam-se em seu ntimo com uma violncia que fez sua pele ficar molhada de suor. O silncio do quarto pesava sobre ele. Havia apenas o som 
da chuva caindo, fria e contnua, do lado de fora. Apenas poucas horas antes Serena estava no quarto, cheia de vida, alegria e paixo. Ento, ele a deixara. No 
lhe havia dito mais uma vez que a amava e nem lhe dera um beijo de despedida. Nem pensara nisso, preocupado com seus problemas. E a deixara sozinha, pensou de novo.
     - Oh, Deus!
     Ao passar as mos no rosto ele pressionou mais os olhos.  suave batida na porta deixou as mos carem e lutou contra o desespero. Daniel entrou sem esperar 
resposta.
     - Justin. - Fechou a porta atrs de si e ficou de p, imenso e incapacitado pela primeira vez, que Justin pudesse lembrar. - Desculpe...
     Justin fitou- o enquanto enfiava as mos nos bolsos, outra vez.
     - Voc tem razo, Daniel. Se eu tivesse sido cuidadoso...
     - No. - Aproximando-se, Daniel segurou-o pelos dois braos. - Ningum tem culpa. Rena... Ele queria pegar Rena e encontrou um jeito. Estou com medo. A voz 
poderosa tremeu, e Daniel apertou com mais fora, os braos de Justin. - Antes disto, s senti medo uma vez na vida. Quando Caine meteu na cabea de explorar o telhado 
e o encontramos pendurado num beiral do segundo andar. - A voz de Daniel tremeu e ele ficou de costas. - Para ela eu no posso levar uma escada...
     - Daniel, eu amo Serena.
     Com uma inspirao profunda, Daniel voltou-se.
     - Eu acredito em voc.
     - Tudo que ele me pedir eu dou, tudo que mandar eu fao.
     Assentindo, o velho estendeu-lhe a mo.
     - Venha, vamos esperar todos juntos.
     
     
     
    Captulo Doze
    
    
     Ela devia ter dormido porque quando abriu os olhos estava completamente escuro.
     - Voc vai dar um telefonema - disse Terry, ento foi at o comutador e acendeu a luz.
     Serena ps a mo diante dos olhos, que ficaram ofuscados.
     Quem... - comeou.
     - Ele j deve ter suado bastante, agora - Terry ligou o telefone a uma tomada na parede perto da cama. J passa de uma da manh. Voc vai dizer a Blade que 
est bem e chega. No tente nada. - Comeou a discar. - Quando ele atender, diga-lhe que no est ferida e que assim ser at que ele pague. Entendeu?
     Assentindo, Serena pegou o receptor.
     Justin atendeu ao primeiro toque. Uma xcara com caf pela metade caiu sobre o tapete.
     - Blade.
     Serena fechou os olhos ao ouvir a voz dele. Est chovendo, pensou confusamente. Estava chovendo, ela estava com frio e assustada.
     - Justin.
     - Serena! Voc est bem? Ele a machucou?
     Respirando fundo, ela fitou diretamente os olhos de Terry.
     Estou bem, Justin. Sem cicatrizes.
     - Onde voc est? Di...
     Terry tapou a boca de Serena e pegou o telefone.
     - Se voc a quer de volta, arranje o dinheiro. Dois milhes, notas de baixo valor, no marcadas. Eu o farei saber onde ser a entrega. E v sozinho, Blade, 
se no quiser que ela seja machucada.
     Terry desligou o telefone e soltou Serena. O som da voz de Justin fez o que horas de medo no haviam feito. Ela escondeu o rosto no travesseiro e chorou.
     - Ela est bem - Justin desligou com um gesto contido.
     - Ela est bem.
     - Graas a Deus! - Anna juntou as mos. - E agora?
     - Vou pegar o dinheiro e levar onde ele mandar.
     - Poderemos fotografar as notas - disse o tenente Renicki, erguendo-se de onde estava sentado. - Um de meus homens poder segui-lo quando for fazer a entrega.
     - No.
     - Escute, sr. Blade - recomeou o policial, paciente - , nada garante que ele solte a srta. MacGregor depois que o senhor pagar.  mais provvel que ele...
     - No - repetiu Justin. - Vamos jogar a meu modo, tenente. Ningum vai me seguir.
     O tenente respirou fundo.
     - Est bem. Podemos plantar um bip na pasta. Assim depois que ele pegar o dinheiro nos levar at ela.
     - E se ele perceber? - contraps Justin. - No quero arriscar.
     - Est se arriscando demais entregando dois milhes de dlares a ele - retrucou Renicki. - Sra. MacGregor - voltou-se para Anna, considerando que uma mulher, 
uma me, seria mais razovel - , queremos sua filha de volta s e salva tanto quanto a senhora. Deixe-nos ajudar!
     Ela lanou um longo e atento olhar ao quanto a mo segura por Justin tremia.
     - Aprecio muito a sua dedicao, tenente, mas creio que penso como Justin.
     - Fotografe o dinheiro - insistiu Caine - , e v atrs dele quando Rena estiver a salvo. Por Deus - acrescentou com olhar selvagem - , eu quero acusar esse 
maldito pessoalmente.
     - Ento, o senhor tem que torcer para que ele seja julgado apenas por seqestro e extorso... e no tambm por assassinato - acrescentou o tenente, cruel. - 
Ele a manter viva at receber o dinheiro. Depois disso, ningum sabe. Oua, Blade - continuou, a pacincia esgotada - , voc no gosta de lidar com tiras talvez 
por ter tido alguma encrenca com eles, mas  um erro enorme no nos deixar lidar com esse bandido.
    O policial apontou o telefone, enquanto Justin passava a mo pelas costelas num gesto inconsciente. No confio na polcia, pensou. A lembrana das perguntas 
interminveis dos policiais, enquanto o terrvel ferimento ia fechando e formando a cicatriz, estava gravada em sua memria. Talvez estivesse cometendo um erro. 
Talvez devesse... Sua mo parou sobre o local do velho ferimento. Cicatriz... sem cicatrizes!
     - Oh, Deus... - murmurou, olhando para a mo. Oh, meu Deus!
     - O que foi? - Anna estava sentada ao lado dele e pegou-o pelo brao.
     Lentamente, os olhos dele voltaram-se para os dela.
     - Um fantasma - murmurou, ento afastou a lembrana e voltou-se para o tenente Renicki. - Serena tentou me dizer alguma coisa. Ela disse "Sem cicatrizes"...
     O homem que matei em Nevada feriu-me com uma faca e Serena sabe.
     O tenente j se dirigia para o telefone.
     - Lembra-se do nome dele?
     Justin deu uma risada amarga. Algum esquece o nome do homem pelo qual foi julgado por assassinato?
     - Charles Terrance Ford - respondeu. - Ele tinha mulher e um filho. Ela levou o pequeno ao tribunal todos os dias.
     O menino tinha olhos azuis, lembrou-se Justin. Plidos e confusos olhos azuis. Uma onda de enjo o atingiu, ameaando engolf-lo.
     - Desta vez, beba isto! - ordenou Caine colocando o copo com conhaque entre as mos de Justin.
     Olhando para ele, Justin sacudiu a cabea.
     - Caf - resmungou e foi para a cozinha.
     No conseguia pensar. Apoiou-se no balco e tentou coordenar os pensamentos. Sentia-se indefeso e amedrontado como se sentira anos antes, naquela cela estreita. 
Dezessete anos, pensou. Meu Deus, ele permaneceu dezessete anos me odiando. O que vai fazer a Serena por minha causa?
     - J que  a nica coisa que quer beber, beba! Esbravejou Caine colocando uma xcara com caf sobre o balco  frente dele. Caine estava se lembrando de Serena 
de p ali, naquela manh, os olhos e os lbios rindo, vendo-o lidar com o fato de que a irm crescera enquanto ele no estava olhando.
     - Eu sabia. - Era quase um sussurro, e Justin olhava para o caf preto. - Eu sabia que algum estava atrs de mim. Eu sabia que no era seguro para ela, mas 
no consegui faz-la ir embora.
     Caine sentou-se pesadamente num banquinho.
     - Conheci Serena a vida inteira, amei-a a vida inteira e sei que ningum, absolutamente ningum, a faz fazer algo que no queira.
     - Eu poderia ter feito. - Justin bebeu o caf sem sentir o gosto. - Tudo que eu tinha a fazer era ir com ela.
     - E ele teria ido atrs de vocs.
     Justin colocou a xcara no pires.
     - Sim. - A raiva clareava sua mente e desfazia o n na garganta. - Vou t-la de volta, Caine - disse, com uma tranqilidade ameaadora. - Ningum... Ningum... 
vai me impedir de traz-la de volta!
     - O nome dele  Terry Ford - informou o tenente Renicki, entrando na cozinha e indo direto para a cafeteira. - Pegou um avio em Las Vegas h cinco dias, com 
destino a Atlantic City. Logo teremos a descrio dele. Estamos checando hotis, motis, condomnios, chals na praia, mas nada garante que ele tenha permanecido 
na cidade. No o vejo arrendando uma casa em seu prprio nome - acrescentou, servindo-se de acar. Sua me casou-se h trs anos, e vamos descobrir onde ela est.
     Era bom ter algo slido com que trabalhar, nomes, rostos. Com um resmungo de satisfao, o policial sentou-se diante de Caine.
     - Vamos peg-lo - prometeu. - Vocs devem tentar descansar um pouco - aconselhou. - A probabilidade  de que ele no telefone at amanh. Como nenhum dos dois 
respondesse, o tenente suspirou. Esta famlia sabe como cerrar fileiras, pensou.
     - Tudo bem, sr. Blade. Por que no me conta quais as providncias que tomou para reunir o dinheiro do resgate?
     - O dinheiro estar em meu escritrio amanh, s oito horas.
     As grossas e grisalhas sobrancelhas de Renicki subiram e desceram.
     - Nenhum problema em conseguir essa soma?
     - No.
     - Certo, diga a ele que ter o dinheiro s nove, para termos tempo de fotograf-lo em seu escritrio. Assim, caso ele nos escape, teremos como apanh-lo quando 
comear a gastar o dinheiro. Peo-lhe que reconsidere nossasugesto de colocar um rastreador na pasta. Posso mostrar-lhe o quo facilmente ele pode ser escondido. 
Lembre-se - acrescentou antes de Justin falar - , nossa preocupao principal  a mesma que a sua. Trazer a srta. MacGregor de volta s e salva.
     Pela primeira vez, Justin notou o cansao nos olhos do policial. Ocorreu-lhe, ento, que o tenente no havia dormido ou comido, do mesmo modo que ele. Sob a 
maioria das circunstncias, ele confiaria naqueles olhos.
     - Vou pensar - disse, por fim.
     O tenente Renicki assentiu e tomou o resto do caf. 
     s seis da manh o telefone tocou. Anna e Daniel saltaram, meio adormecidos no sof. Alan tornou-se atento na poltrona onde passara a noite, acordado e inquieto.
     Caine parou  porta da cozinha, de onde saa com outro caf. A mo de Justin pegou o receptor; ele estivera olhando para aquele telefone por mais de duas horas.
     - Blade.
     - Arranjou o dinheiro?
     - Estar aqui s nove.
     - H um posto de gasolina duas quadras depois do hotel,  direita. Esteja na cabina telefnica que h l, s nove e meia. Eu ligarei.
     Terry desligou o telefone com os nervos  flor da pele, quase derrubando a mesinha sobre a qual estava o aparelho. No conseguira dormir seno depois que o 
choro de Serena se aquietara. Ele no deveria sentir-se culpado diante dela, pensou enquanto esfregava os olhos com as costas das mos. Afinal, que tipo de mulher 
concorda em viver com um assassino?
     A me dele diria que era uma vagabunda, mas Terry sentia que havia algo em Serena. Classe, refletiu, enquanto se espreguiava para esticar os msculos doloridos. 
Parecera-lhe uma mulher de classe ao abrir a porta para ele, de suter e jeans. E naquela noite... Ele suspirou, olhando para a porta do quarto. Na noite anterior 
ela lhe parecera to pequenina e indefesa, quando se aninhara na cama e chorara!
     Bem, sentia muito por assust-la tanto, mas ela era melhor arma que tinha contra Blade. Em primeiro lugar, ela jamais deveria ter se misturado com um canalha 
como ele, lembrou Terry a si mesmo. Ele o mataria, se pudesse, mas era uma coisa que no estava em si. Plantar uma bomba num prdio e enfiar balas ou uma faca num 
homem eram coisas muito diferentes. Uma bomba era algo distante, que podia ser explodida por controle remoto mas assim mesmo ele no sabia se teria coragem de deton-la. 
Mas esta ameaa! Como ficara satisfeito por manter nervoso, sofrendo e em suspense o homem que matara seu pai. Depois viria o dinheiro, e cada dlar que gastasse 
seria parte da vingana contra Justin Blade.
     Ouviu Serena movimentar-se na cama e foi v-la. Ela estava desgostosa consigo mesma. O que havia de bom em chorar? S servia para deix-la com dor de cabea 
e os olhos inchados. Ela devia estar planejando um meio de escapar e no chorando, cheia de auto-piedade. O brao preso  cabeceira da cama estava inchado por falta 
de circulao. Sentando-se, massageou-o para fazer o sangue circular. Pense!, ordenou a si mesma. Sempre h uma sada.
     Quando a porta do quarto abriu-se, ela olhou ao redor. Percebeu a consternao nos olhos de Terry ao fit-la. Deus, devo estar uma figura horrvel, pensou, 
exausta. Ento, aproveite-se da compaixo dele, Rena!, disse-lhe uma vozinha impaciente. Comece a usar a cabea.
     Ela fez o medo transparecer em seu rosto, enquanto agarrava-se com desespero s foras que lhe restavam.
     - Por favor, meu brao est doendo. Acho que dei mau jeito durante a noite.
     - Sinto muito. - Ele ficou irresoluto no meio do quarto.
     - Vou lhe trazer caf...
     - Por favor - disse ela depressa, antes que ele sasse.
     - Se pelo menos eu pudesse ficar sentada numa cadeira...
     Estou toda dolorida por ter ficado deitada com o brao preso. Afinal, como poderia fugir? - perguntou, soluante, ao ver que ele hesitava. - Voc  mais forte 
do que eu.
     - Olhe, vou lev-la  cozinha. Se tentar alguma coisa eu a trago para aqui e coloco uma mordaa em voc.
     - Est bem... S me deixe levantar daqui um pouco.
     Terry pegou a chave no bolso e abriu as algemas. Serena dominou a vontade de sair correndo, pois sabia que no chegaria sequer at a porta. Segurando-a por 
um brao, ele a conduziu rapidamente atravs da casa.
     Todas as cortinas estavam fechadas. Pelo que sei, posso estar at no Alasca, pensou, frustrada. Se pudesse correr, em que direo deveria faz-lo? Ser que 
ele tinha um carro? Deveria ter, se no como a teria trazido at ali?
     Se pudesse pegar as chaves...
     - Sente - ordenou ele.
     Fez com que ela se sentasse numa cadeira  mesa da cozinha. Com agilidade, fechou as algemas num tornozelo e na perna da mesa. Empurrando os cabelos para trs, 
ele ergueu-se.
     - Vou fazer caf para voc.
     - Obrigada.
     O olhar de Serena percorria a cozinha, rpido, em busca de uma arma.
     - Ele j conseguiu o dinheiro. Acho que eu deveria ter pedido duas vezes mais.
     - Voc no vai ficar feliz com isso.
     - Mas ele vai ficar infeliz - retrucou Terry. - Isso  que importa.
     - Terry, voc est desperdiando sua vida, desse jeito. - Ele era to jovem, pensou Serena, jovem demais para guardar tanto dio no corao. -  preciso ter 
cabea para planejar tudo do modo que voc fez. Cabea e habilidade. Voc poderia dar um uso muito melhor ao seu crebro. Se me deixar ir embora agora, poderei ajud-lo. 
Meu irmo...
     - No quero a sua ajuda - respondeu ele por entre os dentes. - Quero Blade. Quero que ele sofra.
     - Justin no sofre - disse ela, cansada.
     - Moa, eu o escutei ao telefone. Ele sofre e far qualquer coisa por voc.
     - Terry...
     - Cale a boca! - gritou ele, como se seus nervos estivessem prestes a se romper. - Passei toda a minha vida imaginando um modo de fazer Justin Blade pagar. 
Tive que ver minha me se matar de tanto trabalhar para a gente no morrer de fome enquanto ele se tornava cada dia mais rico em vez de estar apodrecendo numa cela. 
Quero o dinheiro e vou consegui-lo!
     Resignada, Serena olhou para a mesa, e ele voltou a falar:
     - Vou preparar alguma coisa para voc comer. Est com fome?
     Ela ia dizer que no quando compreendeu que isso o levaria a prend-la no quarto de novo. Ento, apenas fez que sim com a cabea e manteve o rosto baixo, procurando 
raciocinar.
     Enquanto ele remexia no armrio da cozinha ela decidiu tentar a sorte. Desta vez, quando ele tirasse as algemas ela ia lutar. Com sorte, poderia surpreend-lo 
e sair da casa por tempo suficiente para chamar a ateno de algum. Se  que havia algum por perto para ouvir seus gritos...
     Quando olhou para trs, viu Terry com uma grande frigideira de ferro na mo. Sem sequer pensar, Serena gemeu e comeou a escorregar lentamente para o cho.
     - Ei! - Alarmado, ele correu para ela, colocando a frigideira no cho e procurando ergu-la pelos ombros.
     - O que foi? Est se sentindo mal?
     - Acho que vou desmaiar...
     Enquanto falava com voz frgil, Serena segurou o cabo da frigideira. Esperou at que o rosto dele ficasse bem perto do seu e ento, usando toda a sua fora, 
bateu com a frigideira no lado da cabea dele, que imediatamente perdeu os sentidos.
     A princpio Serena ficou no cho, tentando recuperar o flego, pois ele cara em cima dela. Houve um momento de terror quando pensou que poderia t-lo matado. 
Deslizou, segurando-o, e saiu de debaixo dele. A primeira coisa que fez foi sentir-lhe a pulsao.
     - Graas a Deus - murmurou, ao ver que o corao de Terry estava batendo. Rpida, deu um jeito para alcanar o bolso onde estava a chave. A me dele  que merecia 
essa pancada, pensou, enquanto se soltava. O pobre menino jamais tivera uma chance.
     Levantando-se, considerou as opes. Poderia correr e sair gritando, mas havia a possibilidade de ele alcan-la, se voltasse a si. No. Primeiro tinha que 
dar um jeito de imobiliz-lo.
     Pegou as algemas e arrastou Terry para o quarto. Ele no era um homem grande, mas quando estava no meio sala, arrastando-o pelos braos, ela descobriu que usava 
todas as suas foras. Quando chegou  porta transpirava e respirava com dificuldade. Parou  porta para tomar flego e decidiu que jamais teria foras para colocar 
Terry em cima da cama, ento arrastou-o at ela, deitou-o ao lado e prendeu-lhe o brao com a algema na lateral da cabeceira. Em seguida, correu para o telefone. 
A meio caminho sentiu uma forte tontura e tudo comeou a escurecer. Parou, descansou at os olhos clarearem e lembrou-se que no havia comido quase nada em dois 
dias. Tinha que tomar cuidado para no desmaiar agora. Devagar, chegou ao telefone e discou. Depois de um rpido chuveiro e de trocar de roupa, Justin voltou  sala 
de estar. Anna insistia para que Daniel se alimentasse, embora ela prpria no tivesse tocado na comida. Ergueu os olhos para Justin quando ele entrou.
     - Teremos um jantar em famlia esta noite - disse com um sorriso radiante. - Serena adora festas.
     Ele viu os olhos de Anna se inundarem de lgrimas, porm ela piscou e conseguiu cont-las. Pela primeira vez desde que a conhecia, aproximou-se e abraou-a.
     - Por que no desce e conversa com o chef? Ele far o que voc pedir. .
     Percebeu que ela estremecia.
     - Sim, vou fazer isso. Tome cuidado... - murmurou Anna. - Tome cuidado, Justin.
     Quando o telefone tocou ela saltou de susto, e seu rosto empalideceu.
     - Ningum esperava que ele telefonasse de novo.
     - Provavelmente quer ter certeza de que tudo est certo. - Com as sobrancelhas franzidas, Justin atendeu:
     - Blade.
     - Justin...
     - Serena! - Ele ouviu. Anna gemer atrs de si. - 
     Voc est bem?
     - Sim, estou bem... Justin...
     - Tem certeza? Ele no a machucou? Pensei que ele no fosse telefonar mais.
     Ela controlou a impacincia e falou depressa:
     - Ele no teve escolha... Est inconsciente e algemado  cama.
     - Como?!
     Caine segurou o brao de Justin, mas ele livrou-se com um safano.
     - O que voc disse, Serena?
     - Eu disse que bati nele, ele desmaiou e algemei-o  cama.
     A sensao de alvio que irrompeu dentro dele manifestou-se por uma sonora gargalhada.
     - Deus sabe como eu estava preocupado por voc - disse, caindo sentado no sof. Ergueu a cabea e deu com quatro pares de olhos ansiosos. - Ela nocauteou o 
bandido e algemou-o a uma cama!
     - Essa  uma MacGregor! - Daniel abraou Anna.
     - Com o que ela bateu nele?
     - Meu pai est a? - quis saber Serena.
     - Sim. Ele perguntou com o que voc bateu nele.
     - Com uma frigideira de ferro.
     - Uma frigideira - transmitiu Justin.
     - Essa  a minha menina! - Daniel beijou Anna escondeu o rosto no ombro dela e chorou. 
     - Justin, voc pode vir me buscar? - pediu Serena.
     - Passei uma noite terrvel.
     - Onde voc est?
     - No sei...
     A tenso explodiu, lgrimas subiram-lhe aos olhos e ela inclinou a cabea at entre os joelhos. No enfraquea agora!, ordenou a si mesma. No enfraquea! Podia 
ouvir Justin chamando-a pelo telefone e reprimiu o choro.
     - Espere um pouco, vou. abrir as cortinas e ver se reconheo o lugar. Fale comigo - pediu, quando se levantou.
     - Continue falando comigo.
     - Sua famlia est aqui - disse ele, percebendo um tom de histeria na voz dela. - Sua me vai preparar um jantar especial para hoje. O que voc gostaria de 
comer?
     - Um cheesebrguer. - Ela abriu a primeira cortina. - Oh, Deus, como gostaria de comer um cheesebrguer e beber uma coca bem gelada! Creio que estou na parte 
leste da cidade, perto da praia. H poucas casas ao longo da rua... Nunca estive por aqui. - Ela mordeu os lbios e tentou impedir que a voz embargasse. - 
     No sei onde estou.
     - D-me o nmero do telefone, Serena. Descobriremos o endereo. - Justin anotou rapidamente o nmero que ela disse. - Logo estarei a. Fique firme. .
     - Vou ficar. J estou bem. - A luz do dia entrando na casa ajudava. - Venha logo. Diga a todos que no se preocupem.
     - Serena, eu te amo.
     As lgrimas velaram-lhe os olhos de novo.
     - Venha e mostre-me - pediu ela, antes de desligar.
     Com um aceno de cabea, o tenente comeou a discar um nmero.
     - Ento, ela o ps a nocaute com uma frigideira, hein?
     - O policial sorriu, aprovador. - Que moa corajosa!
     -  uma MacGregor - esclareceu Daniel e assoou ruidosamente o nariz.
     - Ela est num chalezinho a leste da cidade - disse o tenente Renicki, poucos minutos depois, dirigindo-se para a porta. - Vamos? - perguntou a Justin.
     Justin dirigiu-lhe um olhar luminoso.
     - Vamos todos.
     Serena esperou de p no prtico da casa, apesar do ar frio da manh. Haviam-se passado menos de vinte e quatro horas, mas sentia-se como se houvesse ficado 
dias sem ver a luz do sol. As plantas ainda estavam molhadas da chuva noturna. Como  que nunca havia percebido quantas cores havia numa gota de gua numa folha?
     Ento, viu os carros. Parecia uma procisso, pensou, e teve de novo uma vontade louca de chorar. No. No queria receber Justin com lgrimas correndo-lhe pelo 
rosto. Endireitando os ombros, foi at o primeiro degrau para esperar.
     O carro dele chegou  frente das duas viaturas policiais, e assim que o carro parou, ele saltou para fora e correu para ela.
     - Serena!
     Ele tomou-a nos braos e ergueu-a do cho ao apert-la contra si. Com o rosto escondido no pescoo dele, Serena ouviu-o murmurar seu nome outra vez, mais uma 
e outra ainda.
     - Voc est bem?
     Mas antes que pudesse responder os lbios dele colaram-se aos dela.
     Serena abraou-o com mais fora ao sentir que ele tremia. Para reassegur-lo, colocou todo o amor possvel naquele beijo.
     - Voc est gelada - murmurou Justin, sentindo a pele fria sob suas mos. - Tome, vista o meu palet. Enquanto ele tirava o palet, Serena segurou-lhe o rosto 
com ambas as mos.
     - Oh, Justin - sussurrou e passou um dedo pelas linhas de preocupao que marcavam o rosto dele. - O que ele fez com voc?
     - Agora me deixe olhar para ela! - Daniel segurou a filha pelos ombros e a fez voltar-se. Passou as mos no rosto plido. - Ento, voc o nocauteou com uma 
frigideira, no foi, menininha?
     Vendo os olhos vermelhos do pai, ela o beijou com ternura.
     - Foi fcil! - vangloriou-se. - No me diga que se preocupou por mim! - Ela fingiu-se insultada.
     - Claro que no. - Daniel fungou. - Meus filhos sabem se cuidar. Sua me, sim, estava preocupada.
     O tenente Renicki ficou observando enquanto Serena abraava seus entes queridos. Pretendia ficar de olho em Justin quando trouxessem Terry Ford para fora.
     - Precisamos de um depoimento da senhorita - disse, parando ao lado de Justin.
     - Agora no!
     O policial concordou com um simples aceno de cabea.
     - Se a senhorita puder ir  delegacia mais tarde, depois que descansar... - Renicki sentiu que Justin estava tenso e contendo-se a custo quando Terry foi trazido 
por dois policiais de uniforme. - Devagar, sr. Blade aconselhou.- Serena j sofreu bastante por um dia.
     Terry ergueu a cabea. Justin lembrava-se daqueles olhos azul-plidos e ansiosos que vira no tribunal. Naquela poca ele devia ter uns trs anos, pensou. Um 
beb... Sentiu a mo de Serena apertar a sua, e o dio esvaiu-se de seu corao. Enquanto era levado para a viatura, Terry olhava para Justin por cima do ombro.
     - Sinto tanto por ele... - soluou Serena. - Sinto tanto!
     Justin tomou-a nos braos.
     - Eu tambm.
     - Meus homens vo verificar a casa - disse o tenente Renicki, rspido. - Quando puder, ento, v  delegacia, srta. MacGregor...
     - Vamos, deixe a minha menina em paz! - ordenou Daniel e aproximou-se da filha.
     - Ela vai com Justin - interferiu Anna, pegando-o pelo brao e indo para uma das viaturas policiais - , e ns todos vamos para hotel cuidar do jantar.
     - Rena est bem, pai - comentou Alan, entrando no assento da frente, do passageiro, s ento percebendo como estava com fome.
     - Claro que sim! - Caine entrou atrs com a me e o pai, no ouvido de quem sussurrou: - Compro-lhe um charuto se voc ficar quieto.
     Daniel olhou para a esposa e acomodou-se no carro.
     -  ela est bem - concordou.
     - Vamos - Justin ajeitou seu palet nos ombros de Serena. - Vou lev-la para casa.
     - Vamos passear na praia. - Ela passou um brao pela cintura dele. - Preciso andar.
     - Voc est descala...
     -  o melhor modo de caminhar pela praia.
     - Voc no dormiu - comentou Serena, quando j pisavam na areia.
     - No, era impossvel eu descansar...
     Justin tinha mpetos de abra-la de novo para ter certeza de que ela era real. Procurando manter o brao leve sobre os ombros dela, beijou-lhe os cabelos.
     - Eu detestei machuc-lo - murmurou Serena mas no podia ter certeza de como ele iria reagir estando face a face com voc. H muito dio nesse rapaz, Justin. 
Isso  to triste!
     - Eu tirei algo essencial da vida dele. E ele tirou algo essencial da minha... - Justin parou, mantendo Serena bem junto de si, enquanto olhava o mar. - Estou 
surpreso por ele ter pedido to pouco dinheiro.
     - Pouco? - Ela fitou-o com as sobrancelhas erguida.
     - Em qualquer circunstncia, dois milhes de dlar  uma soma elevada.
     - Por alguma coisa sem preo?
     Justin segurou-lhe o rosto com as duas mos e roou lhe os lbios com os seus. Ento, um forte estremecimento agitou-lhe o corpo e ele beijou-a com selvageria.
     - Serena... - Beijou- a pelo rosto inteiro, at sua boca voltar a unir-se  dela. Distanciando-se o mnimo possvel, ele continuou: - Eu no sabia se ia poder 
abra-la de novo. E tudo que conseguia pensar era no que ele estaria fazendo com voc... e no que eu ia fazer com ele quando o pegasse.
     - Ele no ia me machucar. - A violncia ainda fervia em Justin, ento ela procurou acalm-lo com suas mos e lbios. - Consegui domin-lo de modo to fcil 
porque ele no queria me machucar.
     - Foi por minha...
     - Justin, chega! - Serena recuou, e os olhos azuis estavam escuros de zanga. - Voc no  culpado do que houve, e no vou ficar parada vendo-o assumir a culpa. 
O que aconteceu agora teve seu comeo h anos, com bebida e intolerncia. Agora terminou, esquea!
     - Como  que consegui at sentir falta de voc gritando comigo? - murmurou ele e puxou-a para si.
     - Masoquista! Sabe... - ela aconchegou-se ao peito dele por um momento - , tive tempo para pensar no nosso relacionamento.
     - Mesmo?
     - Sim. Acho que teremos que redefinir as regras. Intrigado, ele afastou-a de si.
     - Eu no sabia que tnhamos regras.
     - Estive pensando...
     Serena caminhou para a rebentao, descobriu que a gua estava gelada e voltou para junto de Justin.
     - E? - desconfiado, ele a fez voltar-se para encar-lo.
     - E achei que a presente situao no  muito prtica.
     - E da?
     - Decidi que devemos nos casar - declarou ela, firme.
     - Casar?
     Pensativo, Justin a fitou. Ela estava descala, em p na areia gelada, com um palet enorme, os cabelos emaranhados, e lhe dizia calmamente que deviam se casar! 
Uma hora atrs ela havia nocauteado um pretenso seqestrador com uma frigideira ... No era bem assim que ele imaginara aquele momento. Pensara pedi-la em casamento 
quando estivessem no quarto  meia-luz, apaixonados e prontos para fazer amor.
     - Casar - repetiu.
     - Sim. Ouvi dizer que a maioria das pessoas faz isso, ento resolvi ser razovel.
     - Voc  razovel... - assentiu ele, imaginando at onde ela iria chegar.
     - Vamos resolver na cara ou coroa? E como a sugesto  minha, sou eu que vou jogar a moeda.
     Enfiou a mo no bolso do jeans e pegou uma moeda.
     Justin riu e tentou tirar a moeda dela.
     - Serena, eu...
     - Oh, nada disso! A moeda  minha, eu jogo. Cara, casamos; coroa, no casamos.
     Antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa, ela jogou a moeda no ar e aparou-a, virando-a sobre as costas da mo e estendendo-a para ele.
     - Cara!
     Ele olhou a moeda, enfiou as mos nos bolsos e fitou Serena.
     - Quer dizer que perdi.
     - Claro que sim.
     Ela guardou a moeda com duas caras de novo no bolso.
     - Que tal jogarmos o melhor de dois ou trs?
     Um relmpago cruzou os olhos azuis.
     - Esquea, Justin.
     Serena deu um gritinho quando ele a agarrou e virou-a entre os braos.
     - Se pensa que no vai pagar a aposta, Justin, es...
     Ele a silenciou com um beijo e ela suspirou de prazer.
     - Eu nunca deixo de pagar minhas apostas - disse ele, junto aos lbios dela, e comeou a lev-la para o carro. - Deixe-me dar uma olhada nessa moeda.
     Serena rodeou-lhe o pescoo com os braos e mergulhou o olhar no dele.
     - S se voc passar sobre o meu cadver!
     Ela aninhou a cabea no pescoo de Justin e os dois riram, envoltos por uma indescritvel onda de felicidade.
